Luanda - 1. INTRODUÇÃO: África, como quase todos sabem, é um continente mui rico; rico em recursos naturais tanto quanto em corrupção e, consequentemente, miséria. Há quem diga que o Ocidente tem nos incutido isso na mente – que a África é mui rica em recursos naturais – apenas para não nos preocuparmos enquanto ele esgota os recursos em nosso solo e guarda grande parte dos que estão no solo dele. É claro que esse argumento não é mui plausível, pois a maioria esmagadora das fontes confiáveis diz que a África é deveras mui rica em recursos naturais e mui dos recursos naturais são renováveis – claro, até onde eu saiba, alguns deles a renovação pode não ser possível se exploradas de maneira irracional. Lhe recomendo a leitura completa deste artigo, é tão extenso quanto rico (julgo)!


2. QUAL É A CAUSA DA MISÉRIA EM ÁFRICA?

‘‘Uma mentira estraga mil verdades.’’ ~ Provérbios africano
Esse contraste entre riqueza e miséria tem sido, com razão, motivo de grande inquietação (e revolta); como pode um contente tão rico estar submerso na miséria (com milhões de pessoas passando fome)?


Mui culpam o cristianismo, outros todas as religiões que não são de matriz africana, outros a má governação, outros o Ocidente, outros alguns dos que citei anteriormente juntos e, por fim, outros apontam todos eles juntos. Na maioria dos casos o cristianismo e o Ocidente são apontados como a causa, e normalmente são pessoas que odeiam o cristianismo e o Ocidente por razões que são, até certo ponto, compreensíveis, tais como; (1) o uso de certas denominações religiosas como instrumento de manipulação – os casos do uso da igreja católica (jesuítas, porque, até onde sabemos, os capuchinhos não aceitaram compactuar) como instrumento de manipulação aquando da invasão europeia e de falsos pastores que recebem dinheiro para apontarem certos líderes políticos como ‘‘ungidos por Deus’’ e/ou ‘‘salvadores’’ e, por conseguinte, levarem os fieis inocentes de suas igrejas à louvarem os mesmos e, aquando das eleições, à votarem neles; (2) a escravidão (no passado); (3) o racismo; e

(4) a provável neocolonização (ou imperialismo ocidental) atual – por exemplo, as ‘ex- colônias’ francesas são obrigadas a pagar regularmente uma espécie de taxa à França. Não estou a dizer que é certo ‘‘odiar os brancos’’ por essas razões acima e sim apenas mostrando as possíveis causas de um fato – do ódio que mui negros nutrem pelos brancos. Conheci um jovem afrocrata que afirmou veemente que Mia Couto não é africano pelo simples fato dele ser branco, só para você ter a noção. Um provérbio (judaico) que espelha a minha posição, no que tange as questões acima, é o seguinte; ‘‘se você se vinga, estará a regredir. Se você sabe perdoar, estará a progredir’’.


Quanto as pessoas que fazem tais afirmações com veemência – claro, falo particularmente dos EI’s (Especialistas da Internet) –, à semelhança do filósofo italiano Umberto Eco, resta-nos apenas lamentar a atual tragédia causada, em grande parte, pelo (1) relativismo absoluto e pelo (2) mercado – que, para lucrar, inflama cada vez mais o nosso ego. (Por favor, não estou aqui a dizer qual é a melhor ideologia política-social- económica, entre socialismo/comunismo e capitalismo) Ainda sobre Umberto Eco, em relação a isso o mesmo disse; ‘‘As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel’’. Apesar do tom autoritário da frase, penso ser uma questão de desonestidade intelectual ou ingenuidade negar a veracidade da mesma. O que há de errado nisso? Além da frase debaixo deste subtema, é que ideias têm consequências, conforme demonstrado por Richard M. Weaver (do século XX). ‘‘Palavras dão sensação física, não têm apenas significado’’, disse-nos Robert J. Waller. Se ideias têm consequências, como bem observou o dr. Benjamin Wiker, então más ideias têm más consequências. Por exemplo, grande parte das grandes desgraças que sobrevieram à humanidade, particularmente no século XX, foram resultados de ideias políticas salvíficas e imperativas (equívocas, claro) de (1) como o mundo realmente é, (2) como de fato deveria ser e (3) como torna-lo no que devia ser. Portanto, mui cuidado com ideias do gênero!


