Luanda - Pode ser que, «de tanto apanhar», saiu à luta. Ou que tenha aberto um novo campo na sua estratégia de luta política rumo às próximas eleições. Ou ainda que, atenta aos sinais dos tempos e aproveitando o remoinho que atravessa o planeta de lés a lés com a «coisa» das redes sociais, decidiu criar um verdadeiro – esse sim – facto político. Seja pelo que for, ao conceder uma entrevista de oito horas (cinco horas no domingo e três na segunda-feira) directamente a centenas, senão milhares, de jovens na diáspora e não só, Alcides Sakala, o portavoz UNITA, terá protagonizado em política o que em jornalismo chamar-se-ia um «furo». Uma «cacha». Um exclusivo. Enfim.


* Vanessa Mayomona
Fonte: Semanario Angolense


 
A entrevista – que já entra para a História da Comunicação Social angolana como a primeira do género – foi organizada por uma jovem angolana residente na Holanda, chamada Vanessa Mayomona. Natural do Zaire, terse-á mudado para a diáspora na companhia da família. Inspirada certamente pelo que viu Barack Obama e Lula da Silva fazerem, lembrou-se de convidar Alcides Sakala para o que ela própria chamou «uma grande mesa redonda virtual».
 
Mesa redonda que foi um estrondoso sucesso. Jovens dos 18 aos 80 anos ficaram horas e horas literalmente colados aos computadores, seguindo uma interacção a todos os títulos interessantíssima. Pela primeira vez, depois das eleições de 2008, a UNITA, pela voz de Alcides Sakala, falou do seu projecto de Nação. Como pensa a Angola do futuro.


Abordou sem tergiversar assuntos até agora tabus, como as purgas na Jamba. Também não titubeou quando foi chamado a dizer da sua verdade em relação à polémica questão de Cabinda. E de «esquebra» – vá-se lá saber porquê– separa José Eduardo dos Santos do MPLA e faz dele o alvo principal da sua crítica política, ao dizer que o problema não é mais entre o MPLA e a UNITA (?!), mas sim entre o Chefe do Executivo e o Povo Angolano. Por um discurso que lembra o pendor programático de Abel Chivukuvuku – e talvez por isso mesmo – o humilde e discreto Alcides Sakala de repente se vê na grelha dos possíveis substitutos de Isaías Samakuva.
 


Devido ao alto grau de interesse de que esta entrevista se reveste, o SA retoma-a com a devida vénia e agradecimentos à Vanessa Mayomona e à Mila Malavoloneke, que nos forneceram as partes mais «suculentas» nela constantes. Fazemos ligeiros toques para corrigir as gralhas naturais nesse tipo de entrevista, em que os textos são digitados na hora.
 
Vamos, pois à Ermelinda Freitas:


 
- Dr. Alcides Sakala, o que pensa deste descontrolo do governo, a começar na corrupção, na Polícia sem instrução nenhuma, nem educação, nos funcionários públicos que não tem educação para falar com o povo... e muito mais?
 
Alcides Sakala - Como disse ontem, esta postura, que não é deliberada, depende da natureza do próprio regime, profundamente insensível aos problemas sociais das camadas mais desfavorecidas do nosso país. Existe, de facto, uma relação difícil, do ponto de vista ético, no quadro das relações humanas, entre governados e governantes. Em vez de servirem o povo, muitos governantes servem-se a si próprios, têm, de facto, Angola nos bolsos e não no «coração». Esta insensibilidade no tratamento com a população em geral, verifica-se no dia-adia, particularmente em locais de atendimento público, como nos hospitais, onde cidadãos sem recurso ficam submetidos a situações humilhantes, como aconteceu há tempos atrás com o caso Mingota, para citar apenas este.
 

Nelito Yambi: - Dr., acusação feita ao executivo da UNITA, sobre uns fundos, é verídica? É que, por sinal, esta acusação foi feita por alguém que esteve dentro do partido. Que se lhe oferece dizer a esta questão?

 
Alcides Sakala - Não tem fundamento. A UNITA continua a gerir os seus parcos recursos com muito rigor, sempre escassos para responder aos desafios que enfrenta no seu dia-a-dia. A UNITA continua aberta a qualquer auditoria credível para auditar as suas contas, como também tem apresentado regularmente os seus relatórios financeiros à Assembleia Nacional, ao Comité Permanente e à Comissão Política. Se assim não fosse, teríamos muitas dificuldades.
 


