Luanda - A resposta a esta pergunta incontornável tem sido adiada por causa de alguma insensibilidade ou impreparação de quem tem mandato para mitigar as assimetrias regionais e garantir justiça social e igualdade de direitos para todos os cidadãos, tal como está consagrado na Constituição da República de Angola.

Fonte: Club-k.net

Os acontecimentos tumultuosos do dia 8 de Outubro de 2023 que sacudiram a cidade de Saurimo, na Lunda Sul, província onde está situada a quarta maior mina de diamantes a céu aberto do mundo (Catoca, pois claro), são tão somente a reprodução da tragédia que ensanguentou Cafunfo, na Lunda Norte, em Janeiro de 2021. Desta vez, felizmente, não houve vítimas em Saurimo, graças à perícia e à maturidade do Comandante da Polícia.

Esta reflexão não é nem poderia ser uma apologia aos propalados argumentos jurídicos e sociológicos do auto proclamado movimento independista da região Lunda-Tchokwe. Nada disso. Os fundamentos de qualquer causa, por mais nobre que seja, não se devem limitar a comunicados panfletários e manifestações de rua de consequências imprevisíveis. Nada disso.

Mas a tolerância da população de uma das regiões mais ricas do mundo, mergulhada numa situação de pobreza extrema, tem os seus limites e pode resvalar para situações incontroláveis.

Por esta razão. vale a pena ler de novo o meu texto escrito na sequência dos trágicos acontecimentos de Cafunfo, em Janeiro de 2021, que resultaram na morte de dezenas de cidadãos, entre os quais efectivos da Polícia Nacional, das Forças Armadas Angolanas e civis inocentes.

De lá para cá, em boa verdade, quase nada foi feito para equacionar o crónico problema do Leste de Angola.

Quem é o principal responsável pelos tumultos nas Lundas? O movimento independentista sem respaldo legal mas com apoio popular? O povo mergulhado numa situação de miséria crónica que contrasta com as fortunas acumuladas pelos operadores e mercadores da indústria diamantífera? Ou o governo incapaz de dar corpo à legitimidade eleitoral para resolver os problemas do povo?

As Lundas (e o Moxico) merecem uma explicação porque...

...Há uma terra que brilha por fora mas sangra por dentro.

Há um povo privado dos seus sonhos, despojado do chão onde repousa o cordão umbilical de distintas linhagens. É um traço de união que não poderá nunca ser rompido porque é eterno... como os diamantes.

Há uma data no calendário que jamais será apagada. Uma data grávida de manipulações, cuja paternidade escuda-se num incontornável ponto de interrogação: quem derramou o primeiro sangue?

Há uma história aprisionada no sector mineiro de Cafunfo. Naquela manhã de sábado, 30 de Janeiro de 2021, várias vidas foram ceifadas diante de quem tem a obrigação de as proteger. A legítima defesa não deveria nunca resvalar para o espezinhamento de cadáveres em hasta pública, à luz do dia, num ritual de sadismo primitivo.

Há uma mania doentia que confunde valentia com rebeldia, tornando-se incapaz de evitar uma sangria perfeitamente evitável.

Nunca é demais recordar que no início da década de 70, quando os camaradas estavam profundamente divididos, as populações da Frente Leste ajudaram o "Movimento Popular" a reerguer-se das cinzas para assumir o poder em Luanda, exclusivamente, no dia 11 de Novembro de 1975.

Naquela época, as massas populares eram celebrizadas como pilares fundamentais da revolução, merecendo o título pomposo de Povo Heróico e Generoso.

Hoje, há milhentos motivos de indignação porque os filhos do povo, quando promovem manifestações, acabam feitos reféns de uma rebelião pré-fabricada, qual emboscada em tempo de paz!

Há um debate inquinado numa enxurrada de comunicados. Os analistas da situação não prestam a mínima atenção à angústia das viúvas no recolhimento do Kutulama.

Os comentadores do costume não têm sensibilidade para amparar os órfãos de futuro incerto.

Há muitas vozes abafadas por conveniência de serviço. Mas todo o mundo comunga o princípio sagrado segundo o qual "ninguém é tão poderoso que não pode ser punido e ninguém é pobre demais que não possa ser protegido". Fim de citação.

É por isso que ninguém, absolutamente ninguém tem poder para silenciar a ngoma, o tchikuvu (cikuvu), a pwita e o ndjimba, alicerces legítimos da txianda (ciyanda) e dos ritmos contagiantes do leste de Angola.

Há imensas riquezas que não favorecem os filhos da terra. Qualquer forasteiro amancebado com os poderosos da capital manda mais do que todos os soberanos da região. Se o status quo não for alterado, alguém poderá privatizar o rio Cuango com propósito de afogar os nativos insubmissos que não se cansam de alertar que não há paz sem justiça.

Há uma tese defunta que foi desenterrada para justificar as assimetrias regionais. Dizem que toda a culpa deve ser atribuída ao colonialismo e à guerra. Os repetentes que governam o país, há mais de 45 anos, querem ser eternamente inocentados porque, apesar de terem prestado juramento com o compromisso de resolver os problemas do povo, escudam-se no argumento disparatado segundo o qual, quando eles assumiram o poder, já encontraram a pobreza e as desigualdades sociais que o colono fabricou.