Quanto ao uso das igrejas como ferramenta de manipulação – tanto no passado como atualmente –, a princípio, é totalmente normal tal como é, por exemplo, beber água (quando se tem sede) e comer (quando se tem fome). ‘‘A religião é vista pelas pessoas comuns como verdadeira, pelos inteligentes como falsa, e pelos governantes como útil’’, já dizia Sêneca (no século I d.C); ou seja, tendo em conta o fato de que as igrejas têm de fato esse poder (de influência) e os políticos fazem de tudo para ganhar a confiança da população e/ou vencer eleições, é de se esperar que eles usam elas, assim como também usam o combate ao desemprego, à pobreza ou à criminalidade, etc.! Segundo, eu nunca vi nenhuma dessas pessoas a classificar o combate ao desemprego, ou à pobreza ou à criminalidade como coisas necessariamente más, pelo simples fato de que os políticos as usam para enganar cidadãos mui ingênuos! Qualquer pessoa sensata diria (e com razão) que isso é um absurdo! O mesmo vale quando se trata de igrejas, pese embora prima facie não pareça!


Terceiro, o máximo que podemos concluir, com base nesse fato, é simplesmente que deveras mui igrejas são usadas – assim como mui ativistas, por exemplo – para enganar as populações e que, as mesmas (em parte) contribuem para a miséria em África, e não necessariamente que ‘‘todas as igrejas são falsas e responsáveis pela miséria em África’’. Apenas pessoas péssimas em Lógica, mui emocionadas e desonestas intelectuais ou mui ignorantes fazem isso! Não devemos (por questão de sensatez) inventar verdades, só porque nos convém, como fazem os pseudomestres – (1) que pensam ser ‘‘algumas das poucas pessoas deveras inteligentes que passaram na terra’’ e ‘‘possuir as verdadeiras verdades do mundo’’ (desculpa a redundância), e (2) que classificam algo como verdade apenas porque alguns escritores africanos disseram – principalmente de caráter vitimista! Quanta estupidez! Penso não ser por acaso que grande parte dos seguidores desses, demonstravelmente, autoritários – sob o disfarce de ‘libertadores da África’ –, doentes – com síndrome do salvador – e sedentos por fama, são mui ignorantes, emocionados – para não dizer infantis – e preguiçosos, que pensam que a vida em África era tudo ‘‘leite e mel’’, antes da chegado dos europeus.


É claro que eu não sei ao certo a causa da miséria em África. Para saber com a maior precisão possível, teria que realizar um estudo profundo ou ter acesso aos resultados de um estudo profundo sobre isso. Porém, penso eu, podemos naturalmente fazer algumas deduções com base nalgumas evidências. Penso que todos nós fazemos isso no nosso cotidiano e não há nada de mal nisso, desde que as deduções sejam lógicas ou coerentes.


Bem, neste caso, abordarei sobre as prováveis causas dessa miséria que, naturalmente, mui assola a população africana. Entre as prováveis causas estão, basicamente; (1) a má-governação, (2) a mão invisível do poder do Ocidente (neocolonialismo/imperialismo), (3) os conflitos e (4) a não (ou pouquíssima) participação ativa da população na política.

2.1. A Má-Governação

Até onde sabemos, algumas das coisas que os países africanos têm em comum são; (1) a ditadura e/ou o autoritarismo – que em grande resulta da sensação e/ou convicção de que os países pertencem somente a eles pelo fato de terem lutado pela independência dos mesmos, ignorando os outros (antepassados de seus povos) que não só também lutaram como chegaram mesmo a perder suas vidas nestas lutas –, (2) a corrupção, (3) o desvio de erários públicos, (4) o egoísmo, (5) a avareza e (6) a insensibilidade por parte dos governantes – que não se limitam a apenas roubar dos seus povos o que os seus países produzem como também até mesmo o que vem do exterior, na tentativa de mitigar o sofrimento dessas populações sofredoras. Penso que qualquer pessoa bem informada já deve ter ouvido notícias de desvio de dinheiro ou bens destinados a pessoas carentes. Roubam quase tudo e deixam quase nada à educação, à saúde e ao saneamento básico, que são cruciais para o desenvolvimento de um país! Vou parar por aqui para não tornar o artigo mui mais extenso.


