Luanda - Depois de quase 30 anos fora do Huambo, eu e o meu amigo Lino Uliengue, a convite do nosso kamba do peito, Dino Fausto, rumámos para as terras de Wambu Kalunga com expectativa de reviver e matar as saudades.

Fonte: Club-k.net

Saímos de Luanda às dezoito horas, e chegámos à antiga Nova-Lisboa por volta das seis. Tratou-se de uma viagem memorável: de conversa em conversa, não víamos o tempo passar, apenas ouvíamos os roncares do autocarro da Huambo Expresso, que subia e descia; acelerava e reduzia, enquanto seguia estrada para o Planalto Central. Assim que desembarcámos, os taxistas disputavam os passageiros. Nós pegámos um que nos levou à Sandjuka, conforme orientação do Bruno Vindes.


De tanta ansiedade, dispensei a soneca que se impunha. Depois do "duche", saí “voado”. Desci paralelo à Granja - logo, logo recuei no tempo do ano de 1994 - sabia que a direcção que tomei conduzir-me-ia à antiga casa da tia Judith Dembo. Felizmente, dei conta da fachada principal, e deu para contemplar as lindas flores que cobriam o gradeamento da varanda. Andei mais alguns metros e flecti para a direita, em direcção ao bairro Académico, passando pelos mesmos caminhos de outrora, para me certificar das ruas, dos muros e das casas, e das pessoas também. Fiz a primeira paragem ao ver o restaurante "Ti Lena", e pedi um café para repor as energias - (bisei).

 

Acho que é dos melhores cafés da cidade. À medida que o apreciava, dando goles demorados, fiquei atento ao que uma das empregadas contava ao seu patrão. Uma história triste, envolvendo disparos de arma de fogo protagonizados, na noite anterior, pelo falso motoqueiro que a transportava. Graças a Deus, segundo ela, não aconteceu o pior. Esse episódio chamou-me atenção. Lembrei-me do que nos disse o taxista que nos levou à Sandjuka: não tomem qualquer táxi. Ultimamente, os assaltos por parte dos falsos taxistas e motoqueiros têm sido recorrentes. (As autoridades locais têm a obrigação de fazer um pouco mais. Senão, poderá afugentar potenciais turistas. O investimento em câmaras de vigilância e o cadastramento de todos os motoqueiros e taxistas, e o reforço da iluminação pública na periferia da cidade, seriam das medidas mais urgentes a tomar. O Huambo, por aquilo que vi, tem tudo para atrair turistas).


Depois do café, passei pelo antigo Hotel Almirante. Confesso-vos que fiquei estático por alguns instantes: olhei para o Hotel de cima a baixo, voltei a fazer o mesmo movimento e, boquiaberto, abanei a cabeça e disse: o Almirante está morto!


Na verdade, passados 21 anos de paz, contava encontrar o Hotel a funcionar em pleno. Imaginei voltar a girar a maçaneta da porta, que simulava o volante de um barco, e entrar em seu restaurante, em forma de navio, para, sei lá, pedir uma bifana!


Daí, continuei com a caminhada até ao quarteirão da mãe do Joka. Assim que descrevi a curva, encarei uma jovem que acarretava água da cacimba, com a qual puxei conversa. Infelizmente, não obtive dados relevantes. Ela era nova demais! Foi então que avancei para ver se localizava a casa da Mena do Académico ou, da Zinha Bebelak, ou ainda se cruzaria com gente conhecida. Sem sucesso. Afinal, o tempo tinha mesmo passado. Já lá se foram quase 30 anos.


Como não encontrava antigos amigos, fiz amizade com um jovem muito simpático, natural da Huila e residente no Huambo há vários anos. Ele falou-me de coisas novas que o Huambo ganhou com a paz. Falou do novo Estádio do Mambroa em construção, e falou também da Praça das Cacilhas e da nova Igreja da IECA, que um dos melhores filhos do Huambo, o saudoso empresário Valentim Amós, mandou construir; falou ainda do Supermercado Risca-Risca.


Foi então que decidi ir para esses lugares. E lá fui! Primeiro, passei pela Igreja que, afinal, virou Instituto Superior; depois, pelo Risca-Risca e, finalmente, rumei em direcção ao bairro Bom Pastor. Ao longe, avistei as obras do lendário Estádio do Mambroa.


Apesar de não ter tido a sorte de cruzar com gente conhecida; gente que viveu o Huambo dos outros tempos - o Huambo não foi abandonado! Há gente que não desiste! Há pessoas que insistem e vão à luta, acreditando que, com o esforço de cada um, será possível fazer da antiga Nova-Lisboa uma Cidade-Vida cheia de vida.
... Huambo, minha terra... Lembro-me dos lohengos das Cacilhas... Oh Huambo, eu não vou te esquecer...(Tchissika, in memórias).


Voltarei...


Huambo, 13 de Outubro de 2023
Gerson Prata