Samora Machel, chefe de Estado moçambicano desde a proclamação da independência do país, em 1975, até sua morte, em 19 de outubro de 1986, morreu quando o avião em que viajava caiu na localidade sul-africana de Mbuzini.

Uma comissão de inquérito composta por peritos de Moçambique, África do Sul e da ex-União Soviética chegou a resultados divergentes, com os especialistas moçambicanos e soviéticos apontando a sabotagem do aparelho como causa do acidente, enquanto a África do Sul indicava erros do piloto.

Na época, Moçambique e o governo sul-africano, dirigido pelo regime racista do apartheid, viviam um ambiente de permanente hostilidade, com Maputo acusando Pretória de apoiar a guerrilha da Renamo, hoje o maior partido da oposição moçambicana. Já as autoridades sul-africanas de então acusavam Maputo de acolher militantes do Congresso Nacional Africano (ANC, em inglês), que lutava contra a política de discriminação na África do Sul, hoje partido no poder no país.

No contexto da Guerra Fria
Em entrevista concedida ao principal canal privado de televisão de Moçambique, a STV, em 14 e agosto, Sérgio Vieira, que ocupava a pasta da Segurança no ano em que Machel morreu, reiterou a posição de que o ex-presidente foi "assassinado", e não vítima de acidente, sublinhando ainda que "os Estados Unidos e a Inglaterra sabiam do que aconteceu".

"Nas vésperas do funeral do presidente Samora Machel, o embaixador inglês me telefonou informando que tinha recebido instruções de Downing Street [gabinete do primeiro-ministro britânico] para comunicar que a Inglaterra não faria parte de nenhuma comissão de inquérito encarregada de investigar a morte do presidente Samora Machel. Instantes depois, o embaixador dos Estados Unidos também me telefonou comunicando o mesmo fato", disse Sérgio Vieira.

Para Vieira, "os Estados Unidos e a Inglaterra sabiam que os seus peritos nunca aceitariam uma mentira, e chegariam a uma conclusão politicamente inconveniente": a de que a queda do avião tinha sido provocada pelo regime do apartheid que, apesar de estar sob sanções internacionais, era tolerado pelo Ocidente durante a Guerra Fria.

Os Estados Unidos e o Reino Unido consideravam a África do Sul do tempo do apartheid uma espécie de tampão contra a expansão do comunismo da ex-União Soviética, que tinha sob sua órbita a maioria dos países africanos, incluindo Moçambique.

Sérgio Vieira, que chefiou a missão moçambicana para trasladar os corpos das vítimas, achou igualmente estranho que tenha sido sugerido o envolvimento de Londres e Washington na comissão de inquérito, o que contraria as regras da Associação Internacional do Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês), que prevêem "a participação do produtor da aeronave, do país do acidente e do país das vítimas".

"O ministro [das Relações Exteriores da África do Sul] Roelof 'Pik' Botha me disse que os Estados Unidos e a Inglaterra participariam da comissão de inquérito, e eu achei isso estranho, porque é contra as regras da Iata. Dias depois, são os embaixadores dos dois países que negam essa participação, sem que Moçambique a tenha pedido alguma vez", enfatizou Sérgio Vieira.

Sem acusar diretamente o governo sul-africano da época, Sérgio Vieira diz que o então ministro da Defesa da África do Sul, Magnus Malan, ameaçou diretamente Samora Machel às vésperas do acidente, pelo suposto apoio a atos de guerrilha de militantes do ANC no interior da África do Sul.

Inquérito
Sérgio Vieira considerou sem sentido a conclusão sul-africana de que os pilotos russos do avião presidencial eram inexperientes e tripulavam sob efeito de álcool.

"Os únicos vestígios de álcool encontrados nos corpos são os que resultam da decomposição após a morte, e não de algum consumo […]. Quanto à experiência dos pilotos, eram aquilo que, na gíria da aviação, se chamam de 'milionários do ar', com mais de 10 mil horas de vôo. O único com menos horas tinha oito mil, e não exercia funções no cockpit", sublinhou Vieira.

Sérgio Vieira suspeita também da atitude sul-africana em relação à região onde ocorreu o acidente. Segundo o ministro, Pretória declarou o local como zona militar às vésperas da queda, mas retirou os militares, deixando alguns policiais, pouco antes da missão do governo moçambicano chegar aos destroços.

Vieira acusou ainda o então governo sul-africano de não prestar socorro aos feridos, preocupando-se apenas em reconhecer o presidente Samora Machel, que "teve morte instantânea e apresentava o crânio amarrotado", e em recolher documentos.

"Um dos sobreviventes contou-me que os membros do exército sul-africano que estavam no local do acidente só se preocuparam em recolher documentos e em reconhecer o presidente Samora Machel", disse na entrevista.

Ausências marcantes
Sérgio Vieira considera "especulação" a acusação de uma suposta "mão interna" do governo moçambicano na conspiração para provocar a queda do aparelho, que se apóia no fato de nenhum membro da cúpula da Frelimo (partido no poder) estar no avião.

"O próprio Samora me disse para não viajar, porque acabava de perder minha primeira mulher e tinha chegado havia pouco tempo de uma missão em Botsuana. Joaquim Chissano [que depois sucedeu Samora Machel na chefia do Estado moçambicano] estava fora do país também em missão de serviço", sublinhou Sérgio Vieira, lembrando ainda que Machel desrespeitou recomendações de sua equipe de segurança para não viajar de avião durante a noite, devido à guerra que se vivia na África Austral.

"Samora Machel tinha virtudes, mas era teimoso, atropelou várias vezes regras protocolares, incluindo recomendações para não viajar à noite de avião. Tive várias vezes ataques cardíacos devido à sua teimosia", contou Sérgio Vieira.
 
Fonte: Lusa



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