Lisboa - Todos os livros de Agualusa têm uma escrita escorreita, fluida, que envolve o leitor. Este livro sobre Abel Chivukuvuku não foge à regra. Trata-se de uma narrativa informativa estruturada de forma romanesca, que apresenta um retrato hiperbólico da personagem principal.

Fonte: Maka Angola

A imagem que apresenta de Chivukuvuku é a de “grande homem” angolano. Descreve as suas origens no Bailundo, enfatizando a sua ascendência aristocrática, designadamente a sua linhagem, que traça até ao rei Ekuikui II, talvez a parte do livro em que as qualidades literárias de Agualusa mais se denotam.

 

Chivukuvuku é retratado como pertencendo a um tipo de pessoas “afáveis e cultas, com um vasto conhecimento do mundo, e tão à vontade nos grandes salões de Londres, Washington ou Nova Iorque, quanto nos mais desvalidos musseques da capital” (p. 154).

 

A sua vida é descrita desde a influência das missões protestantes, a frequência da escola pública, a adesão à UNITA, feita, essencialmente, “não por razões ideológicas, mas de parentesco – praticamente toda a sua família simpatizava com o movimento do Galo Negro, e alguns eram altos dirigentes do mesmo” (p. 57).

 

Dentro da UNITA são contados os seus papéis principais, como militar, como oficial de inteligência, como negociador com o MPLA, mas o que ressalta é a constante disputa com Jonas Savimbi. São descritos variados episódios de desentendimento ou desconfiança entre Jonas Savimbi e Abel Chivukuvuku. Aqui é uma narrativa quase jornalística.

 

Contam-se vários episódios em que Abel saiu vivo por “milagre”, tentando-se construir uma narrativa em que ele aparece quase como um “predestinado”, alguém escolhido por Deus ou algo semelhante (p. 102, por exemplo).

 

Curiosamente, Jonas Savimbi sai muito mal da história. É apresentado como “um homem perigoso, mentalmente instável e ideologicamente pouco confiável” (p. 152). Savimbi é retratado como alguém perigoso quando alcoolizado (p. 207 e ss).

 

Aliás, na narrativa de Agualusa fica claro que Jonas Savimbi procurou deliberadamente o apoio da África do Sul do apartheid, tendo tomado a iniciativa de contactar as forças sul-africanas (p. 77 e ss). Também é afirmada a responsabilidade de Jonas Savimbi e de quadros da UNITA na morte pela fogueira de 19 mulheres e 2 crianças (p. 130 e ss), bem como os assassinatos de Tito Chingunji e Wilson dos Santos (p. 150).

 

Obviamente, como pano de fundo, surge sempre o MPLA como o inimigo, mas de forma matizada. É muito enfatizada a amizade de Abel Chivukuvuku com Nandó (p. 148).

 

Finalmente, é de referir aquele o veredicto acerca da actual política da UNITA de permanente contestação ao resultado eleitoral de Agosto de 2022. Escreve Agualusa: “O movimento do Galo Negro contesta os resultados oficiais. Contudo, nem a UNITA nem nenhum outro organismo ou instituição consegue demonstrar a existência de fraude em larga escala.”(p. 246)

 

E sobre o futuro de Abel: “A história de Abel Chivukuvuku não termina aqui. Como tantas outras vezes, está apenas a recomeçar.” (p. 246)

 

De alguma forma, o livro surpreende, não pela crítica ao MPLA, que era esperada, mas pelo retrato desapaixonado, mesmo desconcertante, de Jonas Savimbi e da UNITA, em contraste com o ardoroso fulgor de Chivukuvuku.

 

Detectámos dois lapsos, a corrigir em próximas edições: na página 81, o presidente americano Gerald Ford é chamado Henry Ford; na página 172 diz-se que Herman Cohen era secretário de Estado dos EUA, quando nunca o foi (a sua função mais elevada no governo foi a de secretário de Estado-adjunto para os Assuntos Africanos (1989-1993)).

 

O novo livro de Agualusa é de leitura extremamente aconselhável para quem quer perceber melhor a história contemporânea angolana, especialmente nas suas ambiguidades.