Artur Kalupe Paulo - Dr Sakala, caso a UNITA ganhe as eleições de 2012, tem este partido quadros suficientes para formar o Governo? Grato pela iniciativa e oportunidade que me foi dada em participar.

 
Alcides Sakala - Para além dos seus próprios quadros espalhados pelo país, a UNITA vai trabalhar com todos os angolanos já inseridos nas estruturas e instituições do Estado, assim como contar com os angolanos no exterior, que quiserem dar a sua contribuição. Faremos o contrário da prática do actual Executivo de se trabalhar apenas com quadros do partido actualmente no poder, excluindo outros que não sejam militantes dessa formação política. Vamos ter de evoluir para a profissionalização das carreiras públicas, integrando todos os angolanos no sistema de emprego, particularmente público, independente da cor partidária de cada um. Todos juntos faremos melhor para responder aos desafios da governação.

 
Augusto Maquembo C. Gunza: - Dr. Alcides, boa noite! A UNITA, volta e meia, afirma que há falta de transparência na gestão do país por parte do Executivo! Quais são os sinais de transparência que imprimem carácter à UNITA e, ao mesmo tempo, visíveis para os angolanos e convincentes, para o povo pensar que um governo da UNITA seria diferente ao do MPLA? Ou o povo iria apenas pela fé, acreditar sem ver nada, num mundo cada vez mais prático?

 
Alcides Sakala - Terá de se forçar a política de auditorias às contas públicas, por exemplo, por órgãos competentes, credíveis e apartidários. Haverá a necessidade de se reforçar o papel fiscalizador da Assembleia Nacional, suspenso até ao momento por ordem do seu Presidente (Paulo Kassoma), o que mereceu vários protestos, não só da sociedade civil, como também dos partidos políticos. Um dos papéis essenciais de um deputado é a fiscalização, suspensa por ordem da Direcção da Assembleia Nacional.
 


Nelito Yambi - Alguns historiadores alegam que o Dr. Savimbi criou a UNITA depois da sua tentativa de assumir a presidência do GRAE. Será verdade?
 

Alcides Sakala - Não corresponde à verdade. O Dr. Savimbi era, nessa altura, Secretário dos Negócios Estrangeiros do GRAE, quando deixou a organização, discordando com os seus métodos de luta. Defendia na altura, e como o fez até a sua morte em combate, que a Direcção dos Movimentos de Libertação Nacional não deviam ficar confortavelmente instaladas no estrangeiro, mas sim no interior do país, lutando lado a lado com o povo.
 

Mila Malavoloneke - Boa noite Dr.Sakala. Primeiramente, saúdo-lhe por ter aceitado este convite com prontidão. A minha primeira pergunta tem a ver com um artigo que li há dias do Dr. Celso Malavoloneke, jornalista do Semanário Angolense, que citava algo dito aqui no Facebook. Tinha a ver com o facto de em Angola não haver um partido de oposição, o que tem resultado em jovens como o brigadeiro Mata Frakuzx, dentre outros (frustrados), a agir como se fossem eles a oposição. O Dr. Celso disse que em uma das entrevistas do Presidente do partido, Sr. Samakuva, ele afirmava que pretendem terminar com a maior parte dos problemas sociais que nos cercam, mas não dizia como. Dr. Sakala, o que tem a argumentar sobre isso? Quais são os planos que o seu partido tem para terminar com a pobreza, falta de energia eléctrica e saneamento básico na maior parte da população? E o que o senhor tem a dizer sobre a pergunta: Cadê a oposição?


 
Alcides Sakala - Não sei qual é o conceito que o Dr. Celso Malavoloneke tem de partido da oposição. Seja como for, os verdadeiros partidos têm estratégias próprias para atingir objectivos políticos, sendo, para a UNITA, a vitória nas próximas eleições. Fazer lembrar que a UNITA é uma força política com presença nacional, nas aldeias, comunas, municípios e em todas as capitais provinciais. Ocupa espaço e tem presença nessas localidades com símbolos e estruturas, que o sistema procura destruir, nessa disputa de espaço político. Temos uma plataforma eleitoral que será apresentada quando for oportuno, que dá a visão da UNITA, enquanto partido alternativo. Iniciamos em Fevereiro deste ano, na localidade do Bailundo, novas formas de luta consagradas constitucionalmente, como a protagonizada pelo Deputado Numa, quebrando a partir daí o medo no seio de milhares de jovens que se têm manifestado em Luanda. O problema hoje já não entre a UNITA e o MPLA, como foi no passado, mas entre o Chefe do Executivo e o Povo de Angola.
 

