Lisboa - É um dos raros salazaristas que se conhece. Vendo bem, talvez seja mesmo o único na maneira que é a sua de o ser: o sentimento vem-lhe de dentro e exterioriza-o sem titubear.  A ninguém, como a ele, se conhece tão antiga e extremosa admiração pelo Homem que ao longo de 40 anos comandou os destinos de Portugal na dimensão imperial a que a revolução do 25 de Abril, na sua estonteante voragem, desastradamente pôs termo. Pinheiro da Silva, o sujeito desta história, tem, porém, uma particularidade: nasceu em Cabinda, uma origem também presente na sua condição de mestiço.


Fonte: Lusomonitor.net

Para ele, Cabinda será um dia independente

Num ninho de vira-casacas como aquele em que Portugal se transformou a seguir à revolução, assim passando uma esponja providencial sobre tantos salazaristas, porquê uma tão antiga e indefectível dedicação a Salazar – inclusive criando e mantendo uma colectividade a que deu o nome de Núcleo de Estudos Oliveira Salazar? Diz que é por ter nascido português de um Portugal Maior, disperso por sítios como aquele que lhe serviu de berço, em África; portuguesa foi também sempre a sua alma – acrescenta.  Olha para Salazar como último símbolo desse Portugal e intérprete fiel da alma nacional que lhe correspondia.

 

Ao seu próprio ser, em especial à mestiçagem de que é fruto, associa um outro forte e profundo sentimento de admiração por alguém  – neste caso de significado diverso da que cultiva em relação ao Professor Salazar, como respeitosamente faz questão de o tratar. É a admiração por seu Pai, João Pinheiro da Silva um humilde metropolitano nascido em 1898, em Folgosa, Seia, e que em 1915, com 17 anos apenas, se fez à vida, mar afora, num veleiro daqueles tempos, indo parar a Cabinda.

 

Salazar e o Pai estão representados em muitos dos numerosos retratos, gravuras e óleos que literalmente forram as paredes do apartamento em que mora em Algés, nos arredores de Lisboa. Lamenta que não esteja ali a Mãe, de seu nome Maria Boela, uma negra de Cabinda, que tinha por terra natal Bomelambuto, arredores da capital. Morreu jovem, num transe imprevisto, tinha ele apenas 6 anos. A isso atribui “a tristeza” de dela não ter ficado nenhuma simples foto.

 

Do perfil de Pinheiro da Silva faz parte um outro traço – este mais corrente. É monárquico, qualidade que um emblema sempre presente na lapela atesta. Há poucos anos soube por alguém com apropriado conhecimento do assunto que sua Mãe descendia de uma das linhagens da realeza do Congo. E por isso passou a considerar-se duplamente monárquico.

 

Os tempos gloriosos do secretário provincial da Educação


José Pinheiro da Silva, de seu nome completo, herdado do avô paterno, deixou o seu nome indelevelmente ligado ao “boom” económico e social que em parte das décadas de 60 e 70, a seguir à eclosão da guerra, a que ainda chama “terrorismo”, fez Angola avançar muitas casas – como apetece dizer – e a transformou completamente. Era por esse tempo secretário provincial da Educação (secretário provincial era a figura correspondente aos governantes da Angola ultramarina de então). Exerceu o cargo entre 1964 e 1971; a memória que os mais antigos dele conservam vem daí.

 

Não deixa, porém, que os altos méritos da governação de Angola a que pertenceu se confinem a si próprio. Realça em especial a acção do Governador-Geral, Silvino Silvério Marques, uma figura umbilicalmente ligada ao Ultramar, como faz questão de o tratar. Fez recentemente 93 anos e Pinheiro da Silva foi um dos convivas da celebração. Costa Oliveira, o inteligente secretário provincial da Economia, e Carloto de Castro, secretário provincial das comunicações, um dinâmico engenheiro militar que polvilhou o território de estradas, pontes, barragens, etc, são outros obreiros de Angola.

