Luanda - Há momentos em que um jornalismo marca a nossa história. Jornalistas doam as suas vidas para salvar outras. E a história recente da humanidade traz-nos exemplos claros de como profissionais comprometidos e dedicados fazem toda a diferença para que o nosso sonho de continuar a viver seja possível.

Fonte: Club-k.net

A história que vos vou contar é marcada pelos jornalistas da nossa geração…

 

Cidade de Wuhan, província de Hubei, República da China, finais de 2019

Por meio de um smartphone e um pau de selfie nas mãos, o mundo conhecia as primeiras histórias verídicas da situação sanitária vivida corajosamente nos hospitais locais, funerárias, supermercados, famílias das vítimas e voluntários devido à temível pandemia mundial da Covid-19, causada pelo novo Coronavírus.

 

Chen Qiushi, de 34 anos e jornalista independente, que popularizou a frase “Tenho medo. Diante de mim, há o vírus. Atrás de mim, o governo da China”, é o rosto por detrás do que ocorria na cidade de Wuhan, o epicentro mundial da contaminação comunitária da doença do século XXI, que mudou a nossa maneira de abraçar, beijar e de cuidar das pessoas que mais amamos, desde Dezembro de 2019.

 

Para radiografar o verdadeiro rosto da catástrofe e salvar vidas na China, o jovem escriba iniciou o seu relato nas ruas desertas da cidade que deu origem ao surto, em Janeiro do corrente ano. O alerta, por meio das informações divulgadas por este profissional independente, contribuiu para tornar visível uma pandemia que o governo chinês tentou minimizar desde o começo. Mas, um herói nem sempre recebe flores, foi assim que a partir do histórico dia 6 de Fevereiro, o profissional deixou de contactar a família, que busca desesperadamente por ele.

África Austral, Moçambique, cidade de Cabo Delgado

À semelhança do que tem estado a acontecer desde 2017, no final de Março do corrente ano, um grupo armado terá destruído várias infraestruturas e içado a sua bandeira num quartel das Forças de Defesa e Segurança de Moçambique, nas comunidades de Mocímboa e Quissanga, cidade de Cabo Delgado.

 

A imprensa local e agências de notícias internacionais, citadas pelo Observador, manifestam que os ataques que a comunidade internacional classifica como sendo terroristas, que ocorrem há dois anos e meio naquele país, já fizeram, pelo menos, 350 mortos, 156.400 pessoas afectadas com perda de bens e obrigadas a abandonar as casas e terras em busca de locais seguros.

No meio deste caos, surge um nome. De um jornalista comunitário, que se encontra desaparecido desde o dia 7 de Abril do corrente ano, depois de outros profissionais da classe terem sidos igualmente detidos, julgados e absolvidos de forma injusta em Cabo Delgado. Trata-se do jovem Ibraimo Abu Mbaruco, jornalista e locutor da rádio comunitária de Palma que, segundo revelações e denúncias do Misa-Moçambique, se encontra desaparecido depois de 3 horas de trabalhos naquela estação da comunidade de Palma, distrito da província de Cabo Delgado. As autoridades desconhecem o paradeiro do profissional e a família alega que o mesmo terá sido morto devido às denúncias sobre a situação que aquela cidade está a enfrentar. Um facto que o governo moçambicano não quer ver e nem ouvir nos destaques dos veículos de comunicação social para não espalhar o sentimento de insegurança e atestar a sua incompetência enquanto governo.

Num caso mais recente, o Professor Universitário Julião Cumbane, sugeriu numa publicação feita no Facebook que “os jornalistas que reportam sobre os ataques devem ser silenciados pelos militares, polícia e serviços secretos, usando métodos ‘extra-judiciais’ se necessário”.

Até aqui e lendo essas duas histórias reais e recentes, todos podemos compreender que o jornalismo é uma profissão que valoriza muito daquilo que alguns não gostariam que fosse divulgado. Mas, as comunidades de todo o mundo, como as de Angola, enfrentam centenas de problemas que merecem ser relatados de forma realista, isenta e verdadeira.

É aqui que chamo a atenção da importância do jornalista no uso da informação para salvar vidas. Pois, o nosso País, à semelhança de outras nações que estão a enfrentar o pior inimigo invisível do século XXI, a Covid-19, tem de valorizar o jornalismo investigativo e comunitário para empoderar as comunidades, por meio de informações transmitidas nas suas próprias línguas.

Sem demérito pelos órgãos de comunicação social tradicionais, modernos e contemporâneos de grande alcance, apresentaremos aqui o nosso entendimento em relação ao papel do jornalismo comunitário diante de uma crise mundial que todos já conhecemos e contra a qual temos estado a usar métodos preventivos possíveis.