Rafael Marques Morais - Caro Sakala, em função da sua resposta, tenho mais duas questões a colocar. Para quando um esclarecimento final sobre as circunstâncias ou eventuais formas de justiça aplicadas nas mortes de Ornelas
Sangumba, Chindondo, Tito Chingunji...

 
Alcides Sakala - Grato pela sua questão. Levanta uma questão, recorrente, e eminentemente política, fruto de convulsões internas,com profundos contornos ideológicos que ocorreram num contexto de guerra. Temos é a lamentar as mortes e as feridas que se abriram com a forma de justiça aplicada na época. Precisar-se-á de muito tempo para sarar as feridas abertas com este drama humano. É uma questão que a própria história se encarregará de julgar um dia. Alguns livros vão sendo já publicados e que levantam o véu sobre estas tristes ocorrências.

 
Ana Silva – Ontem, quando lhe foi questionado sobre se era possível a entrada de um não Ovimbundu na liderança da UNITA, afirmou ser possível e deixou algo no ar: «alguns partidos não o fariam». A que partido se estava a referir?


Alcides Sakala – Ana, grato pela sua reflexão, que me faz lembrar a forma como o Dr. Marcolino Moco, então primeiro-ministro, foi tratado pelo movimento espontâneo do Partido-Estado. São questões importantes, comuns em África, infelizmente, que devemos ultrapassar.

 

Erika, a Poderosa - Agradeço a oportunidade e começo por cumprimentar o Dr. Alcides Sakala pela grande oportunidade. A minha questão é esta: as eleições estão a caminho e eu já não vejo porque razão votaria no MPLA, mas também não me revejo em nenhum partido na oposição. Então pergunto ao Dr. Sakala: em que partido me aconselha a votar e porque? Obrigada.
 

Alcides Sakala - Naturalmente, no nosso partido, enquanto força política para a mudança. Aconselho-a a ler o nosso projecto de sociedade, na base do qual vamos governar o
nosso país.
 

Manifestações
 


Renata Massoxi - Boa-noite Dr. Sakala. Gostaria de saber porque é que a UNITA permanece um partido muito fechado do povo? Exemplo: só reclama quando um militante seu é injustiçado. Quando é que vão por exemplo realizar uma manifestação contra a falta de água e luz que a todos nós afecta, em vez de só se preocuparem convosco mesmo? Obrigada.
 

Alcides Sakala - Não somos um partido fechado. Somos um partido aberto à sociedade. Temos um projecto de sociedade que defende profundas mudanças sociais para Angola, em que o problema da falta de água e de energia, por exemplo, são prioridades. Somos,assim, um partido aberto à sociedade,que durante muito tempo foi vítima da diabolização do Partido-Estado. Assim, as manifestações são importantes,porque constitucionalmente consagradas, como as de este ano que ocorreram em Fevereiro no Bailundo em que participou com uma greve de fome o Deputado Numa, em sinal de protesto às violações aos Direitos Humanos. Logo, todas as manifestações para se reivindicar direitos são bem-vindas, que a UNITA encoraja, mas a grande manifestação terá de ser a adesão dos milhões no acto da votação para a mudança.


 
Délcio Bettencourt Mateus - Dr. Alcides Sakala, no primeiro round, respondendo a uma pergunta da Vanessa  sobre a sua posição ou a posição da UNITA em relação às recentes manifestações, disse: encorajamos os jovens a manifestarem-se pelos seus direitos, para fazerem ouvir a sua voz. Entretanto, um dia antes da manifestação do 7 de Março, o Presidente da Unita, Isaías Samakuva, referindo-se à mesma, disse em Portugal:
 
«...é esta manifestação que, na nossa maneira de ver, é uma armadilha ou um teste que o regime está a realizar».

 

E disse mais: «Portanto, quando digo que não acredito que se irá realizar essa manifestação, não é só porque a sua convocatória não está representada por ninguém, mas também porque o regime não está preparado para deixar este tipo de coisas acontecer. O regime não está suficientemente democratizado para permitir tais actividades».


Todavia a manifestação aconteceu, a despeito da incredibilidade e desencorajamento de Samakuva. Qual a posição da UNITA, afinal?
 


Alcides Sakala - Nunca houve desencorajamento porque as manifestações estão constitucionalmente consagradas.