2.2. A Mão Invisível do Poder do Ocidente (Neocolonialismo/Imperialismo)
‘‘Se o Leão considerar que a Zebra tem vida morrerá de fome’’, esta é a ideologia política do Ocidente, segundo um cantor britânico – cujo nome não lembro, como já disse num dos meus artigos anteriores.


Qualquer um que estuda o desenrolar da história humana e, naturalmente, acompanha a situação geopolítica sabe que mui provavelmente o Ocidente, especialmente U.S.A; (1) criou/cria dificuldades aos países em ascensão – particularmente com potenciais de serem superpotências, como, por exemplo; China, Rússia, Índia e Brasil; (2) criou/cria instabilidades políticas em mui países – particularmente aqueles cujos governos não favorecem os seus interesses, especialmente em África, América do Sul e no Médio Oriente –, com a finalidade de destituir os mesmos governos – como provavelmente foram os casos de Patrice Lumumba, na RDC, e Thomas Sankara, no Burkina Faso, ambos do século XX – e de saquear as riquezas destes países; (3) tem endividado – principalmente através do FMI – mui países com dívidas que levarão mui tempo para se terminar de pagar, cujo procedimento foi explicado em parte por Hammond in ‘‘No Escape’’ (Sem Escape, tradução livre); ‘‘[...] nossos países – as empresas que mandam neles – têm interesses aqui. Então, eu apareço aqui, todo legal e amigável, e ofereço um empréstimo para pagarem pelos nossos serviços, que sabemos que eles não podem pagar. Depois, construímos usinas, elétricas, companhias de água, estradas [...] e quando eles não conseguem pagar a dívida, tomamos!’’ Enfim, fazem tudo sob o pretexto de ‘‘direitos humanos’’, ‘‘democracia’’ ou ‘‘combate à pobreza’’! Para quem não sabe, é essa (neocolonialismo/imperialismo) uma das principais razões dos conflitos nos países islâmicos e dos ataques terroristas nos países ocidentais, claro, além da teologia agressiva e imperativa dos terroristas (desumanos, naturalmente) – que creem que o islamismo é verdadeiro e, portanto, ‘‘todos têm de ser islamistas, a bem ou a mal’’.

 

Se ‘‘o terrorismo é apenas uma parte, ou etapa, de um seqüenciamento de atos e engajamentos vinculados a um propósito político último, a que ele se vincula de maneira apenas indireta e não de maneira imediatamente perceptível’’, como definiu Eugênio Diniz, certamente um desses propósitos políticos é pôr um fim a essa neocolonização (imperialismo) em seus países. A guerra do Vietnã (de 1959 a 1975) e os atentados de 11 de setembro são exemplos claros disso, como argumentaram Pecequilo – na sua abordagem sobre o terrorismo; ‘‘os ataques tinham um contexto mais amplo: a contestação da dominação hegemônica, cuja supremacia militar não poderia ser combatida, mas cuja sociedade apresentava fissuras. Para explorar estas fissuras, o foco de 11/09 foram símbolos do poder social e econômico do país (as torres gêmeas do World Trade Center em Nova Iorque) e estratégico-político (Pentágono e prédios públicos em Washington, DC)’’ – e Michael Scheuer – que foi o analista sênior da CIA responsável pela perseguição e rastreamento dos passos de Osama Bin Laden, de 1996 a 1999; ‘‘Bin Laden, com precisão cirúrgica, mostrou aos Estados Unidos as razões pelas quais está desencadeando sua guerra contra nós [...] determinado a alterar de forma drástica as políticas dos EUA e do Ocidente em relação ao mundo islâmico”.


