Luanda - Depois de submetido a cirurgia no Hospital Américo Boavida, para regular a erecção consecutiva de três dias, Feliciano Joaquim Ribeiro Miguel, 26 anos, morador na rua da Rádio, município do Cazenga, em Luanda, ficou impotente sexual há cinco anos, devido a um erro do médico urologista, António Balaca, apurou O PAÍS.

O jovem conta que tudo começou quando foi surpreendido por uma erecção insistente de três dias, antecedida de dores constantes no pénis.

“Sentia muitas dores no pénis, quando erecto, e, para me ver livre desse sofrimento, tinha de fazer ginástica. Só desse jeito as dores acalmavam e murchava”.

Cansado de sofrer, Feliciano Miguel dirigiu-se ao Hospital Américo Boavida, onde participou o caso aos enfermeiros do Banco de Urgência, que o encaminharam para o médico urologista António Balaca, que recomendou intervenção cirúrgica imediata.

No dia 10 de Julho de 2004, Feliciano deu entrada na sala de operações do Américo Boavida, sem o acompanhamento de nenhum dos seus familiares ou amigos: “Mesmo assim fui operado no mesmo dia”, disse.

Depois da operação, ficou 14 dias internado, com algália no pénis e a urinar num saco, para o efeito. Logo depois, adiantou, “tive alta e passei a efectuar consultas externas”.

Depois da queda dos pontos, o seu pénis ainda continuava sem capacidade de erecção. Nessa altura, disse “tive a certeza de que eu estava mesmo impotente”.

A partir daquele instante, Feliciano Miguel nada mais fez senão participar o estado-de-choque ao seu médico, do qual recebeu, em resposta, uma sensibilização moral, para além de lhe ter administrado injecções no órgão reprodutor, durante os dias de pranto.

Segundo o doente, o urologista ainda incentivou os seus familiares a procurarem por uma solução no Brasil, através de uma Junta Médica.

Na tentativa de encontrar alternativa junto de outros médicos do Hospital Américo Boavida, Feliciano Miguel abordou insistentemente o então director clínico da instituição, Alfredo Kibinda, de quem recebeu a recomendação de solicitar relatório ao médico António Balaca, sobre a sua situação.

Este esforço só teve êxito no dia 11 de Dezembro de 2007, conforme consta do referido documento feito pelo urologista do Américo Boavida.

Reacção da família

Francisco Policarpo, cunhado de Feliciano, considerou a proposta de encontrar cura no Brasil, vinda da parte do médico, como reconhecimento do erro cometido quando da intervenção cirúrgica.

“Se o médico operou o rapaz, para que esse se visse curado e, depois da operação, ele aconselhou a ir para o Brasil, a fim de encontrar recuperação total, é porque reconheceu que o seu trabalho foi defeituoso”, afiançou.

Francisco Policarpo, disse ainda não entender até hoje como é que um profissional realiza uma cirurgia sem dar conhecimento aos familiares do paciente: “O que não entendo até hoje é o facto de o médico ter operado o paciente, sem ter avisado a família deste.

Outrora, esse procedimento por si só já constituía um crime, não sei se as leis hoje mudaram tanto”, ironizou o cunhado da vítima, que, por seu turno, solicitou às autoridades competentes que pressionassem o médico em causa, no sentido deste solicitar uma Junta Médica. Segundo a fonte já passou mais de um ano, sem que haja solução à vista.

Henriqueta Ribeiro Francisco, mãe de Feliciano Miguel, clama por ajuda que faça voltar a veia procriadora ao seu filho: “Quero pedir ajuda para o meu filho ir já para o Brasil fazer esse tratamento. Desejo que ele procrie, porque ele já está na idade de ter filhos”.

O PAÍS envidou esforços no sentido de contactar o médico António Balaca. Um elemento afecto à direcção do Hospital Américo Boavida informou que o urologista se encontra fora do país, em missão de serviço.

O PAÍS procurou ouvir a opinião do bastonário da Ordem dos Médicos de Angola, Pinto de Sousa, mas tal não foi possível. Conforme informou a sua secretária, o bastonário esteve reunido durante toda a tarde de quarta-feira, 3.

Frustração

Volvidos seis anos desde que começou o drama, Feliciano Miguel vê os dias a correrem contra a corrente, devido à discriminação social a que está sujeito, por parte de alguns vizinhos e conhecidos. “Os meus vizinhos e alguns conhecidos abusam-me, ao ponto de me chamarem de homossexual”, queixa-se.

Na intenção de vencer este obstáculo, o jovem já procurou voltar para a escola em 2007, mas lá encontrou um outro impedimento: “Quando eu me encontrava na sala de aulas, já não conseguia assimilar mais a matéria, por causa da troça que recebia dos meus colegas”, confessou.

Feliciano considera-se frustrado e não vê nenhum motivo que o possa tirar desse quadro emocional, a não ser a recuperação da capacidade de erecção.

“Só quero voltar a ser capaz de ter erecção”, suplicou entre soluços, que alega ter se tornado num pedinte de esmola para compensar as necessidades que a sua mãe (deficiente visual) e outros familiares não conseguem suprir.

“Alguns vizinhos de boa fé, no princípio de cada mês, contribuem com algum dinheiro do seu salário, para as nossas provisões”, explicou. Feliciano Joaquim Ribeiro Miguel, órfão paterno há 25 anos, é o quarto filho de seis irmãos. Para ele, a vida transformou-se num calvário constante.

“Perdi a noiva”

Teresinha, jovem de 24 anos, era a noiva de Feliciano, até seis meses depois da cirurgia.A partir do momento em que se apercebeu de que o seu parceiro perdera a erecção, abandonou-o porque “não queria viver sem filhos no futuro”, narrou à nossa equipa de reportagem o jovem agora impotente.

“Quando ela viu que eu já estava curado da cirurgia, solicitava-me relações sexuais e eu tive de lhe contar a verdade”.Mesmo assim Teresinha aguentou mais três meses, na esperança de que o problema seria ultrapassado, mas tudo foi em vão porque a situação persistiu e tudo se complicou para o jovem Feliciano quando a então noiva partiu para outro compromisso.

“Eu já não me considero como homem normal”, desabafou.”

Alberto Bambi
Fonte: O Pais


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