Afinal, a independência e a paz serviram apenas para que as famílias reinantes pudessem engordar as suas contas bancárias na antiga potência colonial, com os milhões desviados do petróleo e dos diamantes?

Há uma verdade verdadeira que não deve ser escamoteada. A administração do estado nas zonas diamantíferas resume-se à presença da Polícia Nacional, das Forças Armadas e das empresas de segurança. As repartições públicas, geralmente instaladas em escombros e casebres, com funcionários impreparados, constituem mais problemas do que soluções.

Os serviços de registo e notoriado, quando funcionam, confundem-se com mercados paralelos. As escolas e os centros de saúde não têm o mínimo de dignidade. Quase não se fala em formação profissional e assistência social.

Nas chanas do leste, não há qualquer programa de preservação ambiental, saneamento básico ou responsabilidade social. As ravinas ameaçam bairros inteiros e as estradas sucumbem na imensidão das crateras.

Há uma pergunta que não quer calar: como é possível manter várias gerações de angolanos em permanente situação de penúria, numa região abençoada com uma rica bacia hidrográfica que proporciona recursos abundantes e paisagens deslumbrantes?

Há uma realidade que os noticiários não mostram porque os editores não têm ordens superiores para entender a vitalidade das populações do leste de Angola. Não são os diamantes que ajudam a combater a fome e a desnutrição. Não.

São as virtudes da mãe-natureza que garantem os nutrientes essenciais: makenene, macosso, capande, mussogi e outras tantas iguarias tradicionais ricas em proteínas, vitaminas, fibras e minerais livres das gorduras institucionais. O maboque e a ginguenga ganham maturidade livremente no mato, longe das negociatas em torno dos fertilizantes.

Há um grande equívoco em torno da produção nacional. O estado continua ser o maior importador dos principais insumos agrícolas, sem concurso público. A gestão das águas é disputada por diferentes departamentos ministeriais que não encontram um único ponto de intersecção, divergindo nas respostas improvisadas para a problemática da seca, da erosão dos solos e da desertificação.

Há toda a necessidade de uma melhor concertação entre decisores e produtores. Não é possível incrementar a qualidade, aprimorar a competitividade e baixar os preços dos principais produtos sem absorver a ciência dos agricultores familiares.

Podem importar milhares de carrinhas, camiões e cisternas. Mas, sem uma aposta séria na criação de condições de acondicionamento, conservação e transformação dos produtos do campo, uma boa parte da produção acabará irremediavelmente no lixo.

Há um historial de preconceitos que toldam a mente de quem tem mandato para defender o bem comum. As inteligências domésticas não se aperceberam que a União Europeia introduziu no cardápio comunitário larvas de besouro, devido ao seu alto valor nutricional.

Entre os iluminados cá do burgo, não há uma visão capaz de capitalizar o valor nutritivo do catato, da ginguna e da quihanza que bem poderiam concorrer para a redução dos altos níveis de desnutrição que afectam milhões de gestantes e crianças angolanas.

Há uma autoridade instituída que deveria ser mais dialogante. Sem discursos partidarizados, incendiários. Sem ameaças de mísseis balísticos intercontinentais que acaba por ter efeito boomerang.

O país precisa apenas de um pacto genuíno entre todas as sensibilidades. A inauguração da nova era, de diálogo franco e aberto, bem poderia ter lugar na Frente Leste, a região que revitalizou a luta de libertação nacional e acolheu a paz sacramentada por angolanos cansados de uma longa guerra, em que os únicos vencedores foram os fabricantes e traficantes de armas.

Há uma ferida aberta no coração de Mwana Pwó que só poderá cicatrizar se houver um inquérito imparcial, levado a cabo por uma comissão parlamentar multipartidária, com a participação efectiva das igrejas e da sociedade civil.

Há muita sabedoria convergente no olhar de Samanhonga. A correnteza do rio Cuango não pode continuar a ser aproveitada como lavandaria da esperteza de gente posicionada à margem e acima da lei.

O sector mineiro de Cafunfo, que não é comuna nem distrito, desprovido de qualquer estatuto político-administrativo, precisa de ser transformado em destino promissor para investidores e peregrinos de todos os quadrantes.

Mas, antes de mais, é imperioso que este país, uno e indivisível, saiba encarar de frente todos os seus problemas para que possa adoptar soluções consensuais com base numa distribuição equitativa das riquezas do solo, do subsolo, dos rios, das florestas, do mar e do ar, que deve ser competentemente purificado.

Será assim tão difícil perceber que há uma Nação a clamar por vontade política e bom senso para enxugar, de uma vez por todas, as lágrimas de sangue que teimam em macular o brilho dos diamantes? Angola merece uma explicação.

* O artigo original foi publicado em Fevereiro de 2021, na sequência dos acontecimentos sangrentos de Cafunfo, ocorridos no dia 30 de Janeiro daquele ano.

**Dialogar, no actual contexto do país, deveria passar pela institucionalização das autarquias locais, sem mais delongas, nem orçamentos participativos.