Luanda -  Nunca fui e nem pretendo ser, o homem mais honesto deste país a fora. Razão pela qual, sempre tomei a máxima precaução neste universo selvático da política angolana para não violar, constitucionalmente, as liberdades atribuídas a cada cidadão nacional, mesmo quando este (o cidadão) não for digno de usufruí-las.


Fonte: Club-k.net


José Eduardo dos Santos é um desses cidadãos. Pois, esta criatura, precisamente, insensível vive longe do sofrimento do povo que, segundo o mesmo, o elegeu nas últimas fraudulentas eleições legislativas, em 2008.


Precisamente há mais de seis meses, na veste do presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos, desafiou os angolanos, no seu discurso de abertura da I Sessão Extraordinária do Comité Central do MPLA, a provarem, substancialmente, se ele tem em sua posse uma fortuna avaliada em 20 biliões de dólares norte-americano, no estrangeiro. Assim dizia ele:  

“(...) Na Internet, alguém pôs a circular a notícia de que o Presidente de Angola tem uma fortuna de 20 biliões de dólares no estrangeiro. Se essa pessoa fosse honesta e séria, devia indicar imediatamente ao Departamento de Inteligência Financeira do Banco Nacional de Angola (BNA) os nomes dos bancos e os números das contas em que esse dinheiro está depositado, para que o Tesouro Nacional possa transferir esse montante para as suas contas”, desafiou José Eduardo dos Santos, continuando “mas isso não é nem será feito porque se usa a mentira, a intriga, a desinformação e a manipulação para dividir as forças patrióticas e afastar o povo do Governo, preparando deste modo as condições para executarem os planos de colocar fantoches no poder, que obedeçam à vontade de potências estrangeiras que querem voltar a pilhar as nossas riquezas e fazer-nos voltar à miséria de que nos estamos a libertar com muito sacrifício”.

 

Não obstante num dos parágrafos anteriores destes, José Eduardo dos Santos se defendia: “(...) Dizem, por exemplo, que há pobreza no país. Nunca ninguém disse que não há e, esta situação não é recente. Quando eu nasci e mesmo quando os meus falecidos pais nasceram já havia muita pobreza na periferia das cidades, nos musseques, no campo, e nas áreas rurais”.
Prosseguiu “Agostinho Neto falou nos seus versos da miséria extrema dos musseques, das casas de lata sem água nem luz eléctrica. António Jacinto, outro poeta proeminente, falou do contratado, cujo pagamento era fuba e peixe seco e porrada quando se refilava.
Foi no musseque e no campo, nesse mundo de pobreza, que a maior parte de nós nasceu, cresceu e forjou a sua personalidade. ”

 

Entretanto, resumiu. “Conhecemos a origem da pobreza em Angola. Não foi o MPLA nem o seu Governo que a criou. Esta é uma pesada herança do colonialismo e uma das causas que levou o MPLA a conduzir a nossa luta pela liberdade e para criar o ambiente político necessário para resolver esse grave problema.”


Felizmente ou infelizmente não conheço, até agora, nenhum cidadão de nacionalidade português, mesmo ao longo dos mais de 500 anos de colonização, que conseguiu em tão pouco tempo economizar – em 32 anos – mais de 20 biliões de dólares e possuir tantas empresas modernizadas inexistentes no país.


Ainda neste mês, o líder do Partido Popular (PP), David Mendes, teve a enorme coragem de ser o primeiro cidadão angolano a denunciar publicamente com provas, uma das dezenas de contas bancárias possuído pelo Presidente da República, José Eduardo dos Santos, num dos bancos que contém mais de 37 milhões de dólares (cujo número da conta é: 275748 e 275903), no Panamá. Não obstante, do presidente do PP ter o desafiado a processá-lo judicialmente por difamação, caso entenda que é falsa a revelação.

 

Covardemente, José Eduardo dos Santos limitou-se, até agora, a mergulhar – sem o colete de salva vida – num oceano de silêncio injustificável. Nem teve, em momento nenhum, a mesma petulância do dia 15 de Abril do corrente, de vir ao público para contrariar as acusações feitas pelo o advogado do povo David Mendes.


