Luanda - Conheci o Delta em 1980. Lembro-me que era um Acampamento situado em plena mata, na parte norte do território da República da Namíbia, a poucos quilómetros da fronteira com Angola e a mais ou menos 200km a sul da Jamba. Foi criado em 1979 para albergar principalmente pessoas da terceira idade e crianças vítimas da guerra pós-independência em 1976, entre a UNITA e o MPLA.

Fonte: Club-k.net


No Delta, o Natal era celebrado com muita alegria e satisfação porque, durante as festas, o Acampamento recebia visita do Presidente da UNITA.


Para nós, as crianças do Delta, o Natal era a festa mais importante e esperada durante ano. Até mesmo o dia do nosso aniversário não era tão esperado como o dia do Natal. Talvez seja por isso que os meses do ano pareciam muito longos..., e que o Natal parecia que nunca mais chegava. É que, no Natal, havia muitas surpresas: recebíamos presentes das mãos do Dr. Savimbi.


Nas manhãs dos dias 25, por volta das 10 horas, nós, as crianças, naquela altura com 6 ou 7 anos de idade, concentrávamo-nos no pátio da casa de passagem do Dr. Savimbi para lhe saudar.


Assim que chegássemos, os guardas ajudavam-nos na organização: os mais pequenos ficavam na fila da frente, e assim sucessivamente.


Estando tudo pronto, cada um no seu devido lugar, víamos um dos guarda-costas, o tio Ndimba, dirigir-se à casa do Dr. Savimbi, e por lá permanecia durante alguns minutos. Todos nós ficávamos atentos aos movimentos dos que entravam e saíam. Assim que víssemos o tio Girafa, guarda-costas, abrir a porta, sabíamos que o próximo a sair seria o Dr. Savimbi.


O Dr. Savimbi Dirigia-se ao nosso encontro e fazia uma saudação colectiva. Agradecia a presença de todos e dizia que se sentia muito feliz pelo facto de estarmos com ele naquele dia. Também perguntava se estávamos a tirar boas notas na escola; dizia que não queria ouvir que um dos seus amigos reprovou. O Dr. Savimbi tratava-nos a todos como amigos.
Era uma conversa de poucos minutos, resumia-se à saudação e ao apelo à dedicação aos estudos. De seguida, começava a distribuir os presentes. Nós, perfilados, um a um, dirigíamo-nos ao encontro do Presidente, e Ele estendia-nos a mão para nos saudar; perguntava pelo nosso nome; entregava-nos o presente; e nos desejava boas festas.


Tendo os presentes em mão, cada um corria para sua casa. De tanta alegria, era correr sem olhar para trás. Naqueles dias, ficávamos a cheirar a mão que o presidente apertou. A nossa mão cheirava bem, cheirava a perfume! Dificilmente aceitávamos saudar com a mão, antes que o perfume desaparecesse.


Para além dos brinquedos, nós, os mais novos, recebíamos gasosa e rebuçados.


A primeira vez que recebi das mãos do Dr Savimbi um brinquedo e uma gasosa, fui a correr até a nossa casa para mostrar o presente à minha avó Benita. Eu dizia: avó, avó, fomos saudar o Presidente, e Ele me deu um brinquedo e uma Fanta. Essa Fanta foi a primeira gasosa de que me lembro ter bebido na minha vida. Ainda hoje, passados 40 anos, a Fanta, para mim, continua a ser a gasosa preferida. Sempre que bebo uma Fanta, recordo-me do sabor da primeira Fanta que recebi como presente de Natal das mãos do Dr. Savimbi, em 1980.


Mesmo os nossos manos, que na altura tinham entre 9 e 13 anos de idade, recebiam presentes. Só que os presentes deles eram colectivos. Eles organizavam-se em grupos de 6 ou 7 e escolhiam um representante para ir receber o presente. Recordo-me que o grupo do meu irmão mais velho recebeu uma bola de futebol.


Todos faziam questão de conservar da melhor maneira possível os seus presentes. Sabíamos que tínhamos apenas direito a presentes uma vez por ano, nas Festas de Natal.


Enfim... era assim que vivíamos as festas de Natal no Delta, com brinquedos e uma palavrinha que o Dr. Savimbi dirigia às crianças. Ele aproveitava muito bem aqueles momentos de festa e alegria, não só para nos oferecer os brinquedos, mas, sobretudo, para nos motivar a estudar. “Não quero ouvir que um dos meus amigos reprovou!”. Esse apelo a não reprovação fez muita diferença na nossa vida estudantil. Para muitos de nós, era como uma motivação extra que reforçava as exigências da nossa saudosa avó Benita Marcolino.


No fundo, a pressão do Presidente, da avó e dos presentes de Natal, obrigava-nos a nos aplicarmos um pouco mais aos estudos porque, naquela altura, pensávamos que o Dr. Savimbi acompanhava o desempenho de cada um de nós. Sabíamos que não tínhamos outra hipótese, a não ser a de estudar de verdade para evitávamos no máximo tirar Mau na Ortografia ou, Midíocre na Aritmética. Quando não conseguíssemos evitar o Mau, ficávamos tristes e envergonhados. Até havia vezes em que chorávamos amargamente.


Nós não queríamos Reprovar porque, se reprovássemos, o Presidente ficaria zangado connosco.
Afinal, todos nós queríamos continuar a ser bons amigos do Dr. Jonas Malheiro Savimbi.


Bom Natal!
Luanda, 17 de Dezembro de 2020
Gerson Prata



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