Luanda - Esta é uma cena que se repete, diariamente, em Luanda. O comboio do Caminho-de-Ferro de Luanda sai da estação do Bungo em direcção à Viana mas, sucessivamente, cidadãos pegam em pedras e as arremessam fortuitamente contra o equipamento. Não me canso de contestar o “vandalismo popular” que se pretende instalar no nosso seio, prejudicando bens públicos que custam largas somas ao Estado. As cenas contra o comboio em Luanda não se restringem ao atirar de pedras, as peças da linha férrea do traçado do comboio são, constantemente, roubadas ou danificadas com lixo e fogo, criando prejuízos milionários à empresa e aos seus equipamentos. No final do dia, essas cenas deploráveis de vandalismo popular acabam por prejudicar-nos a todos.

Fonte: JA

Foi, também, esse o relato que recebi recentemente de alguns amigos quando estes, a nível formal, assistiram uma cena destas para uma viagem técnica de teste que estava a ser feita entre a estação do Bungo e o Novo Aeroporto Internacional de Luanda.

 

Por muito que nos custe admitir, cenas como essa do comboio, também retratadas aqui numa recente crónica minha, intitulada "As comunidades e a vandalização dos bens públicos”, obrigam-nos a pensar e admitir a possibilidade de penas mais draconianas, quando não uma espécie de Lei Marcial ao estilo do que fazem Estados como a Singapura.

 

É claro que algumas pessoas irão fácil e rapidamente levar a pensar nas reais causas desse fenómeno, empurrando para factores políticos, sociais e até culturais. Mas é claro também que toda a criminalidade tem uma causa. Isso obsta que possamos fazer juízo e condenação destes actos? Não é mesmo defensável e precisamos de parar com essas situações, em nome do Estado que queremos construir, onde os cidadãos constituem parte da solução e não mais um problema.

 

Mas apesar desse boicote, consciente ou inconsciente, premeditado ou não, o Estado não pode sucumbir. Pelo contrário, o Estado deve subsistir e impor-se. Por isso, é com agrado e satisfação que vemos o quanto estamos, finalmente, há dias de assistir à inauguração do Novo Aeroporto Internacional de Luanda, baptizado Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto, embora pessoalmente não concorde.

 

Fora essas polêmicas do nome, a verdade é que a infra-estrutura é relevante para a nossa história do pós-Independência. Infelizmente não tivemos muitas obras de engenharia com a complexidade que exigem e envolvendo nuances e expertises sobre as quais precisamos aprimorar. Eu coloco, nesse naipe restrito, a barragem de Capanda, as centralidades, especialmente o Kilamba e agora também o NAIL.

 

Também aqui, precisamos saudar o envolvimento de quadros nacionais, não obstante o projecto inicial ter sido desenvolvido além-fronteiras. É expectável que infra-estruturas dessa natureza dinamizem indústrias locais. No nosso caso, é fundamental que estas obras promovam o know-how nacional. Saúdo aqui, de modo particular, a participação do engenheiro José Paulo Nóbrega.

 

A nossa bela maneira, não faltam os expertises em identificar os defeitos. Subsistem algumas críticas ao equipamento, mas não nos parece que sejam relevantes e oportunas, sobretudo se olharmos ao custo e a morosidade que envolveu a sua construção e contornos jurídico-legais só clarificados, agora, no sentido de salvaguardar a titularidade pelo Estado. Temos, como resultado, um aeroporto projectado para atingir o pico no pleno funcionamento nos próximos anos, devendo aguentar por isso algumas décadas.

 

Não podemos olhar apenas para o aeroporto do ponto de vista da mobilidade. Um aeroporto é um espaço fundamental em termos de logística e cargas e não é despicienda a abordagem de privilegiar no novo aeroporto o transporte de cargas. Contamos todos que possamos, no médio prazo, inverter o paradigma dominante e tornar o nosso aeroporto como os portos, espaço para exportações e não tanto apenas para importações como vemos ocorrer ainda hoje.

 

Esperamos todos que o Novo Aeroporto Internacional de Luanda seja brindado com óptimos serviços e que permita elevar o nome de Angola, apoiando os desafios que se colocam à indústria da aviação civil, mas também ao turismo onde Angola tenciona tornar-se um destino de referência.

 

É claro que a abertura do novo aeroporto é apenas uma ponta do icebergue. É importante torná-lo uma referência e assegurar o movimento regional e capacidade de "hub” como vemos impressionantemente em Addis Abeba e aeroportos como os de Cape Town ou Nairobi. Ao novo aeroporto devem-se seguir portanto um aumento da oferta de destinos a partir de Luanda e uma flexibilidade em code shares ou outros mecanismos que assegurem o que se pretende com um aeroporto de grande dimensão.

 

O aeroporto deve, igualmente, ser uma nova fonte de geração de empregos directos e indirectos. Assim afastaremos a grande cogitação de criação de um elefante branco mas sim nos aproximemos do gigante operacional, com rotas e destinos para dezenas de países permitindo-nos ver companhias áreas de todo o lado a rasgar os nossos céus e a aterrar ali gerando rendimentos para o Estado, para os particulares e melhorando assim em especial a vida da comunidade ao redor.

 

Um novo aeroporto traz consigo também uma maior circulação de capital nas redondezas, potencializa a indústria hoteleira e restauração, os transportes e uma série de serviços de serventia ao terminal aéreo.

 

É importante ainda acautelar a organização e colocação dos voos por sectores, tornar mais rápido todo o itinerário como criar alas separadas para zonas de embarque que impliquem controle de vistos para acesso aos países de destino dos viajantes e zonas com menos controle bem como agrupar companhias, etc, todo um combinado de programação que permita ao nosso novo aeroporto se aproximar do que conhecemos lá fora como referência de grandes aeroportos.

 

A inauguração por ocasião de mais uma celebração da nossa Dipanda vem mesmo a calhar e lá se abrirão as asas pelo novo aeroporto!