O Ocidente, apesar dos pesares, é hipócrita, que fique claro! Desde o ano passado até a presente data vimos mui países, principalmente africanos, denunciando; (1) a hipocrisia do Ocidente – que louva os dissidentes dos países cujos governos não o favorecem e classifica como terroristas aos dissidentes dos países cujos governos
favorecem seus interesses – e (2) a falta de igualdade no tratamento para com os países não ocidentais. Quem está acompanhando a atual situação geopolítica sabe do que estou falando. Por exemplo, vimos, há bem pouco tempo, o atual presidente do Quénia, William Ruto, a denunciar que quando se trata de países africanos a taxa de juro do FMI (Fundo Monetário Internacional) é cerca de 8 vezes a taxa dos países ocidentais. Vimos a resistência (por parte dos mesmos) no que concerne a inclusão de mais países como membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). Vimos o reconhecimento, por parte do Ocidente, dos resultados de eleições fraudulentas, apesar de denúncias com evidências (mui claras). E.U.A invadiram o Iraque sob um falso pretexto e ocupam desde a crise dos mísseis (em 1962) uma parte da Cuba (Guantánamo). Vimos, em pleno século XXI, quererem experimentar vacinas contra Covid-19 em África, onde vários famosos negros na diáspora e (depois de mui dias) o Diretor-Geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, protestaram. Vimos que o mundo parou com a invasão russa na Ucrânia e como o Ocidente encaram com tanta preocupação isto e reúne mui esforço para acudir a Ucrânia, quando há mui mais conflitos em várias partes do mundo, com maior ênfase em África e no Médio Oriente, que claramente não têm tanta atenção assim – tanto que o Papá Francisco teve de lembrar-lhe destes mesmos conflitos!

 

Enfim, há mui atos contra os direitos humanos, contra os direitos internacionais e antidemocráticos (mui deles hediondos) praticados pelo Ocidente, que podem ser encontrados no livro ‘‘Quem manda no mundo?’’, de Noam Chomsky, que ainda neste livro trouxe à tona algo que passa despercebido para mui gente; quem na arena da política, nos Estados Unidos, representa os americanos socialistas/comunistas? Ou eles devem abandonar suas ideologias? Se sim, onde está o respeito a liberdade de ideologia? Se não, por quê até agora não têm quem os represente? Por outra, a vida ocidental é desumana (mui fria) e doente, o seu solo não é propício para a existência e desenvolvimento de coisas como amor, família, etc., e é, em grande parte, a fonte dos lixos culturais que há atualmente!


Portanto, não creia mui na história de que o Ocidente é ‘‘o santo da história’’ e a Rússia ‘‘o demônio’’! Sei que mui ficarão irados e desapontados comigo pelo que acabo de dizer e, penso eu, grande parte dos que assim reagirem será por uma motivação inconsciente de ódio que nutrem (com razão, até certo ponto) pelo socialismo/comunismo – são milhões de vidas sofridas/perdidas, tanto no passado como no presente. Entretanto, penso que (1) as minhas alegações são verdadeiras, que (2) o nosso compromisso tem de ser com a verdade e que (3) uma pessoa sensata tem de ser imparcial e/ou flexível! Em todas as esferas da vida, principalmente no seio acadêmico, temos de evitar os extremos, temos de aprender a ser flexíveis. ‘‘O vento não quebra uma árvore que se dobra’’, diz um provérbio africano.

2.3. Os Conflitos


Conflito é uma das coisas mais comuns em África e, indubitavelmente, um dos principais obstáculos para o seu desenvolvimento. Digo indubitavelmente porque penso ser desnecessário discutir a obviedade disso. Algumas das prováveis causas dos mesmos são; (1) os interesses divergentes das potências (Ocidente vs Sino-Russa, por exemplo), (2) questões religiosas/ideológicas e (3) questões históricas/territoriais. Provavelmente, essas potências têm se aproveitado das causas acima citadas para originar ou intensificar conflitos em África, por razões ditas acima. Das milhões de pessoas que estão passando fome e morrendo em África, grande parte deve-se a esses conflitos. Há milhões de africanos morrendo e sofrendo mui, por causa desses mesmos conflitos!


Quanto a questões religiosas/ideológicas, deve-se ao simples fato de que não existe ‘‘o povo africano’’ – a não ser, claro, no mesmo sentido que todos os povos asiáticos são asiáticos, todos povos europeus são europeus, idem. Não existe ‘‘o povo africano’’ como um único povo – no mesmo sentido que, por exemplo, o povo Bakongo é um só povo –, como alguns pseudomestres fazem parecer. Existe – como no passado, antes da chegada dos europeus – diversos povos dentro de África, com diferenças culturas acentuadas.


