Luanda - Certamente que esta é uma daquelas obras que dispensariam, sobretudo para os angolanos, qualquer tipo de apresentação, comentário ou opinião, por um lado, porque o seu conteúdo de per si já conforma isso mesmo: um estado de opinião bastante assertivo sobre um sem número de matérias relacionadas essencialmente com os habituais queixumes do quotidiano sociopolítico, económico e cultural de uma Angola que a todos nós diz respeito; de uma Angola que a todos nós pertence e que a todos nós continua a suscitar de maneira paradoxal um sentimento de apego ou desapego, conforme as circunstâncias objectivas ou subjectivas que cada um enfrenta.

Fonte: Club-k.net
 
Obviamente que fica subentendido o facto de estarmos aqui reunidos não por razões que terão que ver com alegados actos preparatórios de qualquer coisa proibitiva ou de natureza criminal — passíveis de uma interpretação inusitada exarada por um juiz de serviço, a lembrar um guião cinematográfico que superasse todo um imaginário de ficção científica —, mas porque, somados todos estes anos, desde que aqui chegamos como país — há já quatro décadas e meia — temos a oportunidade de, uma vez mais, aceder a um olhar interior sobre os nossos actos e omissões, reunidos nesta colectânea de cartoons da autoria de Sérgio Piçarra; a sétima obra individual do autor, à qual se juntam outras três em co-autoria.


 
Por outro lado, como dizíamos há pouco, este acto em si dispensaria qualquer apresentação, comentário ou opinião, a partir do momento em que abrimos o livro, folheamos as suas páginas e deparamo-nos com uma série de perguntas, sendo algumas das quais filosoficamente confrangedoras, como, por exemplo: quem apresenta quem neste acto? Os cartoons apresentam-nos a nós ou nós apresentamos o resultado de um ensaio em que as personagens dos cartoons apresentam a nós? Obviamente que a mais simples e natural das respostas seria que nós apresentamos os cartoons, mas não seria de todo este o entendimento deste livro se as suas personagens falassem por elas mesmas.


 
Senão vejamos: se cada uma dessas personagens tivesse vida própria e saísse ao mundo a dizer o que de nós julgasse saber ou conhecer, provavelmente uma apresentação como esta, um comentário ou mesmo uma opinião que se quisesse acrescentar ao seu conteúdo deixava de fazer qualquer sentido. Tal qual não se questiona o sexo de um cão — como recomenda um provérbio kikongo — também seria escusado dizer ao mundo quem nós somos ou em que estágio nos encontramos como país, se alguém tivesse passado previamente em revista a nossa folha de serviço!
 
Estes cartoons de Sérgio Piçarra são, no fundo, o resultado de um exercício de análise realística do país que temos sido. Ou provavelmente do país que ainda não somos, ou mais seguramente o ainda o retrato do país que não podemos ou não gostávamos de continuar a ser. Se nos pedissem a nossa opinião seria que este exercício de Sérgio Piçarra representa um sentido crítico e desassossegado de um actor social angolano consciente, que vê o país como o leito de um rio para o qual se deveria encaminhar todas as iniciativas merecedoras de tornar Angola um espaço de melhor debate público sobre as transformações que têm sido adiadas ao longo de décadas.

No plano imaginário, era bem capaz de cada uma das personagens de Sérgio Piçarra apontar-nos o dedo acusador a partir de uma esquina qualquer do mundo e rir-se de nós quando, no alto da nossa vaidade pseudo-intelectual e doutoral, nos propuséssemos a reflectir sobre determinado assunto em particular ou a dar lições ao mundo — somos especiais por alguma razão — sobre matérias diversas que tivessem que ver com o estado de opinião em Angola, a liberdade de expressão e de imprensa, a situação dos direitos humanos, a acumulação primitiva de capitais — obviamente muito distanciada da proposta por Karl Marx —, a liberdade de manifestação, o desenvolvimento social, a crise económica e moral, o combate à corrupção, as prioridades governativas, a pobreza, a fome, a miséria, a qualidade do ensino e da saúde, o cabritismo, e etc...
 
