Qual a visao da FpD sobre os resultados até agora apresentados?
A FpD pensa que os resultados afirmam uma esmagadora vitória do Mpla mas não traduzem a real relação de forças entre o partido vencedor e a oposição em termos de eleitorado. No que diz respeito à FpD os resultados estão muito aquém não só do esperado, mas igualmente de muitas constatações sobre as votações no terreno sobretudo na cidade de Luanda.

De qualquer forma devemos entender como derrota eleitoral grave que chama a nossa atenção para uma profunda reflexão sobre os caminhos a seguir no futuro. Tal qual os resultados estão, confirmam práticamente o regresso ao monopartidarismo e isto poderá traduzir-se num golpe fatal para as conquistas democráticas. É de observar que a produção legislativa da Assembleia Nacional a partir de 1995 começou a limitar o espaço democrático. Cada vez mais vamos reparar a conformidade da prática antidemocrática com as leis, no sentido do seu estreitamento. Isto vai requerer um esforço maior dos sectores democráticos da sociedade civil uma vez que os sectores políticos estão muito debilitados a nível da intervenção institucional.

 Até que ponto os problemas de logística e a desorganização do processo contribuíram para estes resultados?

Questões logisticas e desorganização do processo são questões aparentes. São as ondas que se vêm à superfície. Debaixo delas há fortes correntes reais que visaram desvirtuar o acto eleitoral. Tudo foi efectivamente calculado. Em todas as fases do processo eleitoral houve constrangimentos e estavámos todos a tentar adivinhar o que seria posto em marcha no acto para viabilizar a vitória do partido da situação. Se fosse uma desorganização normal seria assumida pelo responsável da Comissão Provincial de Luanda, em primeira instância, o que nunca aconteceu. Teve que ser a CNE directamente para controlar politicamente a situação. Portanto, essa desorganização foi a forma de “desculpabilizar” o que realmente se quis que acontecesse: tornar o processo permeável à fraude. Se complementarmos isto com o não credenciamento completo de membros dos partidos políticos e da sociedade civil;  a falta de informação completa sobre as mesas e eleitores em cada assembleia; o completo por estruturas do partido no poder em todas as mesas; a propaganda eleitoral dentro do raio de 500 mts; as ameaças e intimidações e as dicas à boca da urna; os votos duplos; os votos de gente não registada; a votação de gente fardada, então podemos compreender que tudo foi montado. O caos, como em vários domínios no nosso país, foi aparente. Poucas pessoas credibilizarão no fundo do seu bom senso, este processo que não é, como se propagandeava, um exemplo para a Àfrica. E penso, mesmo, que até o partido vencedor está assustado por ter tomado tanta precaução, atribuindo-se a si objectivamente tamanha responsabilidade.

O grande exemplo foi dado pela oposição que não obstante a magnitude das ditas insuficiêcias e reais irregularidades, compreendeu o momento, compreendeu as expectativas do povo angolano, compreendeu a psicologia social e com toda a paciência que certas situações políticas nos impõem acatou os resultados eleitorais e, até, felicitou o vencedor expresso. Abriu-se assim um precedente positivo e isto vai radicalizar no povo a crença nos processos eleitorais, o que é muito bom para a democracia. Vai estimular (ou condicionar) o partido hoje vencedor de ter o mesmo procedimento no futuro, contra os receios que existiam na sociedade, de acordo com os quais, uma perda de poder por parte desse partido poderia resultar em grandes perturbações. Aliás, eu próprio tenho o exemplo de comportamento desse partido nesse aspecto pois em 1991 venci as eleições para um dos cargos da Administração da Sonangol e recusaram-se a dar me posse, contra todas as leis. Também apesar da FpD em 1992 ter um deputado eleito na Assembleia Nacional nunca, enquanto líder da FpD, fui convocado para integrar o Conselho da República. Espero que com o elevado sentido democrático e patriotico demonstrado pela oposição o regime perceba que deve jogar as regras democráticas.

 A oposição apoiou o pedido de impugnação das eleições feito pela UNITA, mas a CNE deu o indeferimento. Como analiza isto?
A Unita tomou uma atitude de forma democrática e nos termos da Lei exigindo a impugnação em Luanda. É preciso realçar que a lei prevê contestações mas as hostes do partido da situação vieram logo de forma dramática e com impropérios combater essa atitude. Luanda foi de facto um caos, pois eram os resultados de Luanda que o partido da situação mais temia. Não tinha a convicção na vitória e tinha que aplicar a fórmula de Bento Bento “custe o que custar” (é um tudo vale). Em democracia os órgãos destinatários devem pronunciar-se e não ignorar as petições e reclamações, como infelizmente é regra. Por isto, de uma forma ou de outra, apesar de não saber os termos, a oposição no geral concordou.

