“A vida é uma comédia”

Luanda - Há pessoas que adoram lamentar-se, queixar-se da vida, ver as coisas pelo lado negativo. Há outras que nunca se deixam abater pelas dificuldades, preferem ver o lado divertido das contariedades, focam-se nos bons momentos, andam sempre bem dispostos e acordam a sorrir. Os Tunezas pertencem ao segundo grupo. Levaram essa missão tão longe que hoje eles são pagos para fazer rir os outros. Mas o início não foi fácil Até atingirem a popularidade “as estrelas” do programa Fora de Série (TPA2) passaram por várias dificuldades.

“Uma vez estávamos com tanta fome e sede que entrámos num famoso e requintado restaurante do centro da cidade e fomos beber água ao WC”, contam.

Tudo começou em 2003 quando quatro elementos do colectivo de arte Os Tunezas decidiram criar uma extensão - um grupo humorístico –, ao qual deram o mesmo nome. Os quatro jovens encontraram um espaço, na ilha de Luanda, onde começaram a apresentar as suas peças humorísticas. “Nessa altura fazíamos os shows gratuitamente. Por vezes pagavam-nos com pratos de comida, outras com um simples aperto de mão”, recordam divertidos.

DE QUARTETO A QUINTETO

Em menos de três semanas o quarteto passou a quinteto por «ironia do destino». Tudo sucedeu quando Orlando se atrasou para uma das apresentações e o grupo foi obrigado a encontrar um substituto. Foi aí que Cesalty aproveitou o «furo» e se apresentou em palco para substituir Orlando.

Tais espectáculos decorriam no Ngundo, o espaço dedicado às artes e à cultura da esplanada Help Mundo, na ilha de Luanda. Todas as quintas-feiras os proprietários Marito e Paulo Melinho decoravam o espaço para a apresentação e promoção de Os Tunezas. Por este local passavam várias individualidades do desporto, dança, música e política. Uma dessas figuras, o cantor Maya Cool, interessou-se pelo grupo e decidiu apoiá-los na sua promoção. Em contrapartida, exigiu que a partir daquele momento Os Tunezas passassem a cobrar cachet. A parte divertida da história é que nenhum dos elementos do grupo conhecia a palavra “cachet” (termo francês usado como sinónimo de remuneração no mundo do espectáculo). Mas para não passarem por ignorantes Os Tunezas lá aceitaram a condição. “Depois da conversa com o Maya nós perguntávamos uns aos outros o que significava cachet”, recordam às gargalhadas.

OS PRIMEIROS “PADRINHOS”

O General Massano Junior, dono do Centro Cultural África Show, foi o primeiro cliente de Os Tunezas. Na altura o chachet do grupo variava entre 50 a 100 dólares por espectáculo.

Após ter visto uma das apresentações do grupo, Pedro Nzanji (que também começou como comediante e se tornou num popular apresentador de televisão), desafiou Kayaya Junior e ao Rui Barata (do restaurante Miami Beach) a apresentarem Os Tunezas naquele espaço. Ao principio, eles estavam apreensivos dado que aquele restaurante é frequentado por clientes de classes elevadas, diferentes daquelas com que Os Tunezas estavam acostumados a lidar. Na sua primeira cena em palco no Miami Os Tunezas passaram quase despercebidos. Já a segunda foi muito aplaudida pelo público. Daí até ao final foi sempre a subir. Desde esse dia, o Miami passou a ter momentos regulares de humor. E o cachet do grupo subiu para os 150 dólares.

CADA VEZ MAIS BEM PAGOS

Mas o grande salto na tabela de preços de Os Tunezas foi a actuação na Rádio Vial. O jornalista Adão Filipe ligou a propor-lhes uma apresentação radiofónica. “Lembro-me que quando ele fez a proposta, lamentou-se pelo facto de ter apenas 500 dólares para pagar. Quando desligou o telefone fizémos uma festa, afinal de contas nunca havíamos sido tão bem pagos”. A partir daí o agenciamento dos Tunezas passou para 500 dólares. Este sucesso “encorajou” o grupo a cobrar valores mais dignos para as suas apresentações. No convite seguinte, proveniente da Maianga Produções em nome da construtora Odebrecht, o valor subiu novamente para os 800 dólares.

Mas o ano da consagração popular de Os Tunezas surgiu em 2006 com a oportunidade da criação de uma rúbrica na Rádio Luanda, aos domingos de manhã. O programa chama-se Kialumingo e é animado pelo carismático radialista Salu Gonçalves. Por sua vez, a rubrica de Os Tunezas intitulava-se «Chibados da vida».