O que temos defendido é que manifestações que se realizam tenham um rosto para serem credíveis, e com objectivos bem definidos. Não foi o caso da manifestação de 7 de Março, contrariamente às outras que se seguiram, já com propósitos e objectivos claros. Ironicamente, foi nesta altura, à volta do dia 7 de Março, como bem se lembrará, que o regime lançou uma forte campanha de diabolização contra a UNITA, acusando-a de ter encomendado armas, que se encontravam detidas no porto do Lobito, num barco que as transportava para o Quénia. Muitos angolanos nessa altura quiseram deixar o país, pensando que a guerra iria novamente começar. Assim, que se façam manifestações, mas que tenham rosto.
 

Fernando Tomás - Boa noite, Dr. Alcides Sakala. O que me traz por cá,além de si (um cavalheiro, e eu sou do Andulo,por isso sei porque o digo),é saber se, além da nota de protesto a nível institucional, da UNITA (a qual representa) acerca da perseguição, espancamento e tentativa de invasão ao domicílio perpetuado por pessoas manobradas por afectos ao regime (MPLA) ao jovem músico Luaty Beirão e aos organizadores da manifestação do dia 25 (dia de África), houve da sua parte ou da UNITA um empenhamento a nível pessoal, do tipo visitar os agredidos, deixar-se fotografar com eles, e assim mostrar que ao tocarem neles, tocavam em vocês e na UNITA? Ou por último, pergunto eu: a UNITA preferiu não sacrificar a sua imagem de partido de Estado em sacrifício de um maior envolvimento na protecção desses jovens? Da parte do Bloco Democrático, houve esse empenhamento e da UNITA qual foi além do institucional?


 
Alcides Sakala - Caro Fernando Tomás, temos tido o cuidado de gerir este processo com sentido de história; por isso, insistimos no encorajamento de se realizarem manifestações, mas com rosto. De facto, hoje o problema foi deslocado. Já não é entre a UNITA e o MPLA, como foi no passado, mas entre o Chefe do Executivo e a sociedade global, que clama por mudanças.
 
José Vieira ‎- Boa noite Dr. Alcides e todos os presentes! A questão que lhe coloco tem a ver com a diabolização que o governo utilizou para com a UNITA, acusando-a de querer dar início a uma nova guerra. Como isso não «colou» na inteligência dos angolanos, não é motivo mais do que suficiente para a UNITA agora fazer-se representar por alguns dos seus dirigentes e deputados nas manifestações de índole civil, dando a cara em apoio a causas que a todos dizem respeito? É que se fica com a impressão de que na UNITA o único que dá a cara é o General Numa e mais ninguém aparece na contestação ao regime!
 


Alcides Sakala - Foi de facto a UNITA que iniciou na Bailundo com as manifestações que se alastraram para o resto do país. Vamos dar, assim,tempo ao tempo. O é importante é que as manifestações que se realizam tenham rosto e com objectivos claros, como foi esta última realizada «contra a pobreza».
 


Só se fala de Agostinho Neto e não de Savimbi e H. Roberto
 


Stella Constantina - Boa noite Dr. Alcides Sakala. A minha primeira pergunta é a seguinte: tendo em conta que 4 anos de mandato é muito pouco tempo para se resolver todos os problemas que assolam o nosso país, se a Unita vencer as eleições de 2012, quais serão as suas três prioridades?

 
Alcides Sakala - Boa questão Stella. O partido irá, naturalmente, aprofundar esta matéria, mas podemos eleger, como primeira tentativa de abordagem, a área social como um dos pilares mais importantes da governação. Seguir-se-ia o processo de democratização, com vista ao seu aprofundamento, na perspectiva da separação de poderes, realçando a reconciliação nacional, a reinserção social dos ex-militares e de suas famílias. Por outras palavras, a construção da Nação angolana, inclusiva, multiétnica, multirracial e multicultural. Por último, eleger a necessidade de se criarem fortes instituições do Estado, instituições despartidarizadas. Mais do que homens fortes, Angola e a África precisam de instituições fortes para se criar a estabilidade. Os governos passam, mas os Estados ficam.


 
Mila Malavoloneque - Dr. Alcides, mais uma vez boa noite. Tal como a maior parte dos jovens aqui presentes, sou de uma geração que não viveu directamente a história da guerra civil no nosso país. A guerra cessou há quase uma década e ainda assim a minha geração pouco sabe sobre a verdadeira história por detrás dela. Por isso, somos muitas vezes obrigados a recorrer aos arquivos da «imprensa internacional».Será que o Dr. pode dizer quando teremos livros oficiais a relatar o assunto? Será que, tal como a história do apartheid que hoje é discutida abertamente em escolas sul-africanas a história da guerra civil em Angola também será abordada nas nossas escolas do ponto de vista dos principais partidos envolvidos? O que a UNITA tem feito acerca disso?
 