2.4. Não (ou Pouquíssima) Participação Ativa na Política


Quanto as consequências da não (ou pouquíssima) participação ativa da sociedade na política, não há mui a dizer devido a obviedade do fato. Há uma frase, cuja autoria escapa-me da mente, que diz mais ou menos que a qualidade de vida de uma população é proporcional a sua participação na política. Penso ser indiscutivelmente um fato. Não é por acaso que os governantes (de todo mundo, ao que parece) afastam o máximo possível as suas populações da arena da política, limitando seus pensamentos a preocupações materiais e medíocres, através de transmissão maciça, por meio da televisão (rádio e redes sociais), entretenimento imbecil, bajulando sempre o emocional.

Essa é uma das formas mais eficazes de se evitar revoltas populares – especialmente quando os governos adotam políticas que prejudicam a população –, segundo o filósofo judeu-alemão Günther Anders (do século XX). É por essa razão que, a pesar da minha aversão por política, não fico indiferente a ela. A minha relação com a política é semelhante com a do remédio – quando estou enfermo, claro; detesto, mas tomo por saber que é necessário.

3. O QUE É MELHOR PARA ÁFRICA?

‘‘Unidade é força, divisão é fraqueza.’’ ~ Provérbio africano

Primeiro, desde o início da invasão Rússia na Ucrânia que tenho dito que esta é uma ‘‘era de ouro’’ para África, em que praticamente voltamos à guerra fria, onde o Ocidente e a Sino-Russa estão disputando também por nós. Temos de saber agarrar as oportunidades que a vida nos dá! Não achas?


Segundo, no final do século XIX surgiu uma faísca que, posteriormente, espalhou-se por todo o continente africano e culminou com a ‘‘independência’’ dos países africanos – com a contribuição da Rússia, além do cristianismo, neste processo, segundo o presidente do Zimbabwe, Emmerson Mnangagwa, no discurso na Cimeira Rússia-África 2023, e a dra. Solange Faria, no livro ‘‘Confissões de um Estadista’’. E parece que o processo está se repetindo, com o surgimento de uma nova faísca que poderá espalhar-se por toda África e resultar no fim da neocolonização existente nela – e, ao que parece, a Rússia quer de igual modo dar o seu contributo (na verdade, ela pode estar por trás do surgimento dessa faísca).


Terceiro, dada a complexidade da vida, é mui difícil (se não mesmo impossível) saber com precisão o que deveras é o melhor para África. Porém, penso que com o interesse – de fazer o melhor para África, naturalmente – conhecimento, cautela, inteligência e bom senso, entre outras coisas prováveis, podemos fazer coisas boas para o nosso tão rico e sofrido continente. Não creio que isso seja ‘‘uma mera utopia’’, vimos isso na Europa e o resultado dessa mesma luta de tornar a vida melhor por lá. ‘‘Ora, para aquele que está entre os vivos há esperança [...]’’ (Eclesiastes 9:4) Ou seja, enquanto há vida há esperança!


Terceiro, dando continuidade ao assunto, algumas das coisas que, penso eu, se forem feitas terão um impacto positivo e mui significativo no desenvolvimento da

África – algumas das quais estão na base da aversão ou do ceticismo de alguns, no que diz respeito a uma aliança entre África e Sino-Russa –, são;

