Luanda - Ouvi, há pouco, no jornal das 13h da Rádio Nacional de Angola (RNA), neste domingo, 28, uma "peça jornalística" feita por profissionais da RNA em que o conhecido jurista Esteves Hilário descarta haver perseguição política por parte do Presidente da República João Lourenço contra a empresária angolana Isabel dos Santos.

Fonte: Facebook

Se o jurista em causa não domina, com profundidade, os processos que ainda estão em fase de investigação, como pode já fazer um juízo público antecipado de valor de uma arguida, que ainda pode ser inocente nas acusações que lhe são imputadas?


Foi exactamente este mau jornalismo que fizemos recentemente quando a TPA convidou o mesmo jurista e os jornalistas Reginaldo Silva, Victor Silva e Jaime Azulay, no espaço "Especial Informação", que mostraram um mau exemplo para os mais novos jornalistas, quando avaliaram a peça "Luanda Leaks" da SIC Notícias.

É importante sublinhar, mais uma vez, que a opinião política de um jurista não tem mais valor que a opinião política de um outro cidadão, especialista de uma outra área.

Não basta ser "palavras de um jurista" para se vincular uma opinião a uma peça jornalística, que deve ser equidistante no seu tratamento.

Se um especialista não tem dados concretos de um processo jurídico ou judicial, a sua opinião é uma mera opinião. Não é uma opinião técnica, que se busca no exercício jornalístico.

Os manuais de jornalismo orientam que façamos reportagens ouvindo especialistas que consigam "traduzir" linguagens técnicas de dados tornados públicos.


Não é o caso da última parte da referida peça da RNA. O jurista, nestes casos, deve apenas cingir-se ao que significa, numa linguagem corrente, "a possibilidade de um mandado de captura de Isabel dos Santos", dados que foram tornados públicos pelo procurador-geral da República.


O que se recomenda é que o jornalista deva explorar o especialista no lado técnico da matéria e não em questões de "opinião política".


É preciso que o novo administrador de conteúdos da RNA, Estanislau Garcia, elogiado por mim publicamente, possa corrigir estes erros e vícios do passado.
Se o jornalista (ou quem manda num órgão de comunicação social) quiser emitir a sua opinião política sobre um determinado caso, deve fazê-lo fora da peça jornalística que eventualmente esteja a fazer.


Pode usar o seu facebook, por exemplo.

O jornalista é antes cidadão. Como tal, pode ter a sua opinião sobre qualquer fenómeno.

Ninguém pode ser condenado por achar não haver perseguição política contra Isabel dos Santos.

O que não é aceitável, e constitui violação à Lei de Imprensa, sem nenhuma reacção da Entidade Reguladora da Comunicação Social Angolana (ERCA) nem do Ministério das Telecomunicações, Tecnologias de Informação e Comunicação Social (MTTICS), é condenar, de forma antecipada, numa reportagem ou na elaboração de uma notícia, pessoas singulares e colectivas que ainda gozam da presunção da inocência, um imperativo constitucional.


Portanto, se estivéssemos a fazer um jornalismo sério, isento, imparcial, com objectividade e com rigor, a opinião política de um especialista qualquer não pode fazer parte de uma peça jornalística, para não formatar a opinião pública com base numa opinião pessoal de alguém que tem um microfone à frente.


O exercício jornalístico deve pautar-se na verdade dos factos e não em presunções contra nem a favor de ninguém.

O jornalismo não supõe. Mostra factos.

O consumidor do exercício jornalístico deve tirar ilações com base nos factos e não com base em meras opiniões políticas de cidadãos formados numa determinada área.

Isabel dos Santos até pode ser culpada.

Mas enquanto não soubermos, com profundidade, os moldes dos processos em que está a ser investigada, a imprensa não pode, antecipadamente, tomar partido a favor de quem está no poder.

É preciso separar as águas no exercício da Comunicação Social.

É preciso mudar isso se quisermos ser um país normal. Conto com a força do Estanislau Garcia e do Neto Júnior para se acabar com esses vícios políticos no exercício jornalístico da RNA e da TPA.

 

Carlos Alberto (on facebook)
28.06.2020

 



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