 

Os anos do seu consulado como secretário provincial da Educação não ficaram marcados apenas pela galopante expansão do parque escolar (Jaime Monteiro, da Fazenda advertia-o amiúde de que estava a gastar de mais em tal empresa) ou pelo aumento exponencial da população escolar, quase a atingir 600.000 estudantes, nos vários níveis de ensino, em 1973. Coube-lhe também a tomada de medidas que alteraram radicalmente conceitos, modelos e práticas em que o sistema educativo se baseava, articulando-o melhor com a realidade social.

 

Foi dele, por exemplo, a ideia de fomentar a integração étnica da população estudantil. As Escolas de Habilitação de Professores de Posto, que espalhou pelo território com a finalidade de formar docentes para as escolas rurais, foram obrigadas a acolher alunos de diferentes partes e não apenas da área de implantação. Diz que a medida foi inspirada por um episódio revelador da aversão que existia entre cuamatos e ganguelas. Pô-los a viver uma vida comum, desde a infância, seria uma forma de atenuar o fenómeno. E assim aconteceu.

 

É a seu crédito que entra a criação e implantação de muitos novos liceus e escolas técnicas, preparatórias, institutos – todos dotados de instalações construídas de raiz; o programa da criação de cantinas escolares e o apoio às escolas das missões; ou coisas mais simples como as campanhas de plantação de árvores nos pátios das escolas, a atribuição de nomes de extracção ultramarina como patronos de Escolas (Honório Barreto, Óscar Ribas, Barão de Puna, Luis Gomes Sambo) ou o “salto” que a Mocidade Portuguesa conheceu nos seus tempos, a ponto de ter passado a ser considerada como a mais bem organizada e activa dos corpo então existentes nas partes do país.

 

A memória prodigiosa que tem ajuda e deve ser por isso que ainda se lembra do caso de Benjamim Liaunhica, professor de posto  da Escola “Aurora do Progresso”. As autoridades suspeitavam da sua lealdade e disso foi dado conhecimento a Pinheiro da Silva numa visita ao estabelecimento. Conversou com ele. Algum tempo depois a “Aurora do Progresso” batia todas as outras na plantação de árvores e Liaunhica afirmou-se como um dinâmico dirigente da Mocidade Portuguesa.

 

Uma das fotos daqueles tempos e daqueles lugares exibida nas paredes de sua casa mostra um simples monumento público constituído por um busto seu, assente numa peanha de pedra. Foi onstruído em sua homenagem pela população da Gabela que para o efeito se cotizou. Ao busto, moldado por escultor hoje anónimo, mas genial,  falta apenas o chapéu que Pinheiro da Silva invariavelmente usava. Estivesse lá o mesmo e o busto seria uma cópia fiel e completa da aparência que então tinha – muitos anos mais novo que os 87 actuais. O resto, sob a forma de traços de personalidade, esses não podiam estar ilustrados no busto: a educação e a simplicidade que irradiava; o tom sibilino da sua voz, etc.

 

As origens em Tshela e andanças seguintes

 

Não foi propriamente em Cabinda que nasceu, naquele 8 de Maio de1924, mas isso foi por mero acaso. É Cabinda que considera ser a sua raiz telúrica. O pai, chegado a Cabinda em 1915 (haviam passado apenas alguns anos sobre a assinatura do Tratado de Simulambuco), depressa se deixou atrair pela possibilidade de um emprego melhor do lado de lá da fronteira – no então chamado Maiombe belga. Ali se instalou e ali lhe nasceram todos os filhos. O quarto não só não sobreviveu ao parto, como custou a vida à mãe,  Maria Boela, que por essa razão ali foi sepultada.

 

Entre as coisas que gaba no pai, exemplos de vida de um  humilde empregado comercial, a que mais enfatiza é protecção que, muitas vezes em circunstâncias adversas, garantiu aos filhos, velando pela sua segurança e garantindo-lhes um futuro que pelo menos fosse igual ao seu. Segue-se a vida de afectos e harmonia que diz ter sido a que viveu com sua mãe, durante 12 anos. Nos anos a seguir à sua morte são constantes as romagens de saudade à sua sepultura, sempre levando os filhos pela mão. Por fim, exalta o irrepreensível patriotismo do pai.