1. Ter em mente que o Ocidente não nos vai dar a total liberdade – pôr um fim ao neocolonialismo/imperialismo – de bandeja, não porque simplesmente ‘‘todos eles são desumanos’’, que ‘‘nos vêm como humanos de 2a classe’’ e que ‘‘têm prazer em nos ver a sofrer’’, e blá blá blá... – como alguns alegam. A verdade é que a realidade é dura; algumas vezes alguns têm de morrer para que outros possam viver, e alguns têm de passar fome para que outros possam comer. Assim é a vida! É dura, mas é a realidade! Como disse Pondé, no seu livro ‘‘Filosofia para corajosos’’; ‘‘a vida é bela, violenta e imunda, não há como fugir disso sem eliminar a própria vida’’. Até onde sabemos, grosso modo os ocidentais (principalmente europeus) precisam tanto de nós quanto nós precisamos de, por exemplo, legumes, ou cereais, ou frutas, etc.; portanto, penso ser ingênuo esperar que eles ponham um fim a essa relação exploradora entre a África e o Ocidente – isto é, pôr um fim ao neocolonialismo/imperialismo – meramente por questões morais e/ou racionais! E penso que, quando estamos na posição dos que estão a morrer ou a passar fome e nos surge a oportunidade de revertermos a situação, o certo a ser feito é abraçarmos a oportunidade e revertermos a situação. Certo? Essa situação é mais ou menos refletida numa frase atribuída à Benjamin Franklin (do século XVIII); ‘‘Faça de você mesmo uma ovelha e os lobos te comerão vivo’’.


2. Ter mui cautela, saber equilibrar e ter mui cuidado com utopias, sabendo mover as peças do jogo em nosso benefício – em outras palavras, agir com sensatez. “Meu filho, guarde consigo a sensatez e o equilíbrio, nunca os perca de vista; trarão vida a você e serão um enfeite para o seu pescoço.” (Pv 3:21-22) Quanto a utopias, falo principalmente de utopias socialistas/comunistas, como; ‘‘o único problema do mundo é o capitalismo’’, que ‘‘a solução para a pobreza é distribuir de modo igual as fortunas dos ricaços a toda humanidade’’, e blá blá blá...! Ignorando o fato de que, em última instância, a causa dos problemas do mundo resultantes das ações humanas está na nossa natureza humana – pese embora algumas pessoas como Jean-Paul Sartre (do século XX) dizem não existir natureza humana –, é esta a razão pela qual algo sempre dá erro com a humanidade, apesar dos nossos grandes e contínuos esforços em fazer do mundo um lugar melhor. Uma frase que reflete isso é a de C.S. Lewis (do século XX), no seu livro Cristianismo Puro e Simples, que diz o seguinte; ‘‘[...] Essa é a chave da história humana. Despende-se uma energia incrível, erguem-se civilizações, concebem-se excelentes instituições, mas algo sempre dá errado. Uma falha fatal sempre permite que as pessoas mais egoístas e cruéis subam ao poder, trazendo a derrocada, a desgraça e a ruína. A máquina, em outras palavras, emperra, Ela parece engrenar bem e rodar por alguns metros, mas então se quebra’’. Parece ser um fato que apenas cerca de 1% da população mundial detém praticamente a metade de todo dinheiro do mundo (uma fonte falou de 47%) – como puderam ouvir no discurso de Lula (para quem acompanhou), presidente do Brasil, aquando da sua visita em Angola, neste ano – e que, por outro lado, há mais de 700 milhões de pessoas passando fome – segundo uma notícia no Euronews, neste ano. E parece ser um fato que ‘‘90% dos que nascem pobres morrem pobres por mais esforço ou mérito que façam, enquanto que 90% dos que nascem ricos morrem ricos, independentemente de que façam ou não mérito’’, frase atribuída a Joseph Stiglitz (prêmio Nobel de Economia). A ser verdade tudo isso, é até certo ponto compreensível a fúria de mui gente, a respeito! Porém, à semelhança do Breno Perrucho (autointitulado economista), acredito que se distribuírem todo dinheiro do mundo a todos os homens de maneira igual, será apenas uma questão de tempo para que os que eram ricos voltem a ser ricos e os que eram pobres voltem a ser pobres – claro, com a exceção dos pobres com ‘maturidade financeira’. Por outra, não creio que haja uma ideologia mais viável que o capitalismo, no que diz respeito a economia! Grande parte dos apoiantes da economia solidária ????ã???? hobbesianos, que acreditam ter direito a tudo e, portanto, querem tudo sem esforços!


