Desde a sua fundação que o MPLA utiliza o lema “A Luta continua”. Porquê?
O nosso lema “A Luta continua” refere-se ao esforço para acabar com o sub-desenvolvimento, para que a economia se torne mais forte e podermos redistribuir a riqueza, criar empregos, ter uma agricultura forte, combater o analfabetismo, etc. Não se pode entender como uma luta de armas. Tudo o que fazemos para alcançar o desenvolvimento é a luta.


Neste momento o que preocupa o MPLA?
A principal preocupação do MPLA é desenvolver o país para proporcionar o bem-estar às populações e obter uma renda nacional que permita que as pessoas vivam bem. Falo de renda nacional no sentido de criar empregos, educar as pessoas, dar saúde. Note que o MPLA passou por várias etapas na sua luta. A primeira foi a da libertação nacional, até 1975. Depois lutámos para manter a integridade nacional e mais tarde para unir o povo em torno dos ideais da nossa luta: acabar com o tribalismo e com o divisionismo. Depois lutámos pelo desenvolvimento sócio-económico do país, para termos estradas, água e energia, escolas, hospitais, etc.

Acha que ao longo destes anos de governação, o MPLA deu provas suficientes de ser capaz de grandes realizações?
Desde que alcançámos a paz, em 2002, já fizemos mais do que nos outros anos da independência. Antes havia intenções, fez-se um esforço para reactivar a produção, para desenvolver o país, mas em alguns casos todos os esforços foram por água abaixo, porque houve destruições. Agora, com a paz, já se pode fazer uma boa planificação - como estamos a fazer - já se podem executar obras sem interrupção. Já fizemos muito, mas se me perguntar se é suficiente, digo que não. A miséria ainda continua, mas está a diminuir, porque muitos que estavam impedidos de produzir já se encontram nas suas áreas a cultivar e a criar gado.

O MPLA ainda é o orgulho dos angolanos, como era antes e após a Independência Nacional?
Julgo que sim. Por aquilo que fez pela Nação, desde a luta de libertação até agora, o MPLA tem sido o partido que mais tem feito pelos angolanos. Pode haver um ou outro que discorde, que diga que não, mas a verdade é que o MPLA sempre esteve com o povo, salvou a vida de muita gente, durante a guerra. O MPLA não fez mais nada do que defender a vida das pessoas, porque a guerra nos foi imposta, não foi o MPLA que começou a guerra, foram as outras forças. E todos sabem o que esta guerra trouxe: mortes, destruições, muitos mutilados, famílias destruídas, mas, nos momentos difíceis, o MPLA sempre esteve para defender o povo, para que a Nação não se dividisse. Isso foi uma das grandes conquistas do partido. Mesmo nos momentos difíceis, conseguimos manter a integridade nacional e não ter a nação dividida. O resto cabe à população avaliar.

Faltam poucos dias para as eleições. O MPLA está preparado para perder?
Há dois resultados possíveis: ganhar ou perder. Mas nós estamos a trabalhar para ganhar. Quando um clube vai para o campo, vai para ganhar. Agora, no campo, quem tiver mais argumentos é que vence. O MPLA vai para estas eleições para ganhar, nunca escondemos isso.

Até que ponto está preparado para ganhar em Setembro?
O MPLA sempre esteve preparado. Só que não podia aparecer sozinho, tinha de cumprir com a lei. Em 2004, fizemos um estudo e dissemos que o país ainda não estava preparado para eleições não era o MPLA que não estava preparado, mas o país. Acabávamos de sair de uma guerra atroz, as pessoas estavam muito traumatizadas, tinham perdido os seus entes queridos, o país tinha muitas minas, não tínhamos estradas, não tínhamos pontes, havia muitos problemas de fome, não havia moral. Mas havia partidos que diziam que queriam eleições já. Tínhamos a experiência de 1992, era preciso preparar as populações, as igrejas, a sociedade civil, fazer com que todos contribuíssem para a pacificação dos espíritos. Hoje, passados seis anos, a sociedade clama por estas eleições. Então vamos às eleições. E o apelo que faço é que, seja qual for o resultado eleitoral, guerra jamais. Vamos para estas eleições com segurança e tranquilidade, porque temos um Estado forte, uma Polícia forte, não deve haver receios.

Qual a estratégia do MPLA para conquistar o eleitorado?
Mobilizar os nossos eleitores e preparar os nossos militantes. Nunca parámos de exercer as nossas actividades partidárias em todos os níveis. Vimos organizando o nosso partido, estamos a aumentar o número de militantes e a manter o partido cada vez mais forte, coeso e unido. Não podemos ir para o jogo fracos. Queremos ir fortes, para vencer. Esta é a nossa estratégia: trabalhar para vencer.

Em 1992, o MPLA perdeu em algumas províncias. O que esteve na base da derrota e qual a estratégia para que desta vez o resultado seja diferente?
Estamos a trabalhar para todo o território nacional. Queremos melhorar o resultado nas zonas que consideramos cinzentas, aquelas em que perdemos. A estratégia é aumentar a mobilização, os esclarecimentos, convencer a população, persuadi-la. Não impomos nada, apenas trabalhamos para persuadir as pessoas. Apresentámos o nosso programa de acção, explicamos os nossos objectivos.

