Moshood Abiola Vs Morgan Tsvangirai?

Entretanto, a história recente de África, ilustrou de forma lúcida, expressa e por várias vezes, quão perigosos podem tornar-se contornos do género, mormente quando aqueles que, embora podendo algo fazer para evitar o pior, limitam-se a olhar silenciosamente uma nação e um povo a afundar-se no abismo. Simplesmente nada fazem para evitar que o caso do nigeriano Moshood Abiola não se torne em “caso Morgan Tsvangirai”, no Zimbabwe.

É que tal como no Zimbabwe hoje, em 1993 na Nigéria do então General Ibrahim Babangida tudo começou mais ou menos exactamente assim: um desmedido e pseudo- patriotismo diabolizando uns (Oposição) e venerando a outro (o Regime militar) com o único fim de tudo fazer para a manutenção do poder.

Assim como no Zimbabwe de hoje, Robert Mugabe tenta á todo custo saír do desgastante “embargo” diplomático e económico dos EUA e da União Europeia, na Nigéria do fatídico ano 1993 vivia-se justamente o mesmo cenário. Os EUA e o Reino Unido suspendem a ajuda militar, económica e congelam as relações diplomáticas com a Nigéria do General Babangida, que mantinha nas suas prisões de alta segurança,  personalidades de peso étinico e político do país tais como Olusengo Obasanjo e muitos outros. Sufocado com o efeito imediato das pesadas sanções vindas de dois influentes “parceiros” do outrora, o General foi forçado quase que a rescindir ao poder. Como consequência imediata, Babangida tal como Robert Mugabe hoje, deu contra a sua vontade o braço a torcer promovendo a realização de eleições presidenciais, adiadas sucessivamente ao seu belprazer.

Tirando partido desta abertura, o empresário oposicionista Chief Moshood Kashimawo Olawale Abiola, candidata-se á poltrona presidencial em Abuja, participa e ganha o pleito eleitoral de Junho de 1993. Entretanto e tal como parece ser claramente o paralelo no Zimbabwe, Abiola cometera um “pecado capital” ao ter se “atrevido” a afrontar os detentores do Poder em Abuja.

Bashir Tofa, candidato simulado proposto por Babangida para evitar a derrota antecipada nas urnas, mesmo com massiva e maciça manipulação, perde o pleito á favor do empresário e multi- milionário Abiola. Não se dando por vencido, Babangida ensaia uma jogada de manga e anula os resultados eleitorais, alegando fraude, mesmo tendo ele o controlo de toda maquinaria eleitoral.

Numa tentativa de acalmar os protestos pela anulação dos resultados eleitorais, a Junta Militar sob o comando do General Babanginda, transfere a Presidência á um “civil” de nome Ernest Shonekan, ao mesmo tempo que Abiola reivindicava o posto e exigia ser empossado como Chefe de Estado eleito, o mesmo que Tsvangirai também tentara sem êxito há pouco mais de mês e meio no Zimbabwe. Dando ouvidos as reivindicacoes de Abiola, a Suprema Corte nigeriana declara inconstitucional o governo de Shonekan. Não vendo como manter-se na poltrona presidencial em Abuja e para livrar-se de qualquer retaliação devido aos excessos cometidos durante a sua férrea governação, Babangida faz com que Shonekan entregasse o poder ao então Ministro da Defesa, General Sani Abacha, que sem vacilar, aceita o repto de continuar com o generalato presidencial na Nigéria e governa ao estilo característico de Generais, dictatorialmente e de maneira mais bruta que o seu antecessor.

Primeira medida do novo homem forte em Abuja: Ordem de Prisão imediata contrra Abiola, alegadamente por pôr em causa a coesão e integridade do Estado e da nação. Entretanto, a ordem prisão, desencadeia e desemboca numa greve de petroleiros, seguida e apoiada massivamente por outros sectores. O movimento provoca a queda radical da produção petrolífera, elevando o preço do precioso líquido no mercado internacional. Os juízes do Supremo que ordenaram a libertação incondicional de Abiola,  despiram os robes de púrpura em geito de protexto contra os excessos da Junta Militar.

ImageMesmo a intervenção directa do carismático Koffi Annan, então Secretário Geral das Nações Unidas bem como os apelos vindos da Rainha Elisabeth II. da Inglaterra, não foram suficientes para lograr a libertação do conhecido Chief Moshood Abiola: Na sua última carta que escreveu apartir da cadeia e que um dos seus incontáveis filhos teve acesso, Abiola manifestou a sua desilusão para com Annan, por este, apesar da sua alta e respeitada posição á cabeça da ONU o ter visitado na cadeia e não tendo sequer logrado que o encontro tivesse tido lugar num local mais decente, por exemplo numa Missão diplomática ou mesmo num hotel. Daí a razão que Abiola chegara mesmo a acusar o Ghanense ao serviço da ONU de “Agente do Regime Militar” de Sani Abacha logicamente.

Mostrando ser “doce” o Poder e a solidariedade entre os detentores do Poder ser real, mormente quando se trata de Regimes dictatorias e autoritários, Moshood Abiola não viria sequer ser libertado nem durante e muito menos depois da Cimeira dos Chefes de Estado da Comunidade Económica da África Ocidental, paradoxamente realizada em Abuja a 5 de Agosto de 1994.
Igualmente, encontramos aqui outro paralelo, embora numa outra variante e estado: no caso Zimbabwe. nem mesmo os Chefes de Estado presentes á Cimera da SADC realizada em Lusaka, conseguiram demonstrar o valor e coragem para forçar o ancião Robert Mugabe a reconhecer quão deslocado estão ele e o seu navio da rota exigida.
 
