Lisboa - Ermelinda Freitas é o nome de uma das manifestantes do 3 de Setembro, detida e julgada nos últimos dias. Ela foi uma das três pessoas absolvidas. Os outros 17 não tiveram a mesma sorte e vão enfrentar até 3 meses de cadeia por terem erguido a voz publicamente contra o regime de JES.


Fonte: Aline Frazão 

Em Angola andamos com os valores trocados

Assistimos, desta forma, em Angola, a um regresso às claras ao tempo dos presos políticos, depois de um julgamento injusto e absolutamente escandaloso, onde a separação de poderes foi violada mais uma vez, fechando assim os negros contornos de mais um episódio de impunidade na nossa História política recente.

 

Ermelinda, Diana, Elsa, mães indignadas à porta do tribunal… elas foram algumas das protagonistas dos acontecimentos dos últimos dias. Elas também saíram à rua para gritar “liberdade” e para exigir uma Angola mais justa. Infelizmente, o país caminha no sentido inverso: vive uma profunda sonolência política e uma grave crise de valores.

 

Não posso deixar de ficar altamente indignada e ofendida com as bocas que se andam a encher de palavras de orgulho por causa da eleição de Leila Lopes como a Miss Universo 2011. Indigno-me e ofendo-me por essencialmente três motivos.

 

Em primeiro lugar, como mulher, considero ofensivo qualquer concurso de Misses porque perpetua esse vício de valorizar a mulher pela sua aparência física, reservando-lhe somente o lugar de enfeite, entretenimento e sedução num mundo ainda, infelizmente, dominado por homens nas questões que realmente importam para a população. Indigno-me ao ver mulheres angolanas a dizer que “estamos todas de parabéns pelo feito de Leila Lopes”, esquecendo os feitos de Ermelinda, Diana e Elsa, por exemplo, mulheres que arriscaram a sua vida para gritar pelos direitos básicos de 16 milhões de angolanos e angolanas. Indigno-me com os homens angolanos a encher a boca para gabar a beleza da qual, dizem eles, nunca puderam resistir, como se o valor da beleza fosse o valor supremo quando falamos de mulheres, “as vossas musas”. Só mesmo a Beleza poderá ser o tema quando elas são o centro da notícia. Pergunto-me até quando vamos achar isso normal.

 

Em segundo lugar, todas sabemos, ou imaginamos, a quantidade de dinheiro que o Comité Miss Angola, amadrinhado por Ana Paula dos Santos, tem investido nesse concurso ridículo e ofensivo ao longo dos anos, dinheiro esse que seria muito mais últil para a mulher angolana se fosse aplicado na sua saúde e educação, no planeamento familiar, no seu emprego. Pergunto-me como nos podemos orgulhar disso.

 

Por último, indigno-me com essa sede de orgulho nacional e com a recente onde de manifestações de “Amor a Angola” com as conquistas da selecção de Basket ou mesmo de Leila Lopes. Manifestações essas um tanto quanto esquizofrénicas e balofas, pois tão rapidamente estas figuras públicas merecem estar num pedestral como são altamente desprezadas. Ou já esquecemos os comentários que fizemos à ida de Leila ao programa do Jô Soares? Ou já esquecemos quantos fomos receber a selecção ao aeroporto pelo vice-campeonato?

 

Essa sede de sermos reconhecidos internacionalmente como os melhores em alguma área, seja ela desportiva ou… de beleza feminina, parece-me uma maravilhosa forma de fecharmos os olhos ao que realmente importa para Angola. E reparem que nos últimos meses há outras notícias das quais nos poderíamos orgulhar, como por exemplo o facto de termos finalmente perdido o medo de sair à rua e expressar o nosso descontentamento pelo estado do país. Centenas de jovens angolanos têm-se manifestado de forma pacífica e crítica sobre a maneira como se tem gerido o país, como uma democracia de verdade deve ser. Isso não é motivo de orgulho?

 

Desde o meu ponto de vista, todas as pessoas que fechem os olhos ao que anda a acontecer nas ruas de Luanda, às vozes que andam a gritar pelos direitos do povo, aos jovens que foram presos e agredidos por quererem um país livre, todas as pessoas que desprezam o verdadeiro valor destes factos revelam um anti-patriotismo e uma irresponsabilidade indignante e ofensiva.

 

Em Angola andamos com os valores trocados. Quando temos que sentir vergonha, sentimos orgulho. Quando devemos falar, ficamos calamos. Quando devemos reclamar justiça, deixamo-nos embriagar entre Cukas e Kizombadas. Vemos problemas onde há vitórias e vitórias onde há enganos. Consentimos a nossa própria desgraça, a nossa prisão, a nossa miséria.

 

Não se enganem mais só, que pelo caminho a factura é demasiado alta.

 

Kukiela



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