Em entrevista à BBC para África, Ernesto Mulato sublinhou que o seu partido reconhecera os resultados das eleições "para salvar e poupar vidas".

BBC: Como explica a derrota da UNITA nestas eleições legislativas?

EM: Se o que aconteceu no dia 5 de manhã, aqui em Luanda, não tivesse acontecido, como eles (MPLA) já tinham estudado a manipulação em todo o país, possivelmente não seria muito visível o que tinham planeado. Eles foram infelizes com aquilo que aconteceu aqui em Luanda. O MPLA foi infeliz. Porque, o que aconteceu em Luanda expô-los; é o plano que fizeram há muito tempo para uma manobra. Quando começaram com a intimidação, quando o Sinfo [Serviços de Inteligência do Governo angolano] entrou em acção, intimidando as pessoas mesmo nas províncias...

BBC: Está a dizer que houve uma campanha de intimidação; eu não vi ninguém da UNITA a alegar fraude. Está agora a afirmar que esta ocorreu?


EM: Quando alguém diz publicamente “vote no MPLA”, mesmo aqui em Luanda, em várias mesas, isso significa o quê? Não precisamos de falar de fraude, mas está visível! Em que eleição no mundo você pode fazer isso? Você quando fica na fila, ninguém sabe; o voto é secreto.

BBC: Isso foi feito quando as pessoas estavam a fazer fila para votar?

EM: Sim senhor! Isso não é segredo. Mesmo o atraso aqui (em Luanda), foi um atraso propositado. Não foi por desorganização. Não, não, não! Foi uma coisa estudada meticulosamente. Isso não tapa os olhos de quem é inteligente e estuda as situações. Isso tudo foi estudado!

BBC: Há quem diga que a UNITA está à procura de desculpas para justificar a sua derrota. Como qualifica a campanha pré-eleitoral da UNITA?

EM: Eu penso que a UNITA fez uma grande campanha; quando a UNITA pegou nos seus quadros dirigentes e os levou para as províncias, sabia o que estava a fazer. Em contacto com as massas!

BBC: Mas o que aconteceu à UNITA nas províncias do Huambo, Bié e Cuando-Cubango foram autênticos desastres.


EM: Estou a dizer-lhe que não estou triste, porque sei o que aconteceu! A única coisa que o povo estava à espera era pela atitude da nossa direcção.

BBC: Foi coincidência o facto de o presidente da UNITA, Isaías Samakuva, ter feito a declaração que fez (de reconhecimento dos resultados das eleições legislativas) depois da maior parte dos observadores estrangeiros se ter pronunciado a favor dos resultados?

EM: Primeiro, não o fizemos por causa dos observadores. Os observadores para nós não são nada. Não, não foi por causa dos observadores. Fizemo-lo depois de termos visto que a tendência (dos votos) não se alterava. Um dia antes, nós tínhamos feito uma declaração. E continuou a tendência. Então dissemos, “como já não se altera, vamos é aceitar os resultados”...

BBC: Mas, em face dos resultados que está a contestar e das alegações que fez em relação à manipulação desses resultados, porque foi que a UNITA decidiu reconhecê-los?

EM: Toda a gente estava a olhar para o que a UNITA ia fazer. Então, preferimos contestar como fizemos do que dizer “não vale”. Isso iria apenas provocar uma situação conflituosa que não nos interessa. Dissemos, “vamos esperar quatro anos; quatro anos correm muito rapidamente. No próximo ano haverá eleições presidenciais. É melhor assim, para salvarmos e pouparmos vidas”.


BBC: Os resultados destas eleições legislativas com certeza que terão um impacto na liderança da UNITA; especula-se nas ruas em relação a uma possível alteração da liderança.

EM: Não! Essas especulações não começaram agora. Logo após o décimo congresso (da UNITA) diziam “Epá, só mais uns meses e vai haver um congresso extraordinário!

BBC: Mas, face ao desempenho da UNITA nestas eleições, é possível que o Senhor e o Senhor Isaías Samakuva se mantenham na chefia da UNITA?

EM: A derrota que ocorreu não tem nada a ver com a liderança da UNITA. Pelo contrário! Quem é que viria fazer melhor? Quem? Se as pessoas quiserem, convocamos uma reunião e vão ver quem é que eles apoiarão. E que nos digam quem são os candidatos que querem tomar conta da liderança, em vez de Samakuva. Você vai ver o que se vai passar. Os homens da UNITA sabem o que querem. E a direcção da UNITA e todos os membros do Comité Permanente da Comissão Política sabem o que vão fazer. Logo, eles podem especular. Como nós não vamos na onda, não serão as especulações que farão as coisas acontecer. Não vai acontecer! Essas especulações não são de homens sérios da UNITA – se é que são da UNITA. Mas eu sei que também não são da UNITA. Há pessoas que estão a fazer insinuações só para dividir a UNITA

Fonte: BBC



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