Outrossim, os jornalistas portugueses Pedro S. Guerreiro e Fernando Sobral no livro intitulado “Os mais poderosos da economia portuguesa”, lançado este mês em Lisboa, acusam-no de ser o sexto manda-chuva que tem, realmente, algo a dizer na economia portuguesa.
Segundo os autores “todos os caminhos do poder angolano vão dar ao Presidente da República. Discreto mas activo, a sua força política em Portugal cresce com o PSD, reforçando um poder económico especialmente visível através da Sonangol e da ‘princesinha’ Isabel dos Santos. É um poder crescente e cada vez mais sólido. Na economia portuguesa. E para as empresas portuguesas em Angola.”

“A bolsa de valores Luanda é um projecto antigo e inexistente. Mas se para lá fossem transferidas todas as empresas portuguesas com interesses em Angola, o PSI-20 passaria nos empresários, dos aventureiros aos desventurados, Angola passou a plano A de Portugal. E José Eduardo dos Santos é a soma de todas as partes. O vértice de uma pirâmide onde assenta o poder angolano. Dentro e fora de portas”, revelam os jornalistas.

De acordo com os denunciantes, “Galp, Portugal Telecom, Zon, EDP, Sonae, Mota-Engil, BPI, BES e BCP são apenas algumas das empresas que têm interesses em ou com Angola. E a presença de consumidores angolanos nas lojas de luxo em Lisboa, e de empresários angolanos a comprar casas na Quinta da Marinha, quintas do Douro ou restaurantes no Guincho é também cada vez mais visível. Quando se olha para o crescente poder económico angolano em Portugal, segue-se o trilho que leva ao poder político. E ele vai ter, inevitavelmente, a José Eduardo dos Santos. Não porque ele decida tudo. Mas porque ninguém decide contra ele”.

A obra assegura ainda que “ao longo dos anos, o poder angolano solidificou-se em Portugal. A aquisição do BPN pelo BIC foi apenas mais uma pedra do jogo de xadrez que Angola vai desenhando, num Portugal mais disponível e carente de investimento externo que traga dinheiro liquida. Não foi por acaso que foi a Angola que Paulo Portas fez a sua primeira visita oficial como novo ministro dos Negócios Estrangeiros. Há gestos que têm mais valor do que os assuntos tratados nas reuniões em Luanda.”

“Angola é um dos vértices principais da política externa portuguesa. E José Eduardo dos Santos sabe-o. Ele que conhece, como a palma da sua mão, o poder em Angola, também sabe as linhas da vida que animam a relação econômica (mas também política e, de alguma maneira, cultural, com quem partilha a mesma língua). Portugal é o porto mais seguro para Angola ter um pé na Europa. Uma Europa que, em termos econômicos, olha para o regime angolano com desconfiança”, salientam os jornalistas.

Os autores descrevem que “José Eduardo dos Santos faz da discrição o seu maior poder. Mesmo não sendo uma voz activa em Portugal, o seu peso é visível. Através de empresários angolanos. Ou através de decisões e promessas. Em público, a sua voz tem um timbre suave. Mas é escutada com toda a atenção. Por isso não se duvida que a estratégia econômica angolana em Portugal passa pela aprovação do poder central de Luanda. Há interesses comuns entre os dois países. E a sombra tutelar de José Eduardo dos Santos está sempre presente nos momentos decisivos. Nunca as relações econômicas entre Angola e Portugal pareceram tão activa.”

Acrescentando que “a face desse forte peso angolano na economia portuguesa tem um rosto que reside no palácio da Cidade Alta e chama-se José Eduardo dos Santos. Esses investimentos ‘são tímidos, por enquanto’, segundo o próprio afirmou em março de 2009. O primeiro grande investimento em Portugal foi a compra, em Dezembro de 2009, de 10% do capital da Zon por Isabel dos Santos, a sempre discreta filha de José Eduardo dos Santos, por 164 milhões de euros. Essa timidez foi desaparecendo.”