2.1. Temos de ter em mente que, mesmo que seja um fato que o Ocidente seja, em grande parte, ‘‘a causa da miséria em África’’, isto não quer necessariamente dizer que o lado Sino-Russo é ‘‘o lado dos santos’’ e, portanto, ‘‘o melhor para África’’. Reitero, temos de ter mui cuidado com utopias, principalmente as salvíficas! É necessário esclarecer isso porque há mui gente fazendo confusão. Sabemos que a Rússia, além do cristianismo, contribuiu para o fim da colonização em África e parece que quer novamente contribuir para o fim do neocolonialismo/imperialismo. Isso é deveras bom e, penso, temos de aproveitar! Porém, não nos esqueçamos do que o mais velho Savimbi nos ensinou; não confundirmos interesses convergentes com o verdadeiro amiguismo! Eu não creio que, o que moveu e move a Rússia e a China seja o ‘‘amor pelos africanos’’ ou ‘‘o humanismo’’! Não creio!


????.????. Além do fato anterior, uma das razões pelas quais devemos ter mui cautela – principalmente as pessoas mui emocionadas, que estão aplaudindo o provável desfecho da relação exploradora entre a África e o Ocidente e uma nova aliança com Sino-Russa – e não ficar mui emocionados, é que a ditadura, violação dos direitos humanos – principalmente de liberdade de expressão e de ideologia e/ou de religião –, violação dos direitos internacionais, etc., até onde sabemos são basicamente algumas das principais características do lado Sino-Russo (Rússia, China e seus aliados).

Basta ver a situação da Coreia do Norte ou da Síria! Na Rússia, por exemplo, vimos detenções e mortes de cidadãos russos que confrontaram o Governo russo; por exemplo, os casos de Alexei Navalny e Yevgeny Prigozhin (fundador do grupo mercenário Wagner). Na China, por exemplo, segundo a ONU, há milhões de chineses islâmicos numa espécie de campo de concentração ou detenção – que o Governo chinês chama de ‘campo de reeducação’ ou ‘aculturação’ –, sendo forçados a abandonar sua crença! Convenhamos, isso só não é um problema para quem está no lado do governo (autoritário) e para quem tem problema mental, independentemente de o islamismo ser ou não verdadeiro! Apesar dos problemas que há na democracia – que fez com que mui intelectuais (como, por exemplo, Platão e Luiz Pondé) perdessem a esperança nela –, à semelhança do filósofo Mário Cortella e do historiador Leandro Karnal, penso ser a menos mal entre as suas concorrentes. Vantagem dela? Pode ser vista na seguinte frase, atribuída a Margareth Thatcher (do século XX); ‘‘a democracia não é um sistema feito para garantir que os melhores sejam eleitos, mas para impedir que os ruins fiquem para sempre’’. Apesar dos países ocidentais não serem, demonstravelmente, deveras completamente ‘‘prol democracia’’ e ‘‘prol direitos humanos’’, seria ingenuidade negar que viver neles é bem melhor do que viver, por exemplo, na Coreia do Norte – viver num lugar onde todos são obrigados a ser como os governantes querem que sejam, onde os dissidentes do governo são presos ou assassinados de diversas formas, enfim, sem liberdade de expressão e ideologia/religião!


????.????. Temos de olhar para a história e não nos deixarmos ludibriar com discursos políticos emocionantes! Razões para tal? Temos o Vladimir I. Ulyanov (Vladimir Lênin, do século XX), na Rússia, que entrou para a revolução imbuído de um espírito patriótico e que, porém, acabou sendo responsável por milhões de mortes dos cidadãos do seu país (União Soviética, na altura). Um outro (prático)? Temos o seguinte;


a) ‘‘O grande problema de África são os líderes que querem permanecer no poder por um longo período.’’ ~ Yoweri Museveni, presidente do Uganda, 1986;


b) ‘‘Quanto mais você permanece no poder, você aprende. Neste momento sou um especialista em governação.’’ ~ Yoweri Museveni, presidente do Uganda, 2021.