 

A localidade do antigo Maiombe belga onde nasceram e viveram os três  filhos de João Pinheiro da Silva e Maria Boela, dois rapazes e uma rapariga, é mesmo na fronteira com Cabinda. Tem hoje a grafia de Tshela; sempre foi um posto fronteiriço. Mas não foi aí, território belga, que por sua vontade, baptizou qualquer deles. Isso só aconteceria em Luanda, muitos anos depois, no caso de José quando já tinha 12 anos. O argumento que usou foi o de que era preciso serem baptizados em território português.

 

A “aventura” de Tshela terminara mal para  João Pinheiro da Silva. Os efeitos da grande depressão de 29/30 arruinaram o comércio e a loja que entretanto tinha montado, foi na torrente. Segue-se Cabinda, aonda chegou  de mãos a abanar –  por isso pedindo na missão católica que lhe acolhessem temporariamente os filhos, impossibilitado que estva de os amparar. Irá buscá-los e traze-los de volta mais tarde, logo que dá a sua vida como recomposta – desta feita em Ponta Negra. O pecúlio que aí junta decide aplicá-lo na abertura de uma loja em Cabinda, aonde torna. Mas as coisas não correm de feição. Agora é em Luanda que decide instalar-se.

 

Ao fim de três anos – a linha da sua vida continua a ser quase a de um saltimbanco…. – resolve instalar-se em S. Salvador do Congo, para onde leva a filharada. Em Luanda, o filho José fora aluno externo do Seminário e isso facilita a sua entrada na missão Católica local, também como aluno Externo. Aqui faz a antiga 4ª classe (exame em Maquela do Zombo) e é aqui que se relaciona com o Padre Liberato Pedro Pimentel , um mestiço natural de Malanje (morreu no Brasil, para onde foi a seguir aos tempos conturbados da independência), que vê como alguém que teve grande influência sua vida.

 

A resposta que João, irmão mais velho de José, deu um dia ao padre Liberato Pimentel, quando este lhe perguntou o que queria ser na vida, influenciou mais uma vez o destino da prole Pinheiro da Silva. João respondeu-lhe que queria ser enfermeiro – como viria a sê-lo. Mas Escola de Enfermagem só havia em Luanda e por isso aí voltam. A José, já com a 4ª classe feita, o padre julga que o melhor será continuar os estudos e escreve uma carta de recomendação à Liga Nacional Africana, onde era leccionado o 1º ciclo.


Olívia de Oliveira, como se chamava a directora da Liga, diz um dia a José que quer falar com o pai dele. O que tem para lhe dizer é que José é muito inteligente e por essa razão acha que poderá fazer de uma só vez o 1º e o 2º ciclo, dispondo-se mesmo de tratar de o “meter” no Colégio D. João II, instalado no Palácio Dª Ana Joaquina, onde eram ministrados todos os ciclos. É no D. João II, dirigido por Fernando Pimentel Junior, professor de inglês, não formado, que, com 16 anos,  acaba por fazer também o 3º ciclo (os exames eram no Liceu Salvador Correia).

 

De chefe de posto a professor do Liceu

 

O que espera o jovem José Pinheiro da Silva, já com o antigo 7º ano concluído, é o quadro administrativo. Esteve colocado nos postos do Cuma, Lépi, Vila Arriaga  (circunscrição da Bibala). Chega a ser chefe de posto interino em Caitu – território dos Mucubais, que lhe dão uma alcunha que traduzida para português quer dizer “homem novo com pensar de velho”.

 

Já está devidamente tarimbado na carreira administrativa, mas sempre interinamente (como então se chamava aos precários de hoje), quando finalmente é chamado para concorrer ao quadro – ele e mais cinco. É admitido e já está nomeado chefe do posto dos Gambos quando a Liga Nacional Africana lhe comunica que dispõe de uma bolsa para prosseguir os seus estudos, agora superiores, na metrópole. Aceita com o mesmo sentido intuitivo que norteou a sua vida. Estamos em 1947.