Alcides Sakala - Mila, grato pela sua pergunta. Penso que os sul-africanos foram abençoados por terem nesta fase da sua transição Nelson Mandela, um líder visionário e patriota, que foi capaz de imprimir profundas mudanças com vista à reconciliação nacional entre negros, brancos e mestiços. Mudou os símbolos e criou a nação «Rainbow» (Arco-Íris).


O nosso problema em Angola é que ainda se olha para um certo segmento da sociedade como inimigos e não como cidadãos. Enquanto as elites dominantes não forem capazes de ultrapassar este dilema, teremos o nosso país a caminhar para a consolidação de um sistema permanente de subversão dos valores da democracia. Assim se poder entender em relação aos símbolos nacionais; a história que ainda se ensina nas escolas, que só fala de Ngangula e não dos outros; só fala de Agostinho Neto, e não de Jonas Savimbi e Holdem Roberto. Enquanto não se interiorizar a necessidade de uma conivência sã, continuaremos a ter livros oficiais apenas com a história do partido no poder, a ser ensinada nas escolas, incluindo o hino nacional, que evoca apenas os heróis de 4 de Fevereiro. E os outros, onde ficam?

 
Todos os que quiserem concorrer  terão as mesmas oportunidades


 
Olinda Flor do Bíe - Agradeço a oportunidade que já me foi dada porque esperava há séculos por esse momento. A minha questão ao Dr. Sakala é a de muitos angolanos, e é a seguinte: acredito que a UNITA é um partido que acredita que para ganhar tem de ter o povo ao seu lado, e para ter o povo ao seu lado deve dar ao povo, sobretudo à juventude, aquilo que ela quer. E o que o povo, sobretudo a juventude, quer é ver o Chivukuvuku na liderança da UNITA e não o senhor Samakuva. Sabendo disso, a UNITA dará ao povo aquilo que o povo quer ou em vez disso preferirá agradar a si mesma com o senhor Samakuva? Obrigada!
 
Alcides Sakala - Grato pela sua questão. Os estatutos da UNITA são claros e ela adoptou em 2003 o sistema de candidaturas múltiplas. Todos os que quiserem concorrer terão as mesmas oportunidades, como aconteceu nos últimos congressos. Logo, como entenderá, a última vontade cabe aos militantes do partido, delegados ao Congresso, sendo, no entanto, legítima a sua preocupação.
 

Pedro Pinto - Saudações a todos. Dr. Sakala, espero que me responda esta pergunta como cidadão e não como militante. Atendendo que o próximo ano teremos eleições no nosso país, se o Dr. tivesse o poder de decidir sobre quem seria o futuro presidente de Angola, a quem o senhor atribuiria este cargo? Quem o Dr. acha que tem perfil ideal e está em melhores condições de dirigir o nosso país?
 

Alcides Sakala - Meu caro Pedro Pinto, posso lhe responder, se me permitir, sem ferir susceptibilidades, dizendo que não existirá certamente uma pessoa ideal. Mas na conjuntura actual, Angola tem a necessidade de ser dirigida por uma figura que se situe acima dos partidos políticos, com capacidade de reconciliar a sociedade angolana, trabalhar para uma real democratização do país, sem apetência de longevidade no poder, visionário, capaz de implementar políticas de desenvolvimento e de estabilização social. Alguém que inspire confiança pelo seu exemplo.
 

 
Sobre José Eduardo dos Santos
 


Cedella Chilombo - Boa noite Dr. Sakala. A minha questão é a que se segue. Qual a sua opinião em relação ao presidente José Eduardo dos Santos e o que acha do seu estilo de governação?
 
Alcides Sakala – Chilombo, grato pela sua pergunta. Podia ter feito melhor neste período do pós-guerra, mas não conseguiu situar-se acima do seu próprio partido e apresentar-se como Presidente de todos os angolanos. A nova Constituição é reflexo desta sua vontade política. Tem um estilo próprio de governação que lhe caracteriza. Contudo, o balanço da sua longa governação está muito aquém do desejável em matéria de respeito pelos direitos humanos e boa governação. Angola continua a ser citada em relatórios internacionais como um dos países mais corruptos do mundo, que se confronta com sérios problemas sociais, subalternizando os desafios de desenvolvimento humano. Não tem sido capaz de combater a pobreza, partindo do pressuposto de que a pobreza é um problema herdado do colonialismo, tal como se pronunciou muito recentemente. Logo, as políticas do actual Executivo estão na origem do aprofundamento do fosso entre ricos e pobres, que são a maioria. Ao ritmo da actual governação, Angola não será capaz de responder positivamente aos desafios da Agenda do Milénio das Nações Unidas.


