Luanda - O MPLA será o que os seus militantes quiserem, o génio do novo líder orientar e o que Angola permitir, diz o seu antigo secretário-geral e ex-primeiro-ministro angolano, Marcolino José Carlos Moco.

Fonte: Angop

O escritor e académico, que também foi secretário-executivo da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), de 1966 a 2000, respondeu por escrito a um questionário da ANGOP.

 

ANGOP – Como pensa que será o MPLA, depois do congresso, tendo em conta que, por mais de 30 anos, foi liderado por uma só pessoa?
Marcolino Moco (MM) – É difícil adivinhar o que poderá ser o MPLA, depois de José Eduardo dos Santos, mas poderei deixar, aqui, a paráfrase de um cliché bem conhecido: o MPLA será aquilo que os seus militantes quiserem, agora sob a liderança de João Lourenço. Mas, como, desde há muitos anos, todo o país nunca conseguiu libertar-se da influência inexorável do MPLA, talvez seja melhor afirmar que o MPLA será aquilo que Angola permitir e o que o génio do seu novo líder orientar.


ANGOP – Habitualmente, as sucessões de liderança, em África, acontecem em meio de crispação ou violência, como sucedeu ultimamente no Zimbabwe. Para o Dr., a que se deve a transição aparentemente pacífica no MPLA?
MC – Será porque José Eduardo dos Santos, que, por razões objectivas e subjectivas, se arrastou demasiado tempo no poder, a ponto de, nos últimos tempos, não já conseguir distinguir o público e o privado, ser suficientemente inteligente e de geração posterior a Mugabe, para entender a necessidade de antecipação, numa Angola e África já bastante integradas nos novos tempos. Infelizmente, este entendimento só aconteceu quando já tínhamos batido no fundo do poço.

ANGOP – Um ano se passou, praticamente, desde que João Lourenço assumiu a Presidência de Angola. Que avaliação faz desse período, em termos dos pontos positivos e negativos?
MM – Aqueles que olham apenas para efeitos de carácter imediato dirão que não mudou praticamente nada. Aliás, a abertura da comunicação social, que considero o mais importante acto de João Lourenço, ao destapar  as mentiras da outra era, pode mesmo induzir à ideia de que as coisas pioraram, especialmente na saúde, na educação, no saneamento básico e nas vergonhosas aldrabices das obras públicas.


A verdade é que, para além da abertura da comunicação social, com João Lourenço foram tomadas medidas de ordem estratégica, que vão mudar Angola, se não ficarem pelo caminho. Refiro-me, resumidamente, ao fim da absoluta impunidade dos chamados crimes de colarinho branco, à despartidarização da função presidencial, que não tem nada a ver com a questão da chamada bicefalia, à preocupação com as questões da diversidade político-regional e sócio-cultural do país, à maior seriedade na execução do programa de estabilização económica, a uma actividade diplomática menos snob, mais pragmática e intensa; e, tudo isso, sob um discurso sóbrio, no âmbito do qual a palavra se esforça por corresponder aos actos com aparente desencorajamento do culto à personalidade do Chefe de Estado e do Executivo.


ANGOP – Que mais lhe marcou no desempenho de João Lourenço como Presidente da República?
MM – Creio que o mais marcante na acção de João Lourenço terá sido a forma corajosa como encarou a necessidade imperiosa de se desfazer do espartilho – diria mesmo do golpe – em que o seu antecessor o queria deixar amarrado, nos domínios político, económico e militar-securitário, sem o que não teria sido possível dar os passos que acima descrevemos.


ANGOP – Como acha que deverá ser o MPLA com a nova liderança? Os militantes do partido estão à altura de acompanhar essa mudança?
MM – João Lourenço demonstrou que tem capacidade para transformar Angola, sem sacrificar os interesses do país aos restritos interesses do MPLA e de alguns dos seus dirigentes. Esse foi um dos maiores factores das distorções graves que foram acontecendo no país, especialmente depois do fim da guerra civil.

Quero acreditar que os sinais dados não o foram apenas por uma questão táctico-operativa para consolidar o seu poder pessoal, para tudo regressar ao mesmo. Isso seria fatal para o país e para o próprio papel que a História lhe depositou nas mãos.

Se os militantes do partido estão à altura de o acompanhar? Em todo o lado, em África e Angola, em particular, por muito tempo, ainda, a liderança constituirá sempre um factor decisivo sobre o papel das miltâncias partidárias e das sociedades. Se bem que os militantes do MPLA devam entender que a sociedade angolana amadurece a cada dia que passa e não continuará a aceitar que seja amarrada a interesses mesquinhos de quem quer que seja.



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