Assim como na Nigéria no final da década dos `90, também hoje no Zimbabwe, o Ditator se entrincheirou no poder tentando manté-lo pela força do Exército que apenas e simplesmente á ele deve lealdade, ao invés fazê-lo extensivamente aos cidadãos e a sociedade. Como se não bastasse, a imprensa estatal zimbabweana exageradamente instrumentalizada pelo regime, prometeu apenas passar spoths publicitários da ZANU- PF de Mugabe. Mesmo assim não sendo suficiente, o regime orquestrou uma auténtica caça ás bruxas á imprensa privada, destacando a proibição do conhecido e prestigiado Jornal The Harald, onde activistas dos Direitos Humanos e outros intelectauis que se identificavam com os ideiais da Oposição não foram poupados, mas sim perseguidos, processados sumária e arbitrariamente; encarcerados e muitos deles até mesmo mortos. Na Nigeria do período a que já venho fazendo referência, acontecia o mesmo: o prestigiado Lagos Guardian viria a ser encerrado; os corpos directivos dos sindicatos dissolvidos; até mesmo o conhecido escritor e dramaturgo Wole Soyinka, Prémio Nobel da Literatura de 1986, viu retirar-lhe o Passaporte nas vésperas da sua partida para Lisboa, onde aos 28 de Setembro de 1994, deveria assistir ao Parlamento Internacional dos Escritores. Seguiram-se outras atrocidades e atentados contra os principios, normas e valores democrátivos.

A passividade cúmplice da Comunidade Internacional já demonstrou no caso da Nigéria de Sani Abacha para ilustrar, que a Diplomacia em casos extremos como é o caso actual do Zimbabwe, deveria ser acompanhada por mecanismo mais além do que mera formalidade. No âmbito da SADC por exemplo, caso houvesse vontade e motivação política dos países membros, principalmente do Presidente da Comissão de Defesa e Segurança, por coincidência o Chefe de Estado angolano José Eduardo dos Santos, Mugabe não teria como contornar qualquer que fosse a decisão á seu desfavor. A não ser assim, não nos surpreenderia que tal como o General Sani Abacha em pleno auge do seu generalato, ordenara em Novembro de 1995 o enforcamento do também conhecido e prestigiado escritor e ativista dos Direitos Humanos, Ken Saro-Wiwa, por se opor ao seu regime e defender a libertação de Moshood Abiola bem como de defender o povo Ogoni da miséria junto ao Delta do Níger.

Infelizmente, tantos são os paralelos que poderiam ser rebatidos ao longo desta consideração, no intuito de retratar em termos preventivos, presumíveis cenários que esperam cumprir-se em Morgan Tsvangirai e não só.

Devido talvez á excessos que só ele saberia descrevê-los, em Fevereiro de 1998 o General Sani Abacha morre em sequência de um ataque cardíaco. Outro General, o Abdusalam Abubakar então Chefe do Estado Maior das Forças Armadas toma o poder, libertando uma série de presos políticos e marca novas eleições presidenciais. Curiosamente em véspras de um novo pleito eleitoral bem como da anunciada liberdade de Moshood Abiola, encarcelado desde 1994, este viria a morrer “repentinamente”  aos pouco antes de ser posto em liberdade. Diágnostico: ataque cardíaco!

Acredite quem quiser, mas a matemática neste caso é simples demais: um homem que concorre e ganha um pleito eleitoral mas que não toma posse pois é encarcerado por  uma Junta Militar obsecada pelo Poder. Depois de ver passar vários Generais Executivos usurpando aquela que seria a sua poltrona presidencial, todos eles ignorando sua existência na càrcere, vê anunciada a sua liberdade em véspera de novas eleições, em cuja ele anunciara não participar em forma de protesto, mas sim continuar a reivindicar a sua tomada de posse como Chefe de Estado saído das últimas eleições de há 6 anos, apesar do calvário passado?
De repente, é justamente este mesmo homem que aparece alegadamente a ser acoçado por um “ataque cardíaco”?. Acredite quem quiser...

Quando hoje á noite, há justamente 3 dias da realização da 2. volta das Eleições Presidenciais no Zimbabwe seguia o lacónico e até mesmo insultuoso statement do Ministro das Relações Exteriores do Zimbabweia á saída da audiência que lhe foi concedida pelo PR de Angola, fiquei de uma vez por todas convencido de que Mugabe tem de facto “Costas largas” e não vê a necessidade de mudar de actitude quanto ao que se passa no seu país. Como se nós, os ouvintes angolanos que acompanhamos o noticiários fóssemos literalmente cegos e não poder enxergar nem concluir que no Zimbabwe de hoje não há nem ambiente nem clima para eleições livres e democráticas.

De facto ou estou errado nas minhas conclusões, o que não creio, ou o chefe da diplomacia zimbabweana, perdeu mesmo os estribos e o equilibrio nas suas articulações, tal como o seu mais velho já os perdeu há anos.

Tal como Moshood Abiola nascido aos 24 de Agosto de 1937 e assassinado aos 7 de Julho de 1998, Morgan Tsvangirai apenas está no inicio de uma empreitada que passará por labirintos antes de chegar ao jogo onde o Gato caçaa o rato. Resta saber quém é quém neste jogo e em que vai desembocar o “exílio” de Tsvangirai nos Países Baixos.

* Orlando Ferraz/Politólogo, Consultor e Analista Político
Fonte: Angolense



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