 
A CNE é dominada pelo MPLA
 
Correia Sassonde - Boa noite Sr. Dr. Alcides Sakala. Referiu-se à necessidade de uma CNE independente, sendo  fundamental para a justiça eleitoral e processo de aprofundamento da democracia. Considera a actual CNE dependente? De quem? Qual é o papel dos comissários da UNITA na actual CNE?
 
Alcides Sakala - Caro Sassonde, naturalmente, do Executivo. A maioria dos membros deste órgão é do partido no poder e vimos em 2008 qual foi o papel que ela exerceu. Ficou praticamente subordinada ao poder executivo. Há que e alterar este quadro politico-jurídico, e conformá-lo à nova Constituição, para que seja de facto um órgão independente, com capacidade de tomar decisões políticas e administravas.


 
Correia Sassonde - Sr. Alcides Sakala, que perspectiva tem sobre a intervenção da Comissão Nacional Eleitoral (CNE), no próximo pleito eleitoral de 2012?
 
Alcides Sakala - Esta questão é muito importante. É fundamental para a justiça eleitoral e processo de  aprofundamento da democracia. Só uma comissão nacional eleitoral independente garante um processo equidistante e transparente de organização administrativa e política do processo e dos actos eleitorais. Doravante as eleições serão regulares, mesmo sem eleições presidenciais directas, anuladas por vontade do Chefe do Executivo. Teremos eleições legislativas e autárquicas, numa base regular. Por outro lado, também existem as recomendações da missão de  observação da União Europeia às eleições de 2008, que devem ser incorporadas no pacote legislativo eleitoral que vai agora à discussão na Assembleia Nacional.
 

Cabinda é Angola!
 

Bartolomeu Capita - Dr. Sakala, o MPLA já mostrou que enquanto Angola manter o seu poder colonial sobre Cabinda, a democracia e o desenvolvimento integral em Angola e nos dois Congos jamais serão realidades. Porém, a UNITA defende para Cabinda uma autonomia como a dos Açores com Portugal. Posso saber se UNITA iria combater os cabindas caso esses rejeitem a oferta (autonomia) da UNITA?
 

Alcides Sakala – Nunca faríamos isso. Temos um sentido profundo da história e Cabinda tem particularidades. Temos, assim, sido consequentes com as posições que temos assumido ao longo dos anos em relação à Cabinda. Defendemos, em primeiro lugar, o fim das hostilidades, para se dar a seguir lugar a negociações directas entre representantes do Povo de Cabinda e do Governo angolano. Defendemos para Cabinda uma autonomia ampla. Afinal, Cabinda não é só o petróleo; é um espaço onde existe uma população que pugna pela liberdade e justiça social. Por conseguinte, enquanto Cabinda estiver em guerra, Angola não está em paz.
 


Bartolomeu Capita - Dr. Sakala, sabemos hoje que antes de ser assassinado, o Presidente Marien Ngouabi do CongoBrazzaville, foi vítima de fortes pressões exercidas por potências europeias que queriam que o Congo anexasse Cabinda. A minha questão é de saber se a UNITA nunca conheceu pressões no sentido de jamais permitir adesvinculação de Cabinda, caso ganhe as eleições; e, se existem, pergunto se a UNITA não pensa denunciá-las à Administração Obama?
 
Alcides Sakala - Sempre considerámos Cabinda como sendo parte do território angolano, que tem especificidades próprias decorrentes da sua história e localização geográfica. Infelizmente, o continente africano herdou fronteiras impostas pelas potenciais coloniais, o quem dificultado a construção dos estados e nações africanas. Por isso, defendemos para Cabinda uma autonomia ampla que permita às populações da região usufruírem das suas riquezas. De facto, é conhecido por todos os apetites dos Estados vizinhos em relação à Cabinda. Mas, Cabinda é parte integrante do território angolano. É neste contexto que tem de ser aproximado o problema. Logo, qualquer pressão que   eventualmente venha a existir, será um atentado à nossa soberania e independência nacional. ■


 * Compilação de Celso Malavoloneke



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