Forçados pela presença deste ameaçador vírus que despedaça qualquer estrutura governamental do mundo, o nosso País encontra-se num momento de profundas reformas políticas, económicas, sociais e culturais, sendo a mais recente remodelação governamental do presidente João Lourenço uma prova evidente desta iniciativa que, apesar de novo e forçado pelas circunstâncias, ainda não beneficiou um importantíssimo meio de comunicação social: o jornalismo comunitário.


Jornalismo Comunitário

 

O jornalismo comunitário é um verdadeiro factor de transformação e construção de novas mentalidades, devendo ser exercido com a máxima responsabilidade no sentido de não apenas informar, mas também contribuir para a formação das comunidades.

Na sua verdadeira dimensão, o mesmo podia ser um dos canais fundamentais para lutar contra a pandemia, por ser uma arma poderosa de mobilização e moralização comunitária sobre qualquer assunto que, mesmo sendo de alcance ou dimensão nacional, merece ser explicado na comunidade, na sua linguagem e horários que não atrapalhem os seus hábitos e costumes.

O profissional que trabalha com a comunidade deve ser responsável no cumprimento da sua missão, para transmitir uma boa imagem à comunidade e levá-la a confiar no seu trabalho. Não podemos falar de jornalismo comunitário sem antes pensar o que vem a ser comunidade (musseque). Segundo o dicionário, comunidade é a qualidade do que é comum, sociedade ou o lugar onde residem indivíduos agremiados. “Se é assim, então todo o jornalismo pode ser considerado comunitário, pois um jornal é lido por centenas de sociedades, de indivíduos agremiados”, cita um artigo sobre o tema, sustentando que também a TV e a emissão radiofónica chegam aos musseques.

Mas, existe aquele jornalismo comunitário que tem a comunidade ou musseque como o seu âmbito de actuação profissional, permitindo a divulgação de notícias aprofundadas sobre a mesma jurisdição, conforme as duas histórias reais de Chen e Ibraimo, jornalistas da China e de Moçambique, respectivamente.

Em tempos de crises, um dos sectores mais importante é o da Comunicação, porque permite não apenas a moralização social da sociedade/comunidades/musseques, mas também aliviar o impacto negativo de pânicos causados pelas notícias falsas ou não oficiais, espalhadas nas redes sociais. O nosso País não tem uma lei que prevê a existência destes órgãos de comunicação social comunitários como as rádios, jornais e portais de notícias. Eram permitidas na Lei de Imprensa de 2006 (Lei nº 07), mas a nova Lei de Imprensa e da Rádio (ambas de 23 de Janeiro de 2017) não permite o exercício do serviço de radiodifusão comunitária, constando apenas as rádios de cobertura local e nacional. Pra, infelizmente estamos num retrocesso por termos apenas as rádios comerciais e locais.

Essa omissão da actual lei é uma pena e devia merecer uma atenção especial nesse momento desafiante dos angolanos, pois a estratégia de comunicação institucional e de imprensa, criada pelo executivo para dar resposta à pandemia da Covid-19, não contemplou os empresários, organizações não-governamentais ou pessoas individuais que já tenham manifestado condições técnicas e infraestruturais para emitirem o sinal dos seus veículos de jornalismo comunitário.

É necessário compreendermos que estes órgãos que sempre trabalharam com e para as comunidades, constituem um factor determinante no crescimento e desenvolvimento das comunidades locais, possibilitando ao ouvinte, telespectador ou leitor, ser um elemento activo na discussão dos problemas locais e nacionais apresentados nas pautas locais.

A linguagem usada por estes veículos de grande informação (focados nos grandes centros urbanos) nunca satisfaz as pessoas dos musseques, pois os interesses da linha editorial nacional são baseados nas agendas políticas do governo central, cuja transmissão é feita numa linguagem mais indirecta e inacessível aos membros das comunidades em que esses veículos estão inseridos. Ao falar-se do jornalismo comunitário, a independência editorial é um factor importante destes tipos de projectos que, em 1985, apenas tinha cerca de 10 estações independentes em todo o continente africano, conforme estudos divulgados pela Rede Nacional das Rádios Comunitárias da Guiné-Bissau.


_______ Jornalista, ex-repórter comunitário,

Fundador e CEO do Marimba Selutu

– Portal de Notícias Culturais de Angola, Autor, Pesquisador Social e

Cultural, Formado em Psicologia e

Membro Fundador da Associação

Científica de Angola.



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