Lisboa - A recente nomeação de João Lourenço para o cargo de ministro da Defesa Nacional é interpretada, em meios políticos conotados com o regime e outros, independentes, nos seguintes termos:

Fonte: Africa Monitor

- Representou a sua reabilitação política plena.

- Prestou-o a passar a ser novamente identificado como candidato eventual à “sucessão presidencial” (percepção decorrente de uma conjugação de factores, entre os quais os atributos pessoais e políticos que reúne, memória da sua antiga condição de “delfim” e a projecção do cargo que passa a desempenhar).

- O Ministério da Defesa tenderá a adquirir mais autonomia e respeitabilidade – em especial para conforto dos militares.

No seguimento de uma reaproximação entre o Presidente, José Eduardo dos Santos (JES) e João Lourenço, que informações verificadas, recentes, indicavam estar em curso (AM 834), previa-se a nomeação do mesmo para um cargo com importância e visibilidade compatíveis com o seu próprio estatuto político.

O cargo de governador de Luanda, que em dado momento (AM 799) se supôs ser o que lhe estava destinado tem, mesmo apesar dos poderes reforçados com que elegadamente o exerceria, menos importância política que o de ministro da Defesa – o que significa que o alcance da sua reabilitação foi maior; ou completa.

2 . A função dos ministros da Defesa esteve nos últimos anos sujeita a uma nítida subalternização institucional e política (AM 726), em consequência de uma sistemática absorção de competências inerentes ao cargo pelo chefe da Casa Militar, na pessoa do Gen Helder Vieira Dias “Kopelipa”.

O fenómeno manifestou-se com especial acuidade no “consulado” do anterior ministro, Cândido Van Dunem – uma realidade atribuída factores adicionais como traços da personalidade do próprio (AM 730), o seu “espírito de resignação” e ainda as suas relações de parentesco com “Kopelipa”.

Em relação a João Lourenço, a ideia prevalecente é a de que exercerá o cargo em plenitude (algo que corre ter acautelado). O chefe da Casa Militar ficará, assim, despojado de pelo menos parte da capacidade que tinha para interferir no sector da Defesa, perdendo também uma parcela dos seus vastos poderes.

“Kopelipa” passa por cultivar uma atitude de vincada lealdade em relação a JES. Nunca exterioriza sentimentos de reserva ou cepticismo em relação a decisões do Presidente. Ainda assim, comenta-se nos meios referidos que não terá ficado agradado com a nomeação do novo ministro.

João Lourenço foi até 2006 (ano do seu declínio), uma figura proeminente do regime. Ascendeu cedo ao BP MPLA, partido do qual foi também SG; exerceu funções governativas e tem a patente de General. Para além do seu perfil, são-lhe reconhecidas particulaeridades de carácter “desconformes” com um exercício plástico do novo cargo.

3 . O brilho associado à presente reabilitação de João Lourenço (diz-se que “entrou pela porta grande”), está igualmente a dar azo a conjecturas segundo as quais passou a ser um elemento a ter em conta na sucessão presidencial; não são estranhas a tais conjecturas evocações da sua antiga condição de “delfim”.

Manuel Vicente continua a ser visto como a figura que futuramente substituirá JES como Presidente (AM 815). O cenário tem mesmo vindo a tornar-se mais consistente por reflexo de percepçõees e evidências no sentido de que a primazia que lhe é conferida adquiriu já uma dinâmica de improvável retrocesso.

A ligação instintivamente estabelecida entre a actual recuperação de João Lourenço e a sua reentrada na “corrida presidencial”, serve aparentemente cálculos políticos de JES baseados numa formulação do tema da “sucessão” cujos factores chave são os seguintes:

- Manuel Vicente é o escolhido, embora mais por dedução e menos por afirmação; mas não convém que se acomode; a ideia da existência de um ambiente de concorrência expõe Manuel Vicente a maior pressão, obrigando-o a “não relaxar”.

- A entrada em cena de uma outra personalidade forte, ainda que apenas ilusoriamente, “baralha contas já dadas como certas” – um efeito muito visado no método de análise e acção política de JES.

- Uma indefinição maior do quadro da “sucessão” também apresenta, para JES, a vantagem de confundir/distrair a própria elite do regime (meios externos, idem), que dedicam ao assunto especial atenção

Os predicados de João Lourenço para se afirmar, de facto, como ministro da Defesa, também terão influenciado a sua escolha por JES – sendo a análise respectiva a seguinte:

- “Kopelipa” não gozava de boa aceitação entre os militares devido à secundarização em que colocava o ministro da Defesa e os chefes militares em geral.

- As reservas dos militares em relação a “Kopelipa” atingiam por arrastamento Manuel Vicente, devido às muito estreitas relações consabidamente existentes entre ambos – pessoais, de negócios, etc.

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4 . O sinal preliminar de que uma reabilitação de João Lourenço estava em marcha foi a recente eleição de Mário António, para o BP MPLA, acompanhada da sua cooptação para o cargo de secretário para a informação (porta-voz) em substituição de Rui Falcão (AM 752) É usualmente considerado “amigo de peito” de João Lourenço.

De acordo com pontos de vista considerados pertinentes, a reabilitação de João Loiurenço também é do interesse de JES, tendo em conta o facto de se tratar de uma figura prestigiada no regime e na sociedade em geral – um atributo em larga escala devido à sua boa reputação, facilitada pela sua preparação, educação e dotes oratórios.

É natural do Lobito, mas os seus progeniotores eram originários de Luanda. A sua carreira política, considerada devida aos seus próprios méritos, por não provir de nenhuma família tradicional do regime, foi inicialmente devida a Lopo do Nascimento, ao qual sucedeu como líder da bancada do MPLA.

A ascensão posterior foi, no entanto, devida a apoios de JES, que nele passara a depositar grande confiança pessoal e política – em parte devida a demonstrações de lealdade e dedicação. O ambiente entre ambos anuviou-se quando João Lourenço se apresentou publicamente como candidato à “sucessão” em termos que agastaram JES.



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