Falando em cabritismo, a esse respeito, ficaria bastante caro explicar, por exemplo, o cabritismo angolano. Porque teríamos de ir comprar primeiro o cabrito num mercado qualquer, e depois trazê-lo a Luanda, amarrá-lo a uma árvore e deixá-lo a comer sozinho, enquanto de forma estupidificada, do outro lado da barricada, se arregimentasse um exército de kaenches ou um cordão policial com cães raivosos e gás lacrimogéneo expirado, para que mais ninguém se juntasse ou tivesse acesso ao banquete! Claro está que quem se arriscasse a tal proeza, é escusado dizer, haveria no mínimo de levar com uma barra de chocolates ou com um saco de rebuçados no lombo! Porque cabrito-cabrito como tal, definitivamente não!
 
Em suma e, só para fecharmos esta questão introdutória que já vai longa, que tem que ver mais com uma reflexão pseudo-filosófica, o acto de apresentação, neste particular, impõe-nos muitos riscos, até o de passar vergonha, porque quem apresenta um livro de cartoons, além de fingir ser um pseudo-intelectual tudólogo, igual ou superior ao do mercado angolano, deve introduzir factos novos na sua abordagem, elementos inéditos cuja natureza e impacto seja de interesse nacional ou porque o seu surgimento no debate público irá a constituir uma boa-nova para aqueles que o ouvem. Mas, mesmo neste sentido, a obra de Sérgio Piçarra dá-nos poucas chances de brilhar, porque ela por si só reflecte e resume o país à velocidade do metro de superfície de Luanda ou leva muito menos tempo a chegar à capital utilizando a ponte que liga Cabinda ao Zaire;
 
Qualquer comentário, por seu turno, a esta obra implica uma acepção enunciativa original com base num pré-juízo — e aqui convém dizer que as palavras estão salvaguardadas por justaposição através do hífen, portanto, “pré” de um lado e “juízo” do outro, aliás só assim se justifica muito do que tem acontecido no país derivado precisamente desta separação infeliz e politicamente inquestionável do termo juízo em relação às demais palavras e às aplicações em construções frásicas. E mesmo nesta matéria não conseguimos arrancar um riso diminuto às pessoas que nos ouvem ou nos assistem, porque existe entre as personagens de Sérgio Piçarra figuras que contam muito mais que os ganhos tangíveis e intangíveis alcançados. Obviamente que não atendem pelo nome de oxigénio, mas Esperança, que é um nome que diz muito aos angolanos. E a Esperança nunca está só. Tem sempre às costas o seu pequeno maninho.
 
E, por um último, a questão da opinião que encerra juízos de valores que se apresentam sob a forma de réplicas enunciativas sobre um determinado tema ou assunto. À luz da obra de Sérgio Piçarra, uma ideia formulada dá-nos lugar de destaque numa daquelas listas cujas opiniões só servem se não forem emitidas através das ondas curtas da rádio Filomena Oliveira. Goste-se ou não da grelha de programação. Mas aqui existe uma outra façanha de Sérgio Piçarra digna de destaque: a célebre figura da Fatita, esposa de Mankiko, a sua mãe e as amigas.
 
Posto isso, teríamos um único problema: encontrar uma estratégia de convencer as personagens de Sérgio Piçarra de que por mais que elas já tenham tomado todos os nossos queixumes como objecto de sarcasmo, de humor e de ridicularização, ainda assim, faz todo o sentido que alguém venha a público tecer algumas considerações. Tal qual o discurso autárquico, que se renova e se inova conforme o estado de ânimo, já que o dito pode ser o não convocado e o convocado nem sempre passar pelo dito.
 