DA RÁDIO PARA A TV

Durante este período o contacto com o humorista Pedro Nzangi nunca se perdeu. O conhecido apresentador arranjou-lhes mais clientes e promoveu-os em vários espaços. Meses depois Pedro propõe-lhes a criação de um programa de televisão, com o título «Chá comPão», mas, por razões que se desconhecem, o projecto não foi aceite pela Televisão Pública de Angola (TPA). O grupo não desistiu e continuou com as actuações em palco.

Em Junho de 2007, Os Tunezas protagonizaram mais um marco na história do teatro humorístico com o lançamento do seu primeiro CD angolano de humor. O disco foi gravado no estúdio da Rádio Nacional de Angola, pela AQ produções, com participações de Kizua Gourgel, Totó, Dodó Miranda e o radialista Afonso Quintas. A obra discográfica foi premiada em São-Tomé como a melhor música estrangeira de 2007, com a versão, em comédia, da música “Porque”, de Matias Damásio.

MOMENTOS ALTOS...

Para o grupo, o momento mais alto da carreira aconteceu com o primeiro grande espectáculo ao vivo no Cine Karl Marx, o primeiro mega show de humor feito em Angola. Nesta apresentação, Os Tunezas comprovaram todas as suas capacidades técnicas e humorísticas e a relação de empatia com o público.

Segundo Os Tunezas, outro momento inesquecível foi a actuação na cidade alta, a convite do Presidente da República, “foi um grande reconhecimento institucional do nosso trabalho”, dizem. “Por vezes, nós, os jovens artistas, sentimos falta de incentivo e da valorização do contributo que prestamos à cultura nacional”, afirmam.

... E BAIXOS DA CARREIRA

Por oposição, o dia 18 de Dezembro do ano passado, está marcado no «diário» de Os Tunezas como um dia negro na história do grupo. Durante o segundo show ao vivo do grupo no Cine Karl Marx houve um corte de energia durante algum tempo o que motivou a ira do público. Muitos abandonaram a sala antes do show reiniciar. Reposta a electricidade Os Tunezas voltaram a actuar e «arrancaram» muitos aplausos do público fiel. “Mas o pior foi no dia seguinte, quando aqueles que não ficaram até ao fim do show ligaram para rádio a falar mal de Os Tunezas”, lamentam.

decisões em equipa

Hoje, as coisas correm bem ao grupo. Na televisão o programa de comédia «Fora de Série», exibido na TPA, continua a subir nas audiências. Costa Villela um dos elementos de Os Tunezas, foi nomeado para o prémio de “Melhor Actor” (a eleição decorreu no dia 7 de Fevereiro, no âmbito da Gala Moda Luanda).

No que respeita ao teatro, o quinteto nunca abandonou o grupo que os viu nascer – o colectivo Os Tunezas. De referir que todas as cenas apresentadas pelo grupo, ainda que sejam escritas por apenas um dos elementos, têm de passar pela censura dos cinco. As personagens são atribuídos com base num perfil pré-concebido, mas muitas vezes são alteradas em palco. O grupo gosta de improvisar e de apelar à participação do público. É mais divertido sorrir com companhia.

 

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CESALTY

Joaquim Maiato Paulo, conhecido por «Cesalty» é licenciado em engenharia informática. Estreou-se pelo teatro de igreja e tem participações em três telenovelas, dois filmes, programas de rádio e várias campanhas de publicidade. Nascido na província do Huambo aos 31 de Março de 1979, devido a guerra veio à Luanda ainda miúdo onde fixou residência. Cesalty é noivo e, em breve, vai ser pai. Diz não ter um prato preferido pois é “bom de garfo”. Acha que a província do Huambo é o local ideal para viver e passar a sua velhice, nas férias prefere o Brasil. Nos tempos livres gosta de ler e aos domingos joga futebol no campo Manuel Berenguel da Rádio Nacional. Cesalty admira a perseverança do povo angolano, Roberto Di Niro é o seu actor internacional preferido e Luísa Barreto a actriz angolana. Vive na ilha de Luanda.

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Gilmario

Gilmario Pinto Vemba ,nascido aos 19 de Junho de 1985, , vulgarmente conhecido por «Gilmario», começou desce cedo a fazer teatro na igreja. Natural de Luanda, diz que se tivesse que escolher um lugar para viver permaneceria mesmo em Angola, pelo facto de os angolanos serem um povo muito acolhedor e solidário. Filipe Kwenda é o seu actor angolano preferido enquanto que Martin Lawrence, Will Smith e Denzel Washington são as suas referências a nível internacional. Viciado em jogos de vídeo, vive no Município da Samba, detesta a falsidade e estima as pessoas com espírito de perseverança e os curiosos.

