Luanda - É já do domínio público que, amanhã, o Presidente João Lourenço será recebido, na Sala Oval da Casa Branca, pelo Presidente Joe Biden, num encontro que cria uma série de expectativas relativamente ao que poderá ser o curso das relações entre os dois Estados.

Fonte: JA

Este encontro simboliza um ganho da diplomacia angolana e representa um sinal que o Estado está a trabalhar no sentido de melhorar e estreitar as relações com os EUA, considerando o encontro ao mais alto nível entre os dois Chefes de Estado.

É, também, o reconhecimento das reformas estruturais e estruturantes introduzidas pelo Governo angolano nos últimos anos, como o combate à corrupção, melhoria do ambiente de negócios, questões ligadas aos direitos humanos, consolidação da democracia, entre outros valores, considerados sagrados no Ocidente, mas com cunho, cada vez mais universal.

Nunca é demais sublinhar que, quanto aos aspectos citados, o país tem muito a fazer para atingir os níveis desejados, sendo, igualmente, relevante, salientar que têm sido dado passos nesta direcção, que contribuem para a melhoria da imagem de Angola.

Este encontro enquadra-se, também, no âmbito das comemorações dos 30 anos da normalização das relações políticas e diplomáticas entre os dois Estados, que ocorreu a 19 de Maio de 1993, quando a, então, Administração democrata do Presidente Bill Clinton reconheceu o antigo Governo do ex-Chefe de Estado, José Eduardo dos Santos, pouco depois da crise pós-eleitoral de 1992, a UNITA, liderada por Jonas Savimbi, tinha rejeitado os resultados eleitorais.

Jonas Savimbi e a UNITA perderam o apoio que gozavam das potências ocidentais, com os Estados Unidos à cabeça, o que facilitou o reconhecimento e a normalização das relações. Concorreram, igualmente, para o efeito vários factores, como o fim da Guerra-Fria, a visão de que a UNITA pretendia chegar ao poder pela via militar para derrubar um Governo legítimo saído das primeiras eleições, além da natureza estratégica de Angola na região e no mundo. Isso pesou, significativamente, na mudança de alinhamento da Política Externa norte-americana para Angola e criou as condições ao início das sanções da ONU à UNITA, conforme o autor do presente artigo defendeu no seu livro "As Eleições em Angola de 1992 até aos Nossos dias”.

A par dos elementos acima apresentados, é importante frisar que os EUA, também, têm interesses económicos, políticos e até de segurança em Angola, porque é um país importante dentro da Geografia Política africana, com uma participação activa nas organizações regionais, na construção e promoção da paz em África e em matérias de Prevenção, Gestão e Resolução de Conflitos, elementos estes citados acima, que catapultaram a imagem do país no Sistema Internacional.

Fazendo um aporte, os interesses das grandes potências estão instalados em Angola e isso obriga que, no processo de formulação da sua política externa e no (re) posicionamento no Sistema Internacional, o país tenha adoptado o que eu chamaria de "diplomacia de Jogo de Cintura”, traduzido na ideia segundo a qual o país deve ter uma posição política cuidadosa em matéria de Política Externa para se evitar "irritantes políticos ou diplomáticos” com as grandes potências face aos acontecimentos que dominam o cenário internacional, mas sem pôr em causa os interesses nacionais.

Sabemos todos que o tacto político e uma diplomacia mais proativa devem funcionar não apenas para maximizar os laços com todos os países, no geral, e, em particular, as grandes potências, mas, também, preservar os interesses nacionais.

Em função disso, destaque-se o facto de a nota de imprensa da Presidência da República de Angola, referente aos pontos que vão nortear o encontro, ter uma forte componente económica, passando por domínios como o comércio, investimento, clima e energia, e de modo muito particular, o desenvolvimento do Corredor do Lobito, tendo em atenção que o consórcio que venceu o concurso para a gestão da estrutura é americana.

E este corredor reveste-se de uma importância estratégica para o comércio da região Central e Austral do continente africano para com os terceiros países.

Os EUA é o Estado director do mundo e compreender até que ponto os americanos têm interesses em investir em Angola pode ser uma espécie de certificação dos avanços das reformas que o país introduziu nos últimos tempos, e, com isso, o Estado angolano poderia capitalizar melhor a sua estratégia de atracção do investimento estrangeiro directo face às reformas introduzidas para melhorar o ambiente de negócios.

Outro aporte, que é necessário referenciar, prende-se com o facto de que os EUA é o maior investidor em Angola, embora no sector da Energia, razão pela qual urge, claramente, começar a pensar na diversificação dos investimentos, para atrair as empresas americanas ligadas às Tecnologias de Informação, agronegócio, banca, entre outros sectores. Espera-se que este encontro, entre Os Presidentes Lourenço e Biden, produza resultados factíveis que permitam o aumento do fluxo de negócios entre os dois Estados e abra uma nova página nas relações entre ambos os Estados.

Termino este artigo, sublinhando que o que move as relações entre os Estados são os interesses, sempre permanentes em detrimento das amizades, que são sempre passageiras. E esse convite resulta, fundamentalmente, da conjugação, de interesses comuns, fortalecidos nos últimos trinta anos e que os dois países procuram, agora, mais do nunca, colocar nos eixos, fazendo jus à parceria estratégica, rubricada há mais de 10 anos.

 

*Professor de Relações Internacionais e mestre em Gestão e Governação Pública, na especialidade de Políticas Públicas