No fim das contas, todo este exercício intelectual que dá forma a esta colectânea de cartoons de Sérgio Piçarra acaba por constituir uma espécie de expurgação social que nos desnuda perante um pedestal que sempre assentou numa base social bastante frágil — e já lá iremos —, porque o que se assiste ainda hoje é a uma manifestação aligeirada da Síndrome de Estocolmo, apenas contrariada com a ideia de uma indignação generalizada que não passa disso mesmo, de uma ideia, mas que poucos vêem como uma chama capaz e democrático de provocar mudanças estruturantes de grande monta, tão aguardadas há 30 anos.
 
No fundo, estes cartoons de Sérgio Piçarra saberão mais de nós do que nós deles, pelo que qualquer infeliz coincidência com uma tentativa fracassada de uma apresentação à altura deste livro de nossa parte deverá ser imputada não a nós mas ao juiz Manico, peço desculpas, ao juiz Mankiko, esta ilustre figura da banda-desenhada angolana, no qual se resume a definição mais realista do alter-ego angolano. Não será certamente o homem novo, porque este se ficou pelas calendas gregas. No entanto, temos a figura do Mankiko que tem assistido a tudo isso há já 30 anos.

Aliás há 30 anos, Angola passou a experimentar uma nova caminhada, mas esta já vinha, quanto a nós, com um tremendo passivo, um passivo de pelo menos 16 anos, que derivou da implantação de um Estado monolítico, em 1975. Acrescido de outros acontecimentos de muito má memória para a história recente do país, tivemos neste facto um mau início de campeonato e as consequências mais do que visíveis se passeiam por aí.


A instalação do Partido-Estado e do que seguiu como marco de um processo político desestruturante ergueu imensas fronteiras que impediram que se construísse uma ideia de colectivo que tivesse culminado numa estratégica de investimento intelectual sem par. O fracasso desse processo político de estruturação de um modelo de sociedade, em parte minado pela efervescência político-ideológica, pecou pela ausência gritante de um sentido crítico sem censura prévia, e continuou a pecar e peca ainda hoje por não constituir um dos principais pilares para a tão almejada reviravolta que é preciso fazer em direcção ao país desassossegado que nos tentam transmitir as personagens de Sérgio Piçarra.


Até nisso a obra de Piçarra pioneira. Se não vejamos: as barreiras de consciência ou da opinião militante impuseram-se como condição estatutária. Se analisado o percurso artístico de Sérgio Piçarra e sobretudo o da sua mais representativa figura que é o Mankiko, perceberemos que a ideia de Estado de excepção, teve sempre um significado contrário ao dos demais. Essa personagem nunca se coibiu quando teve de formular opiniões sobre um conjunto de acontecimentos e conseguiu um feito que provavelmente mais ninguém conseguiu em Angola: emitir a sua opinião sem ser conotado com partidos. Aliás, como de resto aconteceu com o seu criador. Que continua a ser felizmente o cidadão e artista Sérgio Piçarra.


Os cartoons de Piçarra expõem as consequências mais visíveis e as menos visíveis também de um quadro social em estado crítico; um problema para o qual continuamos a virar as costas por acharmos que não constitui prioridade para uma geração vindoura que hoje não tem nos meios clássicos a principal fonte de informação e de formação.


O título do livro “Agarra Marimbondo!”, que hoje temos o grato prazer de apresentar, correndo todos os riscos de as suas personagens rirem-se de nós, é também revelador de um exercício contra a miopia militante, e um importante fragmento de um compromisso cívico que a todos os actores se exige como quota-parte de responsabilidade perante o solo pátrio. Ignorar todos esses sinais pode representar a assunção de uma cegueira capaz de tornar o nosso fardo ainda maior do que aquele que vimos transportando até hoje.


Portanto, um bem-haja ao Sérgio Piçarra que este ano inscreve o seu nome na prestigiada lista dos vencedores do prémio franco-alemão dos Direitos Humanos e do Estado de Direito.
 
Viana, aos 17 de Dezembro de 2020
 
Nok Nogueira
Jornalista e escritor

 



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