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«Tigre»

José Maria Dembe Chieta, o «Tigre», tem raízes ligadas ao cristianismo. Quando era criança fez parte do grupo de acólitos na missão católica do Soyo na província do Zaire. Nessa altura participou num programa humorístico de rádio denominado «Boca Doce», da emissora regional do Soyo, e tinha como referência o já falecido comediante angolano Cisco. Tradutor de língua inglesa, vive maritalmente e é pai de duas lindas meninas. Natural da província do Zaire detesta pessoas falsas e admira o facto de os angolanos estarem sempre presentes e próximos na vida uns dos outros. Lubango é o seu lugar preferencial para férias e gostaria de passar a sua velhice na província do Huambo. Raul Danda é o actor angolano preferido , enquanto que internacionalmente é Martin Lawrence. Nascido em Cabinda a 18 de Abril de 1982, é estudante de economia e um bom apreciador da cachupa.

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«Costa»

Daniel Vilola, mais conhecido por «Costa», teve a sua estreia no teatro pelo grupo os Mugimbos do Sambizanga, e o curso de teatro em encenação e abordagem temática na União dos Escritores Angolanos. Em 2005 fez o curso de Televisão e Cinema pela UTA. Nascido a 24 de Agosto de 1983, no Município da ingombota em Luanda, é pai de uma filha e tem como prato preferido funge de Lombi. Para si, Cabinda é a província mais sedutora em Angola, as ilhas Maurícias são o local para as férias de sonho enquanto Ladislau Silva é o seu actor angolano preferido. É viciado em jogos de vídeos e admira o espírito de solidariedade, Simpático e muito solidário preocupa-se com o bem-estar das pessoas, em particular da sua família. Confessa gostar muito do seu Land Cruiser que não se cansa de lavar

«Orlando»

Orlando Rodrigues Kikuasa, ou simplesmente «Orlando», estudante de análises clínicas pela Universidade Metodista é professor de biologia pelo centro polivalente Nzoje da Polícia Nacional. Nasceu a 28 de Novembro de 1982 na província de Luanda. Morador da ilha de Luanda, é casado e pai da Orlandinha de quem diz ser o maior fã. Gosta de feijoada e tem o Lobito como o local preferido em Angola, o ideal para passar os últimos dias da sua vida. Admira o arquipélago de São-Tomé que é, para si, o melhor local para férias. Viciado em automóveis da última geração, preza a fidelidade nas pessoas. O pior é aturar uma mentira.

NINGUÉM OS LEVA A SÉRIO

O facto dos Tunezas serem encarados como “os eternos chalados” tem trazido sérias complicações aos elementos do grupo na sua vida quotidiana. Muitas vezes eles são tidos como brincalhões, em momentos em que deveriam ser tidos por sérios. O caso mais recente aconteceu quando a mulher de um dos elementos do grupo, José Chieta, vulgarmente conhecido por Tigre, foi alvejada por uma bala perdida na boca. “Felizmente, por ela falar muito, a bala entrou por uma bochecha e saiu pela outra”, comentou Gilmário em tom de gozo. Preocupados com o acidente, Os Tunezas ligaram para os familiares e amigos para anunciaram o acontecido mas, infelizmente, ninguém acreditou neles. Em consequência, eles tiveram de socorrer a vítima sem o apoio de mais ninguém. Somente ao fim do terceiro dia é que as pessoas acreditaram verdadeiramente no que tinha acontecido.

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Humor fora de série

O colectivo de humor Os Tunezas existe há cinco anos. Os seus membros integraram o grupo de teatro criado em 1999, com o mesmo nome. Os Tunezas têm estado a apresentar as suas comédias no Canal-2 da TPA, com o programa “Fora de Série”, e na Rádio Luanda, com o espaço “Chibados da Vida”. Em 2007 lançaram o CD “Humor ao domicílio”.

Humor ao domicílio

A institucionalização de Os Tunezas como empresa é uma das grandes metas do grupo para este ano. O grupo quer fazer do nome Os Tunezas uma marca com vários produtos –brinquedos, roupas para criança, jogos e outros. Dentre estes contam vários outros projectos: pretendem levar o humor dos Tunezas às zonas mais recônditas do país e às penitenciárias. A intenção única e exclusiva é a de promover o humor como actividade de intervenção social.

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*Waldney Oliveira
Fonte: O Pais


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