Em suma, como já frisei, grande parte das grandes desgraças que sobrevieram à humanidade foram resultados da tentativa de salvação (de uma nação ou do mundo) por parte de políticos. É por essa razão que o filósofo inglês Michael Oakeshott (do século XX) disse; ‘‘prefiro políticos sem concepção de como deve ser o mundo. A pior coisa é um líder político que queira me salvar’’. Mui cuidado com ditadores em potência que afirmam ‘‘querer salvar a África’’, principalmente os que afirmam ser ‘‘iluminados pelos ancestrais’’, que decerto são gratos pela liberdade que têm de abraçar suas ideologias – é uma questão de tentar privá-los das mesmas, para se averiguar – mas querem tirar a liberdade de outrens de escolher e viver conforme acham melhor ou certo! Se lhe parece que estou a exagerar é só dar uma olha em seus artigos e vídeos, que certamente ouvirá ou verá – além do autoritarismo nas suas falas – eles dizer com veemência que ‘‘a cultura [a que eles defendem, óbvio] deve ser imposta’’. Que Deus nos livres deles!


????. Temos de optarmos pela união! À semelhança de Kwame Nkrumah (do século XX), penso que a união é uma das ferramentas necessárias para vencermos os obstáculos na trajetória da África, rumo ao desenvolvimento. Todos os países africanos têm de se unir, porque juntos somos mais fortes! Como bem disse o sociólogo polonês, Zygmunt Bauman; ‘‘quem sabe se, caso os poderes individuais, tão frágeis e impotentes isoladamente, fossem condensados em posições e ações coletivas, poderíamos realizar em conjunto o que ninguém poderia realizar sozinho?’’. Porém, união não apenas entre africanos e sim também com as organizações humanitárias não governamentais do mundo todo. ‘‘Em tempos de crise, os sábios constroem pontes, enquanto os tolos constroem muros’’, provérbio africano. Não acredito que a África deve isolar-se completamente do mundo; aliás, essa tese é defendida por pessoas que defendem as culturas africanas, mas amam, em grande parte, a vida ocidental – como iPhone, fato social, shoppings, voos, redes sociais, etc. Pessoas que defendem que ‘‘os nomes têm uma dimensão espiritual’’, mas não fazem o mesmo que mui artistas – atribuem-se um outro nome, nas suas contas põem este nome, nas entrevistas apresentam-se com este nome, etc. Falsos tradicionalistas, que se vestem de modo tradicional apenas aquando de uma atividade cultural ou de uma entrevista sobre cultura! Penso que mui de nós já se deparou com mumuílas vestidas de acordo com sua cultura. Vocês, que já viram isso, algumas vez viram uma delas sendo detidas ou atacadas pela polução por causa do seu modo de se vestir? Então, por que que ‘‘os que amam a cultura africana’’ e afirmam veementemente que ‘‘não devemos aceitar nada [das culturas] dos nossos opressores’’ não fazem o mesmo? Pense nisso!

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De forma resumida, penso que será mui bom para África;

a) Nos embebedarmos de um espirito patriótico e ‘‘continental’’, colocando em primeiro lugar os interesses dos nossos países e continente africanos;
b) Nos unirmos na causa de se ultrapassar/vencer todos obstáculos na trajetória da África, rumo ao desenvolvimento;
c) Agarrarmos as oportunidades de se aproximar desse fim;
d) Agirmos com mui cautela e sensatez, principalmente diante de várias opções mui
sedutoras;
e) Reescrevermos a nossa história (sem mentirmos); f) Sermos realistas e termos mui cuidado com utopias.


Sei que mui poderão, como mui fazem, acusar-me de ‘‘estar por cima do muro’’; entretanto, grande parte dos que fazem isso pressupõem que um entre capitalismo e socialismo-comunismo (ou Ocidente e Sino-Russa) é verdadeiro, bom ou o lado certo (ou ‘dos santos’), como se a vida fosse necessariamente ‘‘dicotómica’’ – que tudo é uma questão de A ou B. Concernente a isso, C.S. Lewis já nos alertou; ‘‘[...] Sinto o forte desejo de lhe dizer — e acho que você sente a mesma coisa — qual dos dois erros é o pior. Essa é a estratégia do diabo para nos pegar. Ele sempre envia ao mundo erros aos pares — pares de opostos. E sempre nos estimula a desperdiçar um tempo precioso na tentativa de adivinhar qual deles é o pior. Sabe por quê? Ele usa o fato de você abominar um deles para levá-lo aos poucos a cair no extremo oposto; mas não nos deixemos enganar.’’. Pensem nisso! Fico por aqui e espero ter ajudado.


Kanienga Samuel
Luanda, aos 13 de setembro de 2023.