Washington, D.C., — Uma investigação forense conduzida pelo laboratório de segurança da Amnistia Internacional confirmou que o spyware Predator, desenvolvido pela empresa de vigilância Intellexa, foi utilizado para visar o jornalista angolano Teixeira Cândido em 2024. O caso surgiu no âmbito de uma investigação mais ampla sobre ameaças de vigilância em Angola, inicialmente conduzida pelas organizações Friends of Angola e Front Line Defenders.
Fonte: Club-k.net
Segundo o relatório, a análise ao iPhone do jornalista revelou evidências de comunicações associadas ao spyware em 4 de maio de 2024, confirmando que o dispositivo foi infetado. O ataque foi precedido por semanas de engenharia social, durante as quais um número angolano desconhecido contactou Cândido via WhatsApp, fingindo tratar-se de estudantes interessados em discutir temas socioeconómicos. Após ganhar a confiança do jornalista, o atacante enviou links disfarçados de notícias legítimas; ao abrir um deles, o software malicioso foi instalado.
O Predator é considerado uma ferramenta de vigilância altamente intrusiva, capaz de aceder a dados de aplicações encriptadas, emails, palavras-passe, fotografias, contactos e localização, além de permitir a gravação de chamadas e a ativação remota do microfone do dispositivo. Projetado para deixar poucos vestígios, é apontado como uma das tecnologias de espionagem digital mais sofisticadas atualmente disponíveis.
Teixeira Cândido, antigo secretário-geral do Sindicato dos Jornalistas Angolanos, já vinha relatando episódios de intimidação desde 2022, incluindo arrombamentos no seu escritório e desaparecimento de equipamentos informáticos. Após a confirmação forense, afirmou sentir-se exposto e limitado, com dificuldade em confiar nos seus próprios dispositivos de comunicação.
O caso surge num contexto de crescente preocupação com o encolhimento do espaço cívico em Angola, marcado pela aprovação de legislação controversa nas áreas da segurança nacional, cibersegurança e regulação das organizações não governamentais, bem como por denúncias de uso excessivo da força contra manifestantes e detenções arbitrárias. Em julho de 2025, protestos relacionados com o aumento do preço dos combustíveis resultaram em dezenas de mortes e detenções, segundo relatórios independentes.
Embora a Amnistia Internacional não tenha atribuído diretamente o ataque a uma entidade estatal, a organização sublinha que a aquisição e utilização de tecnologias desta complexidade é geralmente limitada a governos ou entidades com elevada capacidade financeira e técnica. O spyware Predator já foi associado a operações de vigilância em vários países, frequentemente envolvendo jornalistas, ativistas e opositores políticos.
As organizações envolvidas apelam agora à abertura de uma investigação independente e transparente, ao esclarecimento público sobre a eventual aquisição de ferramentas de vigilância comercial em Angola e ao reforço de salvaguardas legais para proteção de jornalistas e sociedade civil. Especialistas alertam que o uso de spyware contra profissionais da comunicação representa não apenas uma violação individual de direitos, mas também uma ameaça mais ampla à liberdade de imprensa e ao funcionamento democrático.