 

Agostinho Neto é o seu companheiro de  viagem, inclusivé de camarote, no paquete em que viaja para Lisboa. Em Coimbra, universidade a que ambos vão destinados, continuam juntos, inclusive partilhando o mesmo quarto. Mas não guarda memórias dessa convivência. Diz que Neto era muito pouco expansivo. Mas também se percebe que não gostou da sua maneira de ser e por isso deve ter sido escasso o convívio mútuo.  Não lhe perdoa um comentário depreciativo que anos mais tarde fez à sua pessoa.

 

Em 1952, José, um dos filhos daquele humilde e esforçado rapaz de Seia, que resolvera ir para África à procura de “ganhar para o pão” e, se possível, garantir futuro, está formado em Ciências Históricas e Filosóficas com a nota final de 15 valores. Segue-se a sua entrada no Liceu D. João III de Coimbra, como professor estagiário de Filosofia. É o único a entrar num grupo de 31 admitido a concurso. Conforme prática de então, não tem direito a qualquer remuneração. Vale-lhe uma bolsa do IASA (Instituto de Acção Social de Angola).

 


É em Viana do Castelo, em cujo Liceu passara a leccionar história e filosofia, já como professor efectivo, que um dia é apresentado a Salazar, que o cumprimenta com um aperto de mão e com ele troca algumas palavras de circunstância. Estamos em 1961, o ano que que reservara a Angola acontecimentos de monta. Além de professor do Liceu, era também “deputado da nação”, como então se dizia, eleito nas listas da União Nacional.

 

Regresso a Angola

 

O  ano de 1964 é outro que marca de modo especial a vida de José Pinheiro da Silva. Já tinha deixado o Liceu de Viana do Castelo, para passar a assistente da recém criada Universidade de Luanda, cadeira de História da Educação, curso de Ciências Pedagógicas, quando o então ministro do Ultramar, comandante Peixoto Correia o convida para secretário provincial da Educação de Angola.

 

De chofre diz que não. Alega que não tem experiência política, apesar de continuar como deputado, e duvida que possa vir a desempenhar bem a tarefa. Mas muda de ideias e aceita o convite quando o ministro lhe confidencia, entredentes, que fora o próprio Doutor Salazar que sugeria o nome dele. Se a indicação de Salazar se deveu a critérios de competência, mas também à sua condição de mestiço, português dos trópicos, o balanço que fez é o de que não terá desapontado o convidante. Exerceu o cargo aplicando-se ao máximo. E do seu portuguesismo nunca houve sombra de dúvida.

 

Aos 87 anos vive rodeado de memórias feitas retratos, recortes de imprensa, livros ou apenas lembranças que lhe povoam a mente. Ao Doutor Salazar e ao Pai, senhor da sua gratidão filial, juntaram-se outros dois entes cuja partida se percebe ter-lhe sido dolorosa. A Esposa, Ivone Maria Ferreira Gabriel, uma conimbricense, professora como ele, finada há pouco depois de longa vida em comum. E antes dela, a única filha de ambos.

 

Não guarda ressentimentos. Nem da forma dita despropositada como, na esteira dos fulgores do 25 de Abril, foi saneado e compelido a aposentar-se. Estava então colocado no Ministério do Ultramar, como Inspector Superior. Foi o que se seguiu aos seus “trabalhos” como secretário provincial da Educação.

 

Há uma viagem que não desdenharia fazer – mesmo apesar de não ser grande a tentação que hje tem por viagens. Seria a Cabinda.Para José Pinheiro da Silva, Cabinda será um dia independente. O seu raciocínio é simples: não foi uma possessão portuguesa de conquista; foi-o por que os nativos, povo antigo, em tempos cultor de uma escrita própria, quiseram ser portugueses, de modo a livrarem-se do jugo de ingleses e franceses que infestavam a zona. Não para serem angolanos.



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