Queremos levar água, energia, escolas e saúde para estas áreas cinzentas, para todo o país. Levar aquilo que a população necessita: o desenvolvimento, o seu bem-estar. Este é o objectivo da nossa luta. O país atingiu um patamar tal de desenvolvimento, que não queremos que se interrompa. Queremos seguir em frente. Por isso, onde obtivemos vitórias, queremos subir cada vez mais. Onde temos dificuldades, estamos a trabalhar para vencer.

O que determinou a derrota nestas áreas e como evitar os erros de 1992?
Na altura, a UNITA usou a força, ameaçou as pessoas e elas ficaram com medo. Por isso é que em algumas áreas não obtivemos resultados positivos, porque as pessoas foram ameaçadas. Ou tiveram boletins nulos ou tiveram de votar na UNITA. Agora o contexto é diferente. Estamos a trabalhar para atingir um resultado muito bom, que satisfaça os objectivos de Angola e do MPLA. Porque o MPLA não luta para si, as perspectivas do partido são para Angola, para o povo angolano. Por isso, quanto maior for o resultado, melhor para Angola.

Até que ponto o MPLA conseguiu acompanhar as mudanças da sociedade e do mundo?
Modéstia à parte, temos a capacidade de compreender e temos consciência de mudança. Nenhuma força interna ou externa impôs algo para mudarmos. O MPLA foi mudando no seu interior. Dificilmente passamos um período sem realizar acções internas, as assembleias de base do partido, as conferências municipais, provinciais e comunais, as conferências nacionais e os congressos, conforme mandam os estatutos e regulamentos do partido. Destes congressos têm saído decisões que levam a mudanças nas fileiras do partido. Por isso, dizemos renovação pela continuidade. Se reparar, dos camaradas que estiveram na direcção do partido desde a independência ficaram poucos. Hoje encontram-se camaradas novos nas fileiras do partido, a vários níveis.

Quando é que começa a mudança no MPLA?
O sentido da mudança começa com a primeira conferência do partido, que teve lugar em 1985. Fomos fazendo leituras do mundo e tomando iniciativas. Em 1989 e 1990, passámos para o multipartidarismo. Isso não nos foi imposto. Foi o próprio partido que teve sentido de mudança. No MPLA gostamos de nos antecipar aos acontecimentos. Hoje, somos um partido clássico, moderno, um partido de massas e de quadros, virado para as mudanças.

Vários partidos apresentaram dificuldades para recolher as 15 mil assinaturas para legalização junto do Tribunal Constitucional. O MPLA também teve esta dificuldade?
O MPLA tem nas suas fileiras mais de três milhões de militantes e está representado em todas as localidades. Se percorrer o país, vai encontrar muitas bandeiras do MPLA. Por isso, a questão das assinaturas não constituiu problema.

A lista de deputados propostos é consensual dentro do partido?
Foi consensual. A nível das províncias, foram elas próprias que analisaram e discutiram para ver quais seriam os candidatos. A nível nacional, as propostas foram anali-sadas, o partido discutiu a vários níveis, até que se chegou ao Comité Central, onde se discutiu e se aprovou a lista. Isto quer dizer que chegámos a um consenso. E repare que a nossa lista tem 41 por cento de mulheres. Este número está longe de 1992, em que devíamos ter cerca de 16 por cento, no conjunto de 129 deputados. Desta vez, já ultrapassámos a cifra da SADC, que indica 30 por cento.

Está a dizer que não houve amiguismo?
Não houve amiguismo. As nossas duas listas, para o círculo provincial e para o nacional, foram de consenso. Antes houve uma comissão de candidaturas, que apresentou as listas nas estruturas competentes, houve discussão e a lista foi votada. Pode aparecer discussão porque está o fulano e não o sicrano. Por exemplo, há províncias que têm entre 300 a 500 mil militantes e só podem ter cinco efectivos e cinco suplentes. Qualquer que seja o escolhido, há sempre questionamentos. É normal. E isso deve ter acontecido também noutros partidos.

O Presidente José Eduardo dos Santos é o candidato natural do MPLA para as eleições presidenciais?
Sim, é o nosso Presidente, é o nosso candidato e continuará a ser o nosso candidato. Para nós, isso é inquestionável e não sei por que muita gente de fora questiona. O partido só pode ter um candidato. Se um grupo qualquer quiser apresentar outro, democraticamente vamos avaliar para ver se está em condições ou não. Mas o nosso candidato é o Presidente José Eduardo dos Santos.

O dinheiro disponibilizado pelo Estado aos partidos políticos satisfaz o MPLA?
O nosso partido é muito grande, mas temos de aceitar. As eleições são apenas um dia. Se gastarmos todo o dinheiro, o que será do povo angolano no dia seguinte? Temos de aceitar aquilo que o Estado pode dar, não podemos exigir muito e o primeiro exemplo tem de partir do próprio MPLA. O MPLA aceita que o Estado disponha, para os partidos políticos, aquilo que pode dar, porque tem muitos compromissos. Temos de continuar a construir estradas, escolas, hospitais, caminhos-de-ferro, a construir Angola. Não podemos gastar todo o dinheiro com as eleições.


Fonte: JA



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