Luanda - Finalmente, os camaradas atingiram um raro e invejável estado de harmonização espiritual e política. Todos, sem excepção, parecem agora compreender que anunciar candidatura fora do altar partidário não é coragem, não é ambição, nem sequer é política. É apenas barulho, confusão e uma desafinada cacofonia revolucionária.
Fonte: Club-k.net
Segundo a nova doutrina, revelada não em Fátima, mas no Kilamba, no discurso preferido pelo papá partidário, afirmou na sua santa homilia que escrever cartas, gravar vídeos emocionados ou declarar amor à pátria nas redes sociais não transforma ninguém em candidato. No máximo, transforma o autor num ruído ambiente, desses que passam antes do hino e depois dos aplausos ensaiados.
Ficou claro que, no MPLA, a candidatura não nasce do povo, nem da militância inquieta, nem da vontade própria. Nasce da bênção solene do papado partidário, após longas vigílias estatutárias, consultas políticas aos órgãos competentes e a revelação final no Congresso, o verdadeiro conclave partidário.
Quem ousa antecipar-se, quem se atreve a manifestar interesse, comete o pecado mortal da política moderna: pensar fora da liturgia. E o castigo é imediato, não a excomunhão formal, mas algo pior, ser classificado como distração, como alguém que tenta desviar o partido das questões consideradas realmente importantes, como se a sucessão fosse um detalhe menor numa democracia cuidadosamente coreografada.
O mais sublime é o argumento final: o MPLA escolherá alguém que faça mais e melhor do que o actual Presidente. Uma promessa quase metafísica, pois pressupõe que o sucessor será simultaneamente melhor, mas rigorosamente escolhido pelo mesmo método, pelas mesmas estruturas e com o mesmo manual de instruções. Um milagre administrativo digno de canonização.
Assim, camaradas, aprendamos a lição:
Quem fala cedo demais peca.
Quem anuncia sem bênção gera ruído.
Quem se julga candidato sem autorização confunde.
E quem espera em silêncio, obediente e alinhado, esse sim, pode um dia merecer a graça.
Até lá, qualquer anúncio fora do rito não é política. É apenas cacofonia num coro que só aceita solistas autorizados.










