Luanda - Sexta-feira, numa noite fria de cacimbo, o regresso à casa nem sempre é tão animador, especialmente naquele dia em que a noite caiu mais cedo, próprio da época na cidade de Luanda. Por exemplo, com esse tal de estado de calamidade algumas pessoas fingem não entender a explicação sobre a diferença entre os 25% não essenciais e os 75% essenciais, isso no que tange à força de trabalho. Não é que as ruas todas apenhadas de gente sem qualquer respeito ou consideração pelo tal de COVID-19, as repartições continuam a funcionar apenas com 25% da força de trabalho.


Fonte: Facebook

Alguns funcionários mesmo fazendo parte dos 25% da força de trabalho essencial sai de casa mas não chega ao local de trabalho porque aproveita a sexta-feira para ir tratar dos seus assuntos pessoais. Como resultado, quem se desloca a uma repartição a fim de tratar de assuntos acaba ficando uma eternidade por lá, tratando apenas um ou um assunto e meio por dia.


Não é que no regresso à casa também há o tal de engarrafamento ou o anda-pára, como nós usamos dizer por cá, no linguajar mais refinado. Na tuga usam “arranca-pára”, enquanto do outro lado do oceano, nas actuais terras do Bolsonaro dizem congestionamento, questões que têm que ver com o acordo e desacordo linguístico e por isso mesmo nós desacordamos em acordar visto que os outros negaram muitas palavras que nós tentamos inserir, mas também dizem que só se aceitam novas palavras se ainda não existirem outras com o mesmo significado. Resultado, os que tinham viajado, mandatados pelo estado para ir acordar acabaram desacordando e voltamos tudo na mesma, mas os computadores, livros e manuais que as crianças e todos nós usamos estão no português do acordo e ninguém mais sabe se o português que falamos e escrevemos é o do acordo ou do desacordo.


Mas não era isso que me fez escrever este texto. No regresso à casa, dizia eu, muito engarrafamento com alguns indisciplinados à mistura a armarem-se em mais espertos que os outros, colegas de circunstâncias, a tentarem passar em frente dos outros com conduções arriscadas de se cortar a respiração.


Já a aproximarmo-nos de casa há um alvoroço na rua, luta entre dois cachorros, um rafeiro a fazer de tudo pela vida e um pitbull a valer-se do seu poderio para aniquilar o pobre do rafeiro. Muita algazarra, todos falavam ao mesmo tempo, outros cachorros rafeiros da rua ladravam em socorro ao seu homólogo, carros buzinavam, uns atiravam água para cima dos cachorros agarrados um ao outro. O pitbull tinha o pescoço do rafeiro preso a boca e não largava por nada deste mundo, acho que nem sentia as pauladas que levava da plateia.


Por fim, o pobre rafeiro finou-se, inglório, aos olhos assustados de todos, dada a ferocidade daquele animal sem alma e sem coração. Aliás, quem não tem coração mesmo é o dono que cria um cão desses numa rua onde vivem pessoas de bem, com crianças alegres e felizes na qual alguns rafeiros até são amigos e protectores das crianças e das suas casas e das casas dos vizinhos.


E nisso, entre lamúrias sobre a pouca sorte do pobre rafeiro e pragas contra os donos do desalmado do pitbull alguém do meio da multidão ao ver o rafeiro estatelado no asfalto grita com todas as forças e desespero, com todo o ar que restava nos pulmões, derramando lágrimas grossas: “ai modeus… ai… é mentira o que estou a ver… não, não pode… É O CÃO DO PADRINHO”…



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