Agora, na altura que a Unita faz a reclamação não tem ainda os relatórios que fundamentam, de acordo com a lei, o seu pedido, uma vez que o mesmo deveria ser acompanhado e, sómente, das reclamações dos delegados de mesa. Por outro lado, não tendo havido cadernos eleitorias e podendo os eleitores votar em qualquer parte sem ser “voto especial”, como repentinamente se generalizou, como fazer só re-eleição em Luanda? Uma semana depois teríamos gente com o dedo limpinho, a voltar a votar, vinda de todos os recantos do país. A própria forma inesperada como ocorreu a votação sem suporte de controlo (cadernos eleitorais) inviabiliza um pedido de impugnação localizada. Contra a impugnação geral (como única alternativa) estava a aparência de que no resto do pais, ao menos não foi visivel essa desorganização profunda e intencional. Por isso a FpD embora aceitando o resultado afirmou taxativamente que as eleições nao foram livres, justas e transparentes.


O que será da FpD daqui para frente?
A FpD teve, como nunca, a oportunidade de apresentar o seu projecto político. Isto permitiu uma onda de simpatia muito grande. Todo o mundo está espantado como teve um score tão baixo. Famílias inteiras votaram em nós e procuram a explicação de tão baixa quotação, inferior mesmo às subscrições, quando temos consciência que a campanha atingiu significativamente outros sectores. Os membros mais velhos da FpD têm uma história de resistência desde o tempo colonial e não entendem a política como um concurso, mas como uma missão permanente, uma atitude perante a vida. Há certamente uma base de apoio que deve ser desenvolvida e há profundas lições que temos capacidade de tirar, porque sabemos ouvir. Mas também há uma Juventude que se afirmou nesse processo, que apreendeu melhor (com esta ocorrência) como lidar com o sistema, e que está viva, não se sente abatida, e quer continuar. Acreditamos que tenha sido um excelente baptismo. Quando olhamos para o mundo (e Angola em particular) e ainda o vimos com tantas discrepâncias, injustiças e pobreza apercebemo-nos que há sempre coisas a fazer. Esta Juventude começa a entender a sua relação com o mundo através da política e esta derrota poderá marcar o ponto de ruptura para um engajamento efectivo. Para além disso, a esmagadora vitória do partido no poder tem sido um dos factores que vem trazendo novas pessoas para a FpD, após o pleito. Há um manto de indignação que tende a transformar-se em acção combativa. É do resultado disso tudo que renascerá a FpD, pois, independentemente dos resultados é já um movimento concreto.

 E mais algo a acrescentar?
Uma palavra de reconhecimento a todos os eleitores, a todos aqueles que acreditaram na mudança. Que se consciencializaram que “com a FpD a mudança é possível” e mostraram-se dispostos a iniciar a “longa marcha pelo amor e pela alegria para fazer acontecer a mudança em Angola”,contra a descrença que ainda amplos sectores da sociedade têm de que é uma fatalidade viver com baixos níveis de alfabetismo, sem qualidade de vida, com bastante pobreza, num país com uma enorme diferença na divisão da riqueza e, sobretudo, sem direitos de cidadania. Contra aqueles que acreditam que os donos do país são um grupo minoritário. Reafirmar-lhes que somos um partido de confiança ao serviço da sociedade. Dizer-lhes que estando irmanados e empenhados vamos fazer acontecer, pois em verdade, as coisas estão a acontecer. Uma palavra para todos os grupos que de forma organizada e individual mostraram a cara e disseram “eu apoio a FpD”. A FpD é um patrimómio comum. Somos todos parte dela pois comungamos as mesmas preocupações. Que permaneçamos corajosos caminhando juntos numa estratégia comum. Aos militantes e simpatizantes da FpD que, em condições adversas e por isso com muito sacrifício se empenharam até onde puderam não só para viabilizar a nossa candidatura, mas para apresentar ao eleitorado um programa coerente e o popularizar, o nosso profundo reconhecimento. Que o ganho resultante da implementação efectiva da FpD no espaço nacional seja defendido de forma sábia e vigorosa, uma vez que a tendência agora será certamente “esmagar”.

Aos partidos da oposição – aqueles que não se bandeiam por um prato de lentilhas –  que com serenidade souberam viabilizar os resultados eleitorais compreendendo o complexo processo angolano que sejamos capazes de tirar lições definitivas sobre a natureza do regime e saibamos articular, quanto antes, um processo estratégico de unidade para nas futuras batalhas proporcionarmos o equilibrio que sabidas vozes propunham necessário acontecer neste 2008. Finalmente, ao partido no poder que apesar da retumbante vitória não caia na tentação de pensar que é a totalidade de Angola, mas que seja capaz de enfrentar o desafio de  trabalhar na prática para todos os angolanos.

 Fonte: Jornal Angolense



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