“A venda do BPN exemplificou isso mesmo, mas o crescente peso estratégico no Millennium BCP e o mistério por desvendar na composição accionista da Galp, mostram que há muito terreno para esse peso se afirmar. As ‘holdings’ de Isabel dos Santos e a Sonangol, dirigida por Manuel Vicente, são os rostos mais conhecidos dessa presença. Mas há mais. Diz-se que o general Hélder Vieira Dias (Kopelipa), chefe da Casa Militar de Eduardo dos Santos, tem uma presença no banco BIG (7,8%) e é proprietário de quintas de vinho no Douro, e que Aldemiro Vaz da Conceição, porta-voz do Presidente angolano, será um dos accionistas da Newshold, que marca presença no semanário ‘Sol’. Apesar dessa presença directa, há dúvidas quanto ao verdadeiro compromisso de capital de Angola. Muitos investimentos são feitos com crédito de bancos... portugueses, a empresas com sede em ‘offshores’”, frisam os autores.

O livro revela ainda que “sem uma presença directa, José Eduardo dos Santos é, indirectamente, uma voz com que hoje é preciso contar no mundo da economia portuguesa. Tem amigos fortes em Portugal: desde logo, Aníbal Cavaco Silva, cujo papel determinante no reconhecimento internacional do MPLA ele nunca esquecerá, e José Manuel Durão Barroso, pelos mesmos motivos. José Sócrates foi o responsável pela evolução das relações do PS com Angola, hoje muito mais desanuviadas, mas quer Pedro Passos Coelho, quer Paulo Portas mostram querer fortalecer essa ligação. No outro lado da moeda do PS está o inimigo que José Eduardo dos Santos nunca esquece: Mário Soares, apoiante até ao fim de Jonas Savimbi. Por causa disso, durante anos, até à chegada de Cavaco Silva a primeiro-ministro, as relações entre Portugal e Angola estiveram inquinadas”.


Enfatizando que “a teia hoje é enorme, criada, sobretudo, pelas ‘holdings’ de Isabel dos Santos e da Sonangol: Millennium BCP, BPI, BIC, Totta Angola, BES Angola, CGD, BPN. A Sonangol assinou em 2009 uma parceira com a CGD para a criação de um banco de investimento luso-angolano e uma outra com a EDP para desenvolver projectos energéticos em Angola. E as suas participações financeiras não ficam por ai: é accionista de referência do Banco Africano de Investimento (BAI) e do Banco Privado Atlântico (BPA).”

 

“A relação com Portugal é forte e isso é importante com José Eduardo dos Santos. A Europa continua a olhá-lo com desconfiança, como mostrou a reportagem da “The Economist” sobre as relações entre Angola e China no misterioso consórcio Queensway (ou China Sonangol), que nos últimos sete anos “assinou com África contratos de milhares de milhões de euros em petróleo, diamantes e minério”. A revista britânica liga Manuel Vicente, presidente da Sonangol, e Helder Vieira Bataglia a todas estas acções, onde não faltam acusações de desvio de largas somas de dinheiro destinadas a escolas, hospitais e estradas que acabavam em contas privadas. É esta opacidade da economia e da elite angolana que faz desconfiar a Europa. Com uma nota adicional: a dependência do preço do petróleo. Angola com petróleo a 120 dólares por barril não é a mesma Angola com petróleo a 80 dólares por barril. Disso se queixam, aliás, muitas empresas que lá têm operações mas enfrentam dificuldades de recebimentos”, adiantam os jornalistas portugueses na sua obra de 248 páginas, rematando que “manobrando as peças de xadrez do poder, José Eduardo dos Santos espera pacientemente pelo futuro. Que poderá trazer alguma definição quando se realizarem as eleições presidências em Angola.”

 

Portanto, prezado Presidente agradecia que viesse ao público desmentir também estas pessoas que o acusam. Caso isso for muito trabalho, também agradecia imenso que torna-se público a sua receita  mágica de enriquecimento, por uma questão de angolanidade, para que o nosso povo se enriqueça. Quem sabe só assim é que vamos parar de atirar pedras na sua mangueira. 


*Porta-voz da Fundação 27 de Maio



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