Catumbela - “ Sob o comando de um forte general, não haverá soldados fracos”
(Sócrates).

Fonte: Club-k.net

Não foi uma única mina traiçoeira a arrebatar a vida do intrépido comandante. Uma não foi, não senhor! Foram duas, as malditas explosões que romperam o sepulcro da aurora e esventraram a terra humedecida pelo orvalho que acariciava com pólvora a vegetação naquela estranha manhã de Sábado, na vila do Andulo.


Explodiu a primeira armadilha e o alerta foi lançado para o ar. Simione accionou!


Houve uma mobilização geral no posto de comando da Catumbela. Estava uma equipa de médicos do Hospital central militar em Luanda, mobilizada e equipada, pronta a embarcar no TAM, rumo ao Andulo para resgatar as vítimas.


O valente Amuti também estava ferido. Era a desgraça a desenhar-se no Andulo. Os dois principais comandantes atingidos, a situação era rotulada de gravíssima.


Já o Presidente acompanhava a situação e assumira ele próprio a tomada das últimas decisões. Eis que, deflagra, então, a fatídica segunda mina, quando ele, o comandante, exangue, se encontrava acoitado dentro do BMP-2 e a ser evacuado para a vila. Mas isso até hoje ninguém consegue explicar devidamente, mas nós sabemos como tudo aconteceu.


Todos os soldados do mundo, aqueles que combateram nas batalhas de verdade, sabem que na guerra existem dias putas. São jornadas durante as quais o cio da morte deita-se de pernas escancaradas, mas exige sangue ao invés de dinheiro. Naquela dia, a puta da metralha traiçoeira escolhera o seu dia e a sua hora. Era uma autentica obra do demônio a sacudir o Andulo.


Começou a ser cumprido o ritual. Os soldados de rosto fechado estiraram solenemente o corpo do comandante por cima do BMP-2 e cobriram-no com o manto sagrado dos guerreiros Cuanhamas. Assim rumaram silenciosamente.


Vinte e um anos passaram desde aquele maldito Sábado, 23 de Outubro de 1999.


Preito em memória do general Simione Mukune, em jeito de justa homenagem à todos os esquecidos soldados que lutaram nas batalhas que se desenrolaram no decurso da célebre “Operação Restauro”, em pleno coração de Angola.


Outubro de 1999. Quando a honradez e o sentido do dever se transformam na virtude do sacrifício supremo, os homens podem esquecer, mas a Pátria jamais olvida os que a defenderam com brio nos momentos mais críticos e de provação, para a conquista definitiva da Paz.


Como um dia Heinrich Boll escreveu: “sobre todos aqueles que o poder cósmico da vida preenche, o poder do destino desce por vezes imprevisto numa súbita iluminação do que será a sua graça e o seu fardo”. Pelo que vivi, acredito que Boll tinha razão.


O grande comandante tomba no seu posto de combate. Caiu por etapas, como o majestoso imbondeiro africano para dar lugar ao verdejante milharal que saciará a fome.


Na maldita manhã daquele Outubro, Simione estava à frente dos seus homens, no seguimento da batalha do Andulo, com a mesma bravura que sempre demonstrara. Os sábios escreveram na profecia que os verdadeiros soldados são como as estrelas do universo: nunca morrem! Mas quando tombam em missão de combate, apenas perdem um pouco da intensidade do seu brilho. Depois continuam orbitando algures na perenidade da imensidão cósmica.


A vida nos ensinou que existem homens-estrelas. São pessoas especiais que nascem para mostrarem aos outros o caminho seguro, ainda que sejam noites escuras, quando imperam dúvidas e incertezas, mesmo sem bússolas. Porque são eles as bússolas.


Era assim o comandante. Simione era o exemplo acabado da eleita franja da Humanidade que encontra razão de existir, vivendo em permanente desafio, no cumprimento do dever sagrado. Como se a morte tivesse o condão de transformar-se num ritual a ser implacavelmente seguido, para que a Paz resgate o seu valor supremo, no presente-futuro das crianças do Kuito e de Angola inteira.


Nos momentos de desespero, quando a situação se mostrava mais complicada, durante a heróica resistência na cidade mártir do Kuito, apelidada de “Sarajevo africana”, era a serena palavra dada pelo general Simione que se transformava no alento para milhões de angolanos, de Cabinda ao Cunene e do mar ao Leste. Kuito não cairia, nunca!


Simione nasceu em Xangongo, no Sul de Angola, na terra dos Cuanhamas, povo guerreiro, conhecido pelo seu orgulho combativo e elegante altivez. Herdeiros da têmpera de Mandume Ya Ndemufayo.

Simione Mukune, o grande general que encontrei e entrevistei na manhã do dia 21 de Outubro de 1999, na frente do Andulo, no calor de uma impressionante batalha que decidiria o futuro de Angola, era um homem de qualidades excepcionais.


Tinha uma personalidade fortemente vincada no sentido da missão que recebera após o falecimento em combate do general Kussumua, na saga dos iintrépidos comandantes do Bié, em cuja galeria figura o malogrado Mambi que antecedera a valente Kussumua.


Na manhã daquele sábado maldito, era a vez do sangue de Simione regar o solo pátrio.

Estava firme no seu posto, a inspecionar as suas forcas desdobradas no perímetro defesa do aeroporto de Andulo. Sobreviveu à primeira deflagração da mina anti-tanque, mas inexplicavelmente um segundo engenho foi accionado quando já se encontrava num outro veículo. A explosão causou a morte do comandante. Os seus homens cobriram-no com o manto tradicional dos guerreiros kwanhamas e acomodaram-no por cima de um carro blindado BMP-2 e foi assim que o transportaram. Uma equipa médica do Estado Maior General das FAA deslocou-se ao local e confirmou a sua morte, oficialmente comunicada a meio da tarde, a partir do posto de Comando Avançado da Catumbela, pelo então chefe do Estado Maior general das FAA, general de exército João Baptista de Matos, também já falecido.


Fomos sepultar o camarada general Simione no cemitério do Alto das Cruzes, numa cerimónia fúnebre a que assistiu o então Presidente da República e comandante-em-chefe das FAA José Eduardo dos Santos e sua esposa Sra. D. Ana Paula dos Santos.


Na passagem do 21º aniversário da sua morte, o general Simione Mukune continua na galeria dos principais cabos-de-guerra angolanos. Nas complexas operações militares em que participou, transmitia sempre uma inabalável imagem de força e carácter, que faziam dele um dos mais emblemáticos e respeitados militares do exército nacional e um dos obreiros da paz em Angola.

General Simione Mukune, Presente!



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