Luanda - São cerca de 490 famílias lesadas pela Jefran e um total de três mil milhões de Kwanzas por se devolver. em entrevista exclusiva a OPAÍS, os lesados acusam o proprietário da Jefran, Francisco Silva, de estar a se desfazer dos bens para não devolver às famílias. Francisco Silva, por sua vez, nega tais acusações e diz estar aberto ao diálogo.

Fonte: O País
Mais de 400 lesados pela Jefran aguardam pela saída da providência cautelar para verem salvaguardados os seus direitos e impedirem a que a Jefran e os sócios se desfaçam dos bens ou fujam da responsabilidade de pagar o que devem, disse, Carlos Domingos, um dos lesados.

O lesado conta que o processo dele começou em 2015, onde fez um contrato de pagamento de renda resolúvel e a casa ficaria orçada em 90 mil dólares (que por causa da taxa de juro e o pronto pagamento, ficou em 75 mil dólares). “Uma das condições obrigatórias para ter o contrato era pagar 10 por cento do valor. No caso, nove mil dólares. Nós pagamos esse valor ao Francisco Silva”, contou.

Antes mesmo de um ano, conta, sentiram que o processo estava parado e deixaram de fazer o pagamento mensal, exigindo a rescisão do contrato e o dinheiro de volta, mas tal coisa não aconteceu. “Nesse processo todo, ficamos preocupados quando vimos, no noticiário da TPA, o então ministro do interior a inaugurar uma das vilas com o pessoal da Jefran.

Depois disso, a Jefran pós a circular um documento que dizia que quem quisesse desistir das casas podia se dirigir às instalações da mesma para fazer a rescisão contratual, algo não aconteceu”, disse.

Deram entrada do processo, em 2018, no INADEC

Carlos Domingos disse que foram ouvidos mais de 400 lesados, que deram entrada do processo em 2018, no INADEC. A Jefran continua a vender o que não têm, segundo o entrevistado, e a enganar as pessoas, porque há muita gente desavisada a tentar comprar casas desse projecto.

Querem apenas que a Jefran e os sócios envolvidos paguem o que devem e paguem pela falta de respeito que estão a fazer às instituições desse país.

Por outro lado, revelou que o valor global dos lesados são cerca de 500 mil dólares e em kwanza passa os mil milhões. “Mas o que nos preocupa é que até agora o tribunal não interpôs uma medida cautelar para impedir a Jefran de continuar a se desfazer dos bens”, disse.

Por sua vez, Maria Pimentel, de 62 anos, também lesada, conta que se inscreveu em Dezembro de 2015 e, inicialmente, foi pagando 75 mil Kwanzas/mês e devido a flutuação do câmbio passou a 100 mil Kz/mês, um dinheiro que pagou até Julho de 2017.

Um certo dia, Maria encontrou um documento na vitrina da Jefran que dizia que podiam devolver o dinheiro das pessoas que adquiriram as casas no processo de renda resolúvel, mas isso nunca aconteceu.

Ela, que já se inscreveu num outro projecto imobiliário, denominado Jericó, no Benfica, disse que da Jefran só quer a devolução do dinheiro. “Prometeram nos indemnizar em três meses, mas nunca nos chamaram”, lamenta.

“PGR tem de travar o dono da Jefran a não se desfazer dos bens”

Teresa Martins Lima que também assinou um contrato de adesão de compra e venda, em 2015, com a empresa Jefran, conta que inicialmente estava acordado que seria dona legítima e possuidora de um prédio rústico, no bairro do Benfica, numa área de 300 metros quadrado, no município de Belas.

Entretanto, o preço total da venda do prédio estava no valor de 90 mil dólares que seria pago em 120 prestações mensais resolúveis no valor de 675 dólares, que poderiam ser pagos em Kwanza, algo que não veio acontecer.

Hoje Teresa Lima já gastou para esse projecto cinco milhões e setenta e três mil Kwanzas, valor que espera reembolso. “E para que isso aconteça a PGR tem de travar o dono da Jefran a não se desfazer dos bens”, clamou.

Travar o dono da Jefran é algo que Joaquim Manuel, de 37 anos de idade, também defende. Ele entrou no projecto da Jefran no princípio de 2016, tendo pago inicialmente um milhão e 500 Kz, o equivalente a 15 mil dólares.

Segundo o lesado, todos os meses tinha a obrigação de dar 100 mil kz, mas como as casas estavam em dólar, pagava o equivalente a 500 dólares. O seu contrato estipulava a entrega da casa em dois anos, o que não veio acontecer.

Fez saber que o processo está na PGR há mais de dois e apenas na semana passada começaram a ser chamados, porque estavam a pensar em reunir o grupo dos lesados e fazer uma manifestação até à Assembleia Nacional.

“Já passaram quatro anos e nós já pagamos e até agora nada. Até parece que nós é que somos infractores. Eu paguei aproximadamente quatro milhões de kwanzas que são aproximadamente 40 mil dólares.

Por sua vez, Manuel da Silva Neto conta que aderiu o projecto da Jefran através de um familiar que o garantiu que era seguro, pois ele tem uma residência nesse projecto. Assinou no dia 21 de

Maio de 2015, tendo pago na primeira prestação nove mil dólares e uma mensalidade de 90 mil e 250 Kwanzas. “Dada a alteração cambial que o país vem a sofrer, passamos a pagar 101 mil kz e depois 115 mil Kz até que chegamos aos 136 mil kwanzas/mês”, disse.

Manuel da Silva disse que estava a pagar uma casa de 10 anos, uma T3, na Vila Israel, no bairro do Benfica, no valor mensal de 675 dólares. “O que me doeu bastante foi que, uma semana antes, o senhor da Jefran aparece com o antigo ministro do interior, Ângelo da Veiga Tavares, a inaugurarem a vila que nós construímos”, lamenta.

Salientou que o dono Jefran em nenhum momento mostrou-se com vontade de devolver o dinheiro, alegando não ter dinheiro para os devolver, sendo que agora está a se desfazer dos seus bens para não os pagar.

Valores dos lesados avaliados em três mil milhões de kwanzas

Por sua vez, o chefe do departamento de Apoio ao Consumidor e Resolução de Conflitos do INADEC, Wassamba Neto, confirmou a OPAÍS que a sua instituição está acompanhar o caso e já se deu entrada desse processo na semana passada na PGR.

Questionado sobre a acusação dos lesados, ao dono da Jefran disse ser um processo que deve ser analisado e se for a questão, apela a PGR e o tribunal que intercedam, uma vez que o INADEC serve de intermediário.

Entretanto, Wassamba Neto fez saber que estão acompanhar o processo das cerca de 490 pessoas lesadas, que perfaz um valor de três mil milhões de kwanzas por se devolver.

“A Jefran não está a se desfazer de nenhum património”

Em entrevista exclusiva a OPAÍS, Francisco Silva, dono da Jefran, disse que tudo não passa de mentiras e que os lesados estão a pressionar, o que só prejudica ainda mais o processo.

“Acusam-me de burla, mas há produto. Por causa desse problema que houve a nível de inflações, estamos a passar por isso. O OGE foi revisto, as empresas perderam os seus orçamentos, o câmbio alterou, etc.”, frisou.

Fez saber que falou com alguns clientes que estão na lista de espera para devolver o dinheiro, mas os mesmos não aceitaram, pois pedem o dobro dos valores.

“Eu só quero que eles venham e sentam comigo para podermos resolver esse problema. Lamento o facto de o país ter entrado nesse problema inflacionário, mas queremos encontrar soluções juntos”, disse Francisco Silva garantiu que a Jefran está aberta ao diálogo, mas que a mesma não quer entregar casas abaixo do custo. “A Jefran não está a se desfazer de qualquer património, a Jefran quer continuar a trabalhar em prol das pessoas, tendo em conta o seu histórico”, garantiu.

Por outro lado, Francisco Silva contou que já foram construídas pelo projecto da Jefran mais de cinco mil casas. A construtora parou de entregar por causa de um grupo de mais de 250 clientes que perderam o poder de compra e não estão a pagar a renda das casas que já foram entregues. “Eu estou com um prejuízo avaliado em 58 milhões de dólares, porque essas pessoas não estão mais a pagar. Se eu também lhes tirar de casa vai ser outro problema”, declarou.

Sublinhando que o número de lesados cresce. “Os lesados eram só 100 e agora são 490. No meu registo são apenas 103 pessoas. E já resolvi 70, antes”, disse.



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