A evacuação do artista àquele país africano, onde se encontra em tratamento a uma avançada hepatite C de nível 2, exige, desde então, uma ampla campanha da sociedade civil, chamada uma vez mais a demonstrar, com fé e esperança, o seu espírito solidário, patriótico e de irmandade para com os criadores nacionais.

Com a mesma predisposição demonstrada por altura do internamento de Teta Lando em França, em cuja capital faleceu, vítima de cancro, todos são chamados a participar dessa corrente de união, que tem por finalidade preservar a voz de um criador de "mão cheia", tido como o expoente máximo da música infantil angolana na década de 80.

Desde o anúncio da evacuação do autor de "Belinha Chuchu" à Namíbia, várias instituições e pessoas singulares (algumas anónimas) vêm dando as mãos para se associarem à nobre causa, criando condições logísticas de suporte, quer para o tratamento do músico no estrangeiro, quer para a fase pós-internamento.

É, pois sabido, que não se trata de um compromisso social obrigatório para quem quer que seja, mas a necessidade impõe sacrifício a qualquer filho desta acolhedora Angola, por onde várias vezes "desfilou" a encantadora voz daquele intérprete "pió", levando à "loucura" jovens, adolescentes e crianças de todo o país.

Estender a mão ao artista, nesse momento de aflição, é mais do que um agradecimento pelas emoções proporcionadas ao povo na década de 80, período em que várias vezes sacrificou os estudos para "consolar", com o seu encantador timbre vocal, compatriotas martirizados por uma abrupta guerra civil.

De cidade em cidade, sobretudo na capital Luanda, Mamborró levou sem preconceito o seu sentimento patriótico até ao coração de pessoas cujas idades ultrapassavam, de longe, os seus pouco mais de 16 anos, idade com que se tornou, em 1987, o cantor mais querido do país, vencendo o Top dos Mais Queridos.

Por todo esse carinho e consideração, torna-se desnecessário apelar à multiplicação de esforço da sociedade civil, da qual se espera, doravante, um apoio cabal, directo e desinteressado, capaz de pôr fim ou, pelo menos, minimizar a dor de Mamborró. 

A União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC) desde a primeira hora deu o seu contributo, patrocinando ao artista o bilhete de passagem à Namíbia, gesto a que se seguiram outras manifestações de apoio, como a campanha de angariação de fundos levada a cabo pelo programa Sábado Mais, da Rádio Luanda.

A verba arrecadada cifrou-se em quatro mil e 300 dólares, aplicados nos primeiros momentos do tratamento em terras namibianas, segundo informações do agente do artista, Manuel dos Santos "Kito", que diz haver melhorias no estado de saúde do cantor. 

De igual modo, o músico Maya Cool comprometeu-se a oferecer metade dos 15 mil dólares obtidos pela conquista do Top dos Mais Queridos, organizado a 03 deste mês, pela Rádio Nacional de Angola, gesto que deve ser acompanhado, sem qualquer  contrapartida, por todos os interessados em preservar a arte nacional.

Para tal, foi aberta a conta nº 28673753, no Banco BIC, à qual já foram depositados, de acordo com "Kito", valores da governadora de Luanda e ministra sem pasta, Francisca do Espírito Santo, da família do falecido empresário Valentim Amões, e Ovídeo, com as quantias de 15 mil, dez mil e cinco mil dólares, respectivamente. O empresário Bento Cangamba aliou-se a essa corrente com uma quantia de 30 mil dólares.

Essa "onda solidária" deve estender-se nos próximos dias à realização de espectáculos de homenagem e angariação de fundos, um dos quais agendado para 11 de Novembro, no âmbito das festividades do 33º aniversário da Independência Nacional.   
 
Iniciativa dos radialistas Salú Gonçalves e Quim Freitas, o "show" que se prevê realizar no Cine Atlântico, em Luanda, conta envolver músicos que repartiram o palco com Mamborró, na agitada década de 80, tais como Yuri da Cunha, Lucas de Brito (Maya Cool), as Gingas do Maculusso e Ângelo Boss.

Este será, seguramente, um momento ímpar para Angola voltar a escutar, em palco, temas que fizeram moda nas pistas de dança e festas escolares daquele período, entre os quais "Mamborró das Garotas", "Vovô Samba", "Cajueiro" e "Guida", de Mamborró.

Mais do que um espectáculo para matar saudade, o evento terá um carácter social específico, sendo, desde já, uma oportunidade para a Nação mostrar o seu ar de gratidão àquele intérprete, pelo sucesso conquistado em todo o país desde 1983.
 
Ele iniciou-se no projecto "Piô Piô", da Rádio Nacional de Angola, que serviu de trampolim para vários artistas de sucesso na música hall infantil angolano, como Maya Cool, "Moringa", Yuri da Cunha, "Amigo", Ângelo Boss, "Wassamba", As Gingas, "A Mangonha", Zito Silva, "Vamos Trabalhar", Ângelo Ramos, "Crianças Alegres", Alberto Matos, "Menina Pensando" e Lopes Cortez, "Somos o Mundo". 

É, pois, a hora de a sociedade dar as mãos, associar-se a causa e ajudar a salvar um homem de arte, na mesma dimensão do apoio prestado à cantora Nany e aos colegas de profissão Virgílio Fire e Pirica Duia, estes dois últimos vítimas de acidente de viação.

Angola já demonstrou, em outras ocasiões, ter um povo generoso e solidário, pelo que se pode esperar, agora, uma corrente cada mais forte e alargada do ponto de vista financeiro, capaz de assegurar, com esperança, a ansiada recuperação de Mamborró. 
 
*Elias